Ganhou o cinismo

Fraude ou não, na história da menininha expulsa da lanchonete por suas cicatrizes não há vencedor

Mary Elizabeth Williams , SALON

28 Junho 2014 | 16h00

Na matéria mais “downworthy” (site que relativiza manchetes bombásticas) dos últimos dias, o Clarion-Ledger reporta que a história de Victoria Wilcher, a garotinha de 3 anos marcada por cicatrizes que teria sido expulsa de uma unidade do KFC em Jackson, Mississippi, no mês passado, foi uma fraude.

A odisseia de Victoria ganhou manchetes em todo o mundo na semana atrasada, quando sua família, que admitiu estar passando por dificuldades financeiras, alegou em suas Victoria’s Victories no Facebook que a criança foi solicitada a se retirar de uma unidade local do KFC “porque seu rosto assustava os outros frequentadores”. Victoria ficou gravemente ferida num ataque de três pitbulls de seu avô, em abril, no qual teve vários ossos da face quebrados e perdeu um olho. A história chegou primeiro aos noticiosos locais, com a avó da menina, Kelly Mullins, dizendo a jornalistas: “O fato de ela ter 3 anos e já ser discriminada me deixa furiosa, porque sei que pelo resto de sua vida será assim” - e depois ganhou força rapidamente. O KFC, com uma crise de mídia social em rápida escalada nas mãos, entrou em ação com toda presteza, pedindo à família que aceitasse “nossas sinceras desculpas enquanto tentamos investigar o incidente” e anunciando estar “em contato com a família e empenhados em fazer tudo que for apropriado para essa linda garotinha e sua família”. A empresa logo se prontificou a doar US$ 30 mil para contas médicas de Victoria e reforçar a página de levantamento de fundos da família; um cirurgião especializado em reconstrução facial de Las Vegas chegou a oferecer seus serviços de graça.

Foi uma história envolvendo uma criança com ferimentos reais e bem documentados e uma resposta corporativa tão contundente que pareceu indicar que o KFC havia de fato investigado e descoberto evidências comprobatórias das alegações da família. Foi o que me fez acreditar nela. Não se vê normalmente toda essa disposição de se arrepender e preencher um cheque polpudo com base num relato não substanciado. Em sua reviravolta aparentemente positiva o caso trouxe, por um breve instante, ecos da história de Karen Klein, a motorista de ônibus escolar terrivelmente atormentada que há dois anos recebeu uma enxurrada sem precedentes de apoio quando um video de sua experiência com um bando de meninos cruéis se tornou viral.

Mas, mesmo com o melhor desfecho possível, em que um erro cruel foi generosamente corrigido, o que esta jamais poderia ser é uma história gratificante sobre a natureza humana. Como reporta o Clarion-Ledger, “empregados e gerentes nos dois estabelecimentos KFC de Jackson enfrentaram ameaças de morte, tiveram o rosto atingido por bebidas através da janela do drive-thru e enfrentaram agressões verbais constantes”. E a coisa agora piorou, com o jornal dizendo na segunda-feira que “fontes bem informadas da investigação” estavam chamando o incidente de “uma história forjada que resultou na família ludibriando o público e profissionais em mais de US$ 135 mil em dinheiro”.

Os furos na notícia vêm do relato original da tia da garota situando o episódio numa unidade do KFC que não está mais em operação. Em novo ataque à credibilidade da história, vídeos de câmeras de vigilância nas duas unidades KFC da cidade no dia do alegado incidente não revelam nenhum cliente correspondendo à descrição de Victoria e da avó.

Com essa informação, que deixou tudo ainda mais terrível, o último farrapo redentor de boa vontade que poderia ter sido extraído da história toda evaporou-se num instante. Na página do Facebook de Victoria, na segunda-feira, a família postou: “Asseguramos que não é uma fraude. Jamais imaginamos que as coisas pudessem tomar esse rumo. O artigo que circula na internet chamando o caso de fraude é inverídico. O próprio artigo diz que a investigação não está terminada e só acabará quando o KFC der uma declaração”. Mas comentaristas mais afoitos já se apressaram em dizer que “a família de craqueiros” está indo “para o inferno dos caipiras”. Os mais comedidos limitam-se a resmungar que estavam certos. Querem parabéns?

Será que nos sentimos bem ao descobrir que as pessoas parecem ser terríveis? Mesmo? Vocês não se cansam disso? Não se cansam de histórias como a de Dayna Morales, a garçonete lésbica que alegou, no fim do ano passado, ser vítima de homofobia, mas logo depois perdeu o emprego quando sua história foi desmascarada? Não estão cansados de viver num mundo em que ser enganado por identidades falsas online é o máximo? Não estão cansados de descobrir coisas que parecem legais ou interessantes rapidamente passarem a ser associadas a palavras como “falso” e “jogada”? Porque eu estou. Estou cansada da normalidade da desconfiança e estou supercansada de histórias de generosidade explorada. Não há vencedores aqui. Há empregados do KFC que enfrentaram agressões e ameaças de morte em seu trabalho; há uma família que está sendo duramente difamada online. E, em algum lugar disso tudo, há uma garotinha de 3 anos que sobreviveu a um ataque horrível e viverá para sempre com as cicatrizes emocionais e físicas do que sofreu. Mais uma vitória do cinismo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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