Galeria Almeida e Dale abre retrospectiva do pintor José Antonio da Silva

Exposição tem início hoje, 11, e conta com 50 telas de pintor que levou o rústico à sofisticação

Celso Filho, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 16h00

“Na pintura de Silva só preponderam os valores pictóricos”, ressaltou Lourival Gomes Machado, em um artigo publicado no Estado em 1948. A ocasião do texto era a primeira mostra individual de José Antônio da Silva (1909-1996) em São Paulo, sua estreia na extinta Galeria Domus, famoso reduto paulistano de arte moderna. Apostas de Lourival e de outro crítico da época, Paulo Mendes de Almeida, a espontaneidade e a pureza da pintura de Silva pretendiam saciar os anseios do meio artístico naquele período de pós-guerra. Independentemente de seus descobridores estarem certos ou não, aquela pequena exposição foi o pontapé para uma carreira que levou o autodidata a se tornar um dos principais nomes da arte popular brasileira. Esta trajetória é lembrada em uma mostra com 50 obras, inaugurada ontem na Galeria Almeida e Dale.

 

O primeiro contato de Lourival com Silva foi dois anos antes da estreia em São Paulo. O artista, que havia saído da zona rural de Sales Oliveira, interior de São Paulo, inscreveu três obras em uma mostra coletiva de inauguração da Casa de Cultura de São José do Rio Preto. Para a surpresa dos organizadores da exposição, aquelas pinturas feitas sobre telas improvisadas com flanelas, representando cenas simples do interior, foram as que mais chamaram a atenção dos dois críticos da capital.

 

Silva não conseguiu o prêmio do júri na mostra, mas foi convidado a expor na cidade grande. Na Galeria Domus, o sucesso foi espontâneo e ele conseguiu vender todas as obras - o então diretor do Masp Pietro Maria Bardi adquiriu grande parte de seus quadros. Dali, o casal Yolanda Penteado e Cicillo Matarazzo organizou um jantar para conhecê-lo e, em 1951, ele estaria entre os artistas escalados para a 1ª Bienal de São Paulo.

 

Porém, não foi somente um acaso seu trabalho ter sido reconhecido. Principalmente em suas primeiras criações conhecidas, Silva partia de um repertório ligado ao seu mundo. Eram paisagens rurais, com casebres, bois e cavalos, ou cenas do cotidiano do interior - caso de O Médico da Roça, de 1948, ou O Flagrante de Adultério, de 1950. Desde aquele início, ele pintava com uma perspectiva invertida, muito usada nos ícones bizantinos e retomada pelos cubistas, como nas telas Boiada Bem Conduzida (1956) e Viva Maria Rainha do Céu (1955). Com consciência ou não disso, ele ia no sentido contrário à tradição renascentista e adotava uma estratégia de aproximar o espectador da cena pintada, de modo que o olhar pode percorrer a cena retratada com mais facilidade.

 

“Ele viveu num paradoxo. Continuava morando no interior, pertencendo a esse mundo mais rústico. Mas ao mesmo tempo, ele começava a circular num mundo sofisticadíssimo”, explica a curadora da mostra na Galeria Almeida e Dale, Denise Mattar. Essa dicotomia influenciaria toda a obra do artista. No livro Silva, o crítico Olívio Tavares de Araújo conta que seu conhecimento sobre Van Gogh se deu em uma visita ao Masp. O seu fascínio pelo holandês, aliás, pode estar ligado a uma de suas fases mais polêmicas.

 

Por volta de 1955, ele começa a produzir telas influenciadas pela técnica do pontilhismo. Com uma possível referência à tradição divisionista, ele alcançava a materialidade e ilusão de vibração ao distribuir pequenas pinceladas coloridas, formando uma massa similar a um bordado, como em Campos Plantados com Bananeiras (1956). “Esta fase dele tem um ponto de proximidade com a tapeçaria bordada’, explica Denise. Curiosamente, Silva chamava a técnica de pontilhado, enquanto a crítica a nomeava como pontilhista. O novo estilo não agradou a todos e ele foi negado de participar na 4ª Bienal de São Paulo. Dado a polêmicas e enfurecido com a decisão, ele enforcou os jurados da exposição em uma série de pinturas.

Silva não foi o primeiro, nem o último, dos ditos ‘primitivos’ a alcançar um posto no establishment artístico. A arte brasileira, aliás, é rica de exemplos - uma ida hoje ao Masp te apresentaria, por exemplo, a carreira de outro mestre popular, Agostinho Batista de Freitas. Porém, o pintor se empenhou em entrar naquele concorrido circuito e estava com os olhos abertos a outros artistas. O feito de Silva está principalmente em ajudar a colocar a pureza e inocência da arte popular em diálogo com questões de uma produção dita erudita.

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