Golpe enquadrado

Porque ainda precisamos ser didáticos, pela 1ª vez a deposição de Jango é contada em quadrinhos

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 16h00

Ao anunciar, semana retrasada, que peritos não conseguiram provar o envenenamento do ex-presidente João Goulart, o Jornal Nacional fez um abre didático, que não sei se é padrão ou foi de improviso: “João Goulart foi deposto pelos militares, com apoio de setores da sociedade, que temiam que ele desse um golpe de esquerda, coisa que seus partidários negam até hoje”. Está errado? 

Jango era de esquerda, seu ministério era basicamente de esquerda, seu gerente econômico, Celso Furtado, de esquerda, assim como a base no Congresso. Implantou um governo e propôs reformas de esquerda. Governos de esquerda existem em democracias. Sempre existiram. A alternância de poder, essência do regime, costuma ser bipolar.

Setores da sociedade temiam que Jango desse um golpe comunista. Até hoje, a versão que corre entre os que conhecem a história de ouvir falar é que os militares salvaram o Brasil do comunismo.

Como explicar o golpe de 64? Como livros didáticos o retratam? Como gerações futuras o terão como exemplo de um momento que não se repita? Em qual versão apostar:

1. A esquerda brasileira, aliada ao comunismo internacional, se aproveitou de um governo fraco, um presidente titubeante, que era vice, para desafiar a ordem militar, com motins de soldados de baixa patente, comícios populares em que acusavam a imprensa de ser conservadora e reacionária e greves, para impor na marra uma reforma agrária, controlar os lucros de empresas que queriam investir no Brasil, que chamavam de mais-valia, marxistas que eram. O país se isolou, a inflação corroeu a moeda. Não foi golpe, mas uma revolução. Pois implantariam a ditadura do proletariado, repartiriam propriedades privadas, instituiriam que a religião é ópio do povo e obrigariam jovens a usar pílula anticoncepcional.

2. Ainda exilado numa embaixada em Brasília, meu pai, deputado cassado, escreveu uma carta num papel com o timbre da Câmara dos Deputados (ironia) em junho de 1964: “É possível que o velho pai vá fazer uma viagenzinha para descansar e trabalhar um pouco. Vocês sabem que o velho pai não é mais deputado? É que no nosso país existe uma porção de gente muito rica, que finge que não sabe que existe muita gente pobre, que não pode levar as crianças na escola, que não tem dinheiro para comer direito e, às vezes, quer trabalhar e não tem emprego. O papai sabia disso tudo. Quando foi ser deputado, começou a trabalhar para reformar nosso país e melhorar a vida dessa gente pobre. Aí veio uma porção daqueles muito ricos, que tinham medo que os outros pudessem melhorar de vida, e começaram a dizer uma porção de mentiras. Disseram que nós queríamos roubar o que eles tinham: é mentira! Disseram que nós somos comunistas, que queremos vender o Brasil: é mentira! Eles se juntaram– o nome deles é gorila– e fizeram essa confusão toda, prenderam muita gente, tiraram o papai e os amigos dele da Câmara e do governo, e agora querem dividir tudo que nosso país tem de bom entre eles, que já são muito ricos. Mas a maioria é de gente pobre, que não quer saber dos gorilas e mais tarde vai mandar eles embora, e a gente volta para fazer um Brasil muito bonito e para todo mundo viver bem. Vocês vão ver que o papai tinha razão e vão ficar satisfeitos com o que ele fez. Beijos do Papai”.

O velho pai tinha 35 anos. Revelava um otimismo peculiar. Exilados não imaginavam que o golpe duraria 21 anos. Que o terror seria uma rotina e prática do regime. E que ele, o velho pai, seria exilado, voltaria e estaria sob tortura numa dependência do Exército seis anos e meio depois. E assassinado. Almino Afonso contou recentemente: “Os comunistas não tinham como chegar ao poder. Por eleições, nem falar; por luta armada, nem falar; muito menos em aliança com Jango. A que título um proprietário de terras faria aliança que levasse ao comunismo?”. 

Ele, meu pai, Jango, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Jânio Quadros, Miguel Arraes e mais 95 foram cassados pelo primeiro Ato Institucional instaurado em 9 de abril. De 1964 até 1968, com o AI-5, uma ditadura se sobrepôs a outra: o aliado Carlos Lacerda e Juscelino foram cassados, partidos políticos, extintos, revogou-se a Constituição de 1947 e proclamou outra. Por fim, suspenderam garantias constitucionais que tinham acabado de promulgar. 

O golpe não tinha projeto. Tinha ocasiões. Cada ditador escreveu sua ditadura (com censura, com imprensa livre, com mercado aberto ou fechado). Elio Gaspari a dividiu em quatro fases: Envergonhada, Escancarada, Derrotada e Encurralada. Como não existe uma só ditadura, não existe um só golpe. Nem se sabe a data correta, 31 de março ou 1º de abril?

Pela primeira vez, o golpe de 1964 é contado por uma história em quadrinhos. A façanha nada fácil e superbem-vinda da Editora Três Estrelas coube ao jornalista veterano Oscar Pilagallo e ao ilustrador Rafael Campo Rocha, ambos colaboradores da Folha de S. Paulo. 

A dupla enfatizou a tese que muitos defendem: o golpe de 64 começou dez anos antes e só não se concretizou porque Getúlio Vargas deu um tiro no peito e entrou para a História. Rocha reproduziu o clima da época e seus personagens. Usou fotos famosas como referência. Colocou os mesmos personagens em diferentes situações. Em preto e branco, ampliou sombras do terror, sem grandes heróis. 

Pilagallo faz da birra entre militares, aliados da UDN e herdeiros do getulismo o arco condutor. A radicalização da época encontrou um presidente vacilante. A polarização empacava as reformas. Uniu golpistas, que receberam o sinal verde da Casa Branca. Em dois dias, derrubaram um governo respaldado pela Constituição. 

É uma versão corajosa, em que muitos são os vilões, dos dois lados. Fica a imagem de que jogaram com fogo, numa época conturbada, e vitimaram nosso maior bem, a democracia. É uma excelente maneira de introduzir o tema em sala de aula. Ao final, os autores sugerem livros e filmes dobre o tema. Que cada jovem brasileiro julgue com isenção.

MARCELO RUBENS PAIVA É ESCRITOR, COLUNISTA DO ESTADO E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE FELIZ ANO VELHO (OBJETIVA) 

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