Fábio Gonçalves/Estadão
Fábio Gonçalves/Estadão

'Gostaria de escrever um livro sem ironia', diz Marcelo Ferroni

Editor e escritor lança seu novo romance, 'O Fogo na Floresta', refletindo clima pessimista do Brasil

José Castello*, Colaboração para o Estado

04 Novembro 2017 | 16h00

O tédio, e seu coração gelado, é o personagem principal do novo romance de Marcelo Ferroni, O Fogo na Floresta. Exemplar retrato da classe média contemporânea, que vive para o trabalho e só pensa na ascensão social, seja a que preço for, ele reproduz também uma imagem nada inspiradora da vida corporativa, na qual todos se curvam, resignados, mas sempre ansiosos, diante do deus Mercado.

Depois de deixar o emprego em uma importante editora, a protagonista, Heloisa Peinado, se entrega à obsessão do “novo”, enquanto se afunda, cada vez mais, no previsível e na repetição. “Toda manhã parece a mesma coisa.” Às voltas com um filho pequeno, Heloisa mantém uma relação vazia com o marido Matias. Sua história nos é contada em um ritmo veloz, no qual as palavras se desmancham e a ação parece desprovida de significado. 

Na figura dos velhos, ela é obrigada a enfrentar – com indisfarçável incômodo – a presença da decadência e da morte. Quer avançar e mudar, mas tudo a arrasta para o mesmo. Heloísa, o narrador resume, “não sabe quem é nem o que fez”. Deixa-se levar pelo fluxo da vida comercial, distrai-se com futilidades, e se entrega a uma paixão secreta que só a inferniza.

O romance é uma aula sobre o espírito do “ganha ganha” que rege a vida no capitalismo contemporâneo. Almoços de negócios, projetos de franquias, cursos “de atualização”, planilhas de gastos resumem esse mundo voraz, refletindo assim a vida mecânica da classe média, espremida entre o medo da pobreza e o sonho de ganhar mais. Todas as suas forças são voltadas para “ganhar uma grana”, para “fazer um dinheiro” e para ascender no mercado. Tudo o mais parece inútil e desprezível. 

O livro de Ferroni nos deixa diante da miséria do sucesso – que é medido e regulado pela noção do rendimento, e que nada mais traz do que ansiedade e torpor. No peito dos bem sucedidos se esconde uma pedra de gelo – idéia que se materializa, em um corte abrupto, no relato da expedição do navio Akademik Shokalski à Antártida, onde fica preso, por duas semanas, num bloco de gelo. Há, também no espírito desse mundo febril e aflito, um coração gelado e perdido que é, no fim das contas, o grande personagem do romance.

Confira entrevista exclusiva com o autor:

Seu romance guarda, bem no coração, a imagem do navio Akademik, preso em um bloco de gelo na Antártida. Creio que essa imagem, e seus efeitos, percorrem todo o relato: a frieza, o pragmatismo, a impessoalidade que definem a vida corporativa. Como foi escrever a temperaturas tão baixas e adversas?

Eu queria escrever um livro que se passasse em nossos dias, que fosse relativamente banal, sobre uma mulher comum, complicando-se com as pequenas coisas da vida, ao contrário de meus dois romances anteriores (uma aventura fantástica com Che Guevara e um crime de quarto fechado numa fazenda isolada). Ora, a nossa vida é o trabalho. As pessoas se definem pelo emprego que têm.

Algumas se gabam de viver estressadas, de responder mensagens urgentes a qualquer momento do dia, de se sacrificar a um bem maior. É uma distopia definida pelo sucesso e pelo salário. Quem é demitido deixa de ser mencionado pelos colegas, a não ser entre sussurros. É como se morresse. 

Dessa forma, um livro sobre uma vida comum teria de ser a história de uma pessoa que trabalha, que só fala e reclama do trabalho, e que tenta a sorte em dois momentos distintos: como funcionária numa empresa enorme e, depois, quando é demitida (logo, morta para os colegas), como empreendedora. Foi um processo longo, que levou quatro anos para ser finalizado, escrito à noite, entre dez e meia-noite, praticamente todos os dias. Era como se eu saísse de meu emprego de dia e entrasse em outro à noite. As temperaturas baixas no Akademik me ajudaram a sair por algumas horas do ambiente corporativo do livro, mesmo que fosse em meio ao gelo e à proximidade da morte. Enfim, foi uma forma que encontrei para quebrar um pouco a narrativa, para definir bem a divisão entre seus dois momentos mais cruciais: a vida corporativa e a vida empreendedora.

Parece-me que seu romance ilustra, de forma muito enfática, os tempos vazios em que vivemos hoje no Brasil. Sua Heloisa é uma mulher perdida, que se deixa arrastar pelos acontecimentos e pelos apelos do mercado, e que se agarra a sonhos frágeis e problemáticos. Você pretendeu capturar a alma do país enquanto escrevia?

Tentei fazer com que a vida de Heloísa refletisse, de certa forma, a situação do País e, em um nível mais local, a da cidade do Rio de Janeiro. Ela busca apenas as soluções muito curtas, paliativas, para tentar resolver seus problemas mais imediatos. Recorre a qualquer tipo de recurso, sem pensar se está fazendo algo imoral ou suspeito. Tira vantagens das situações em proveito próprio, sem pensar nos efeitos que isso pode trazer. E gosta de se justificar a todo o momento, como se não fosse culpada de nada.

A história se passa num período pré-Olimpíada, em que a cidade do Rio de Janeiro vivia uma espécie de especulação eufórica, que depois seria totalmente revertida. É o que acontece também com a vida dessa personagem. Mas ela, como os políticos, sempre encontra um caminho para seguir fazendo o que faz, e uma forma de se justificar. Acho que o livro também procura ilustrar isso: como as pessoas inventam suas próprias histórias, às vezes totalmente fantasiosas, para justificar o que acontece em suas vidas.

Outra característica muito forte em seu livro, me parece, é o pessimismo. O mundo se desfaz – como uma pedra de gelo – nas mãos de Heloisa. Ela tenta ir em frente, se ampara onde pode, é uma lutadora, mas o pessimismo está ali, porque nunca as coisas dão muito certo. Você é um escritor pessimista?

Escrevi esse livro entre 2013 e 2017, um período em que vivemos muitas expectativas falsas. Por um momento acreditamos que o Brasil de fato rumava para ser um país melhor, para depois vermos tudo desmoronar de forma vergonhosa. A Copa do Mundo, as Olimpíadas, o impeachment, o governo Temer. Os casos de corrupção. Então acho que fui muito influenciado por essas circunstâncias externas. Eu queria inicialmente fazer um livro que fosse um pouco menos cáustico do que os anteriores. Mas acho que não consegui escapar desse grande senso de falta de perspectiva. Então acho que sou um pouco pessimista, sim. Gostaria de escrever um livro sem ironia, mas me parece muito difícil, na atual situação brasileira. A não ser que eu fizesse uma fantasia, com dragões e mundos paralelos, mas até ela poderia se tornar uma distopia.

Seu romance se passa, quase todo ele, no mundo editorial. Foi difícil escrever sobre um mundo ao qual você mesmo, como profissional, pertence? Você teme a reação de seus colegas de profissão?

Eu queria que Heloísa fizesse parte de uma grande corporação, porque nossas vidas parecem ter sido tomadas por essas empresas. Ela inicialmente seria empregada em uma grande agência de comunicação. Mas aos poucos, em meu primeiro rascunho, percebi que eu não tinha o vocabulário nem as experiências diárias de uma assessoria de imprensa para dar credibilidade à vida de Heloísa. Então criei essa grande empresa híbrida, de revistas e livros, gerida por um patriarca ausente, que nunca sabemos se está morto ou não. 

Já trabalhei em redações de jornais e revistas, além de editoras, e me aproveitei um pouco dessas lembranças ao compor o dia a dia corporativo da personagem. Mas os personagens são fictícios, criados para compor um universo sufocante ao redor dela.

Um amigo sempre me diz que a crítica literária acabou – que o crítico contemporâneo é o editor, que lê e critica antes da edição. Ele acha isso bom, eu, ao contrário, tenho muitas ressalvas. De qualquer forma: lidando com tantos originais e com tantos livros e há tantos anos, e pensando no campo literário brasileiro contemporâneo, onde você situaria seu livro? Onde você quis ou quer estar?

Eu nunca me senti como parte de um grupo, ou de uma geração literária. Talvez isso ocorra por dois motivos. O primeiro é que minha formação como autor começou com a leitura de thrillers e livros de ficção científica, que eu encontrava na prateleira dos meus pais. Só muito mais tarde me voltei à literatura dita mais séria (cuja distinção, para mim, parece mais uma vez nebulosa — de um lado, há livros inteligentíssimos de fantasia e, de outro, verdadeiras catástrofes realistas). Então nunca me filiei a nenhuma tradição especificamente literária. Em segundo lugar, minha relação com os autores brasileiros contemporâneos é dúbia, porque antes de tudo eu sou um editor de literatura. Mantenho com muitos deles uma relação de amizade mas também uma relação entre editor e autor, e isso me faz reagir de maneira mais contida como escritor. Acho que eu quis estar, de qualquer forma, entre esses dois mundos. E pensar que boa literatura também pode ser acessível, com autoironia e certo humor.

Parece que seu livro faz um retrato bastante forte da classe média brasileira. Que vive num mundo de consumo, de competição acirrada, um mundo – como seu “Almirante” chega a dizer – do “ganha-ganha”. Ou, como dizem os psicanalistas, do “goza goza”. A classe média não tem alternativa: ou ganha, ou muda de classe. Nesse cenário inóspito – e a meu ver trágico -, ela se torna cada vez mais estressada e voraz. E cada vez mais infeliz. O fogo que queima na floresta é uma metáfora dessa infelicidade?

Acho que é uma infelicidade geral, e não só da classe média. O fogo na floresta é uma frase tirada de um livro menos conhecido do William Golding, Os Herdeiros. É um livro estranhíssimo, narrado por uma família de neandertais, que leva uma vida perfeitamente incorporada à natureza até se deparar com os primeiros humanos, destrutivos e impiedosos. Os neandertais dizem: “Eles são o fogo na floresta”. Seu destino, como costuma ocorrer nos livros de Golding, será funesto.

Heloísa, em um momento do meu romance, vê um documentário na TV sobre o homem de neandertal e toma por um momento suas dores, se emociona, fica indignada ao ver os especialistas mencionarem sua história de extinção. Ela então faz uma espécie de paralelo com sua própria situação, acuada por toda a pressão da vida contemporânea. As pessoas ao redor dela são como o fogo na floresta, ela diz a si. Com a diferença de que ela mesma, se fizesse o devido esforço de autocrítica, descobriria que é uma dessas pessoas que incendeiam a floresta, ainda que ache que a culpa (ou a incompetência — ela adora pensar em termos de competência e incompetência) seja sempre do outro.

 

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