Gotas da discórdia: a homeopatia contra o câncer que atrai multidões a um povoado uruguaio

No Uruguai da maconha legal, outro composto vegetal leva romariasa um povoado no interior do país. O atrativo são as “Gotas GS”, auxiliar homeopático no tratamento de câncer produzido há 18 anos porum veterinário local. Um impasse com o governo, porém, tem feitoo visitante perder a viagem: “no hay más”, indicam as placas

Letícia González, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 17h00

Caso o aventureiro decida ignorar todos os sinais de que não terá sorte e insistir pela estrada de terra até a fazenda Bella Vista, no povoado uruguaio de José Pedro Varela, a 190 quilômetros da fronteira com o Brasil, ele vai se deparar com a porteira fechada e uma placa desencorajadora: “No hay gotas”. E outra, onde se lê “¡No se hacen más!”. E mais uma: “¿Entiende?”

É que a fonte das gotas “GS” – produzidas durante 18 anos e tidas como tratamento auxiliar para o câncer – hoje está seca. Ou quase. Criadas por Edelmar Siqueira, um veterinário de 73 anos dono desta fazenda, o remédio é hoje matéria rara e clandestina. Ele a produz em escala caseira, para tratar seu próprio tumor de intestino e ajudar pessoas de confiança, a quem entrega vidros sem rótulos. “Só aos amigos, para não me denunciem”, diz o hoje recluso veterinário.

Nem sempre foi assim. De 1995 a 2013, o remédio natural pôde ser encontrado na prateleira das homeopatias de todo o Uruguai. Cada frasco, vendido em farmácias de Montevidéu e cidades do interior, custava 180 pesos, o equivalente a R$ 20. Antes de consumi-los, os pacientes consultavam o inventor da fórmula, doutor de animais, para saber que dose deveriam tomar. Não raro, doentes em busca de medicamentos alternativos recebiam ali a promessa de uma melhora rápida, “questão de poucos meses”. Era indispensável, porém, seguir suas orientações e evitar comer mel e ovos crus. Também deveriam telefonar para informar detalhes dos sintomas.

Misterioso quanto à composição, Siqueira não levou seu achado aos fármacos da capital para que lhe destrinchassem os componentes – nem as universidades vieram até ele, apesar da fama crescente. Seguiu cuidando de suas ovelhas e colecionando histórias de curas até que, em 2013, recebeu uma ligação do Ministério da Saúde. Seu produto estava proibido, por causa de uma suspeita de intoxicação hepática. “Pedi detalhes do caso, pois nunca havia visto nada parecido em anos de uso, mas não me deram. Até hoje não sei por que foi proibido.”

A proibição declarou uma guerra antes velada entre o veterinário e a classe médica. Siqueira foi a Montevidéu tentar reverter a decisão – afinal, seu remédio seria um complemento homeopático para tratamento de câncer, e não uma panaceia contra a doença –, mas voltou com as mãos abanando. Não tem autorização para produzir e nem presentear ninguém com o composto. Se diz inconformado e perseguido. Sob o governo do presidente Tabaré Vázquez, um médico oncologista, está convencido de ter o telefone e o escritório grampeados. É evasivo ao falar da fórmula e recusa negociação com laboratórios de seu país. Na prática, voltou à estaca zero: no lugar dos 400 litros por mês que produzia em parceria com a Central Naturista Francesa, hoje se limita a uma produção caseira e clandestina, “só para os mais próximos”. Ele sabe se tratar de ilegalidade, mas contesta todo o processo e paga pra ver.

Sua história com as ervas começou em 1988, quando o pai foi diagnosticado com câncer no pâncreas. Aos 45 anos e trabalhando nas terras da família, o filho se viu olhando para o céu à procura de uma solução. Místico, diz tê-la encontrado ali. “A ideia me veio na forma de cores. Algumas luzes me indicaram por onde começar a trabalhar.” O pai morreu sem que Siqueira pudesse salvá-lo, mas a ideia de encontrar um tratamento para a doença persistiu. Entre os experimentos, manipulava um arbusto conhecido como mio-mio, ou bacharis coridifolia, altamente tóxico para o gado se consumido acidentalmente. As vacas, aliás, foram suas únicas cobaias por anos. A partir delas, desenvolveu uma fórmula injetável que parecia agir dentro dos tumores, fazendo-os retroceder.

Em agosto de 1995, conta ter comprado uma filmadora portátil com a ideia de convocar colegas e estudantes de veterinária para um grande teste, além das cercas de sua propriedade. “Porque, se saísse apenas contando por aí, diriam que estava louco.” Ouvindo o apelo da rádio local, donos de cães e cavalos cancerosos do departamento de Lavalleja voluntariaram seus bichos. Os resultados filmados surpreendem. A injeção parecia isolar o tumor e fazê-lo cair – após “cortar a circulação sanguínea periférica”, ele explica. Um dos animais, uma poodle branca diagnosticada com um câncer de mama de seis centímetros, passou a ter um buraco no local onde antes havia o tumor. Apesar de grande, a lesão estava cicatrizada. Na época, ao comentar os achados em vídeo, Siqueira faz o apelo ambicioso: “Terminamos uma primeira fase. Precisamos de uma segunda etapa, de laboratório, para a culminação do estudo e a utilização do remédio com o benefício que todos desejamos”.

Ao invés de grandes empresas, quem bateu à sua porta foi outra vítima de câncer de mama. Desta vez uma mulher, mãe de um filho de 4 anos e com prognóstico de três meses de vida, segundo os médicos. Soubera da novidade e queria uma injeção antitumoral a todo custo, mas Siqueira recusou. “Ela me disse: ‘ou o senhor me injeta ou lhe mato com um tiro!’. Mas eu sou veterinário. Se injetasse, iria preso, não é? Então comecei buscar uma solução oral, para que pudesse regulamentar como homeopatia”, lembra. A doente foi a primeira pessoa a usar as gotas, desenvolvidas junto com a Central Naturista Francesa, de Montevidéu.

Em 2000, quando a cunhada da “paciente zero” – que morreu em 2015, duas décadas depois do dia em que apareceu desenganada na fazenda – adoeceu pelo mesmo motivo, já sabia a quem procurar. Silvia Osinalde tinha 35 anos e também temia deixar órfã sua filha pequena. Queria recuperar a vida ativa da mesma forma que a parente o fizera, sem apresentar sintomas. Decidiu fazer o terapia tradicional e, em paralelo, tomou as gotas. “Fiz os dois. As gotas oferecem muitos benefícios, senti que aumentava a vitalidade e a resistência”, diz ela, hoje aos 52 anos.

Quer o façam como tratamento único ou complementar, os pacientes do doutor Siqueira na região costumam mostrar exames, como provas de sua eficácia terapêutica. A agricultora aposentada Blanca Íris Pereira, do povoado Villa Sara, traz a uma pasta bem organizada, além de um diário manuscrito, ao encontro com a reportagem. Dá detalhes do caso do marido, Miguel Julio Fajián Fernandez, hoje com 71 anos, cuja história médica tem dois grandes atores: o sistema público de saúde, que conduziu os exames, e o doutor Siqueira, a quem ele atribui a cura.

No fim de 2010, Miguel desenvolveu um tumor no cérebro que atingiu o nervo óptico. Passou a enxergar duplo, a perder o equilíbrio e a ter enxaquecas. As dores eram insuportáveis, e ele anunciou à mulher o suicídio. Desesperada, ela apelou ao veterinário assim que uma tomografia confirmou o nódulo – avaliou que “a cirurgia demoraria demais”. No terceiro dia de ingestão do líquido, lembra Miguel, o olho que estava quase fechado se abriu. Quinze dias mais tarde, não sentiu mais dores de cabeça, segundo conta. Em maio, o exame de imagem mostrou um tumor menor. As análises de 2016, além de bons índices para próstata e colesterol, apontam que o tumor se foi. “Não sinto mais dor, não tenho nada. Ando de bicicleta e a cavalo sem nenhum problema.”

Da década de 1990 para cá, milhares de pessoas, como Miguel, relatam melhoria com o medicamento homeopático. A advogada Sylvia Tucci, de 63 anos, moradora de Montevidéu, também credita às gotas GS a cura de um tumor no fígado, em 2008. “Estava do tamanho de uma laranja, com quase 7 centímetros, e o cirurgião falou que era inoperável”, detalha. Uma amiga falou das gotas, encontradas em lojas homeopáticas e ela resolveu tentar. Em quatro meses, um exame apontou que o tumor estava pela metade, com densidade menor. Em março de 2009, media um centímetro. Em 2011, havia desaparecido. “Eu não era ligada às curas alternativas. Minha geração cresceu com outra cabeça, mais racional. Mas hoje concluo que estou viva graças às gotas.”

Viva e com uma preocupação. Siqueira recomenda que siga com o uso das gotas, em doses pequenas. Mas, desde dezembro de 2013, quando o governo proibiu a comercialização, todos os pacientes tiveram de interromper o uso. Na época, ao ser questionado, o então pré-candidato Tabaré Vázquez admitiu que a alternativa GS não deveria ser descartada. Em setembro de 2014, o que parecia ser a salvação do tratamento auxiliar: testes químicos do Ministério da Saúde uruguaio indicaram que o produto “não apresenta risco de toxicidade” e a proibição foi cancelada. Siqueira poderia voltar a comercializar o produto, desde que seguisse uma proporção de diluição indicada, já semelhante à feita por Siqueira.

Mas havia ainda uma outra condição do governo: que as gotas fossem feitas na Homeopatia Ambar, de um empresário chamado Federico Machado, e não mais na empresa escolhida por Siqueira. “Por que os escolheram? Quem são essas pessoas? Nunca explicaram por quê. Por isso, não entrego a fórmula”, diz o veterinário. O ministério não comenta o tema. E o dono da Ambar disse apenas que “não quer mais nada com isso”, pois “a iniciativa se transformou numa dor de cabeça”.

Por causa do impasse, o líquido segue fora de circulação oficial, para nervosismo dos pacientes. Em setembro de 2015, um grupo de pessoas doentes, curadas e simpatizantes entregou 50 mil assinaturas ao governo uruguaio pedindo que os termos de Siqueira sejam respeitados. “É incrível que tenhamos esse produto neste povoado de 5 mil habitantes e que não possa se espalhar pelo mundo e ajudar as pessoas”, pondera o taxista Juan Angel Valadán. Juan e Rogerio Acosta, funcionário de Siqueira, fazem hoje a ponte entre o veterinário e as centenas de pessoas que o procuram todos os meses – e que se deparam com as placas desestimulantes ao longo dos 30 quilômetros entre a cidadezinha e a fazenda do veterinário.

Na tentativa de resolver o problema, uma farmacêutica brasileira pode entrar no jogo. No mês passado, Siqueira se reuniu com o empresário brasileiro Jacó Tormes, consultor para a indústria farmacêutica e ex-diretor do grupo Lilly. “Fui conhecer o projeto por um impulso de oportunidade. Claramente ele não é um charlatão, milhares de pessoas tomaram e nenhum problema foi confirmado. Entendo que há ali um produto que pode funcionar, por isso estou avaliando”, afirma Tormes. O processo de desenvolvimento do produto, segundo o consultor, levaria de três a quatro anos. E depende, claro, da anuência do obstinado Siqueira – que ainda não concordou em abrir a fórmula. “Mesmo com 20 anos de relatos filmados, novos testes serão necessários. No Brasil e nos Estados Unidos, e com respeito à lei de biodiversidade, que, se não for considerada, pode impedir patentes de produtos feitos com plantas”, resume. “Vai dar trabalho, mas é bastante viável.”

Em sua fazenda, Siqueira avalia a proposta de Tormes para a fase prévia à comercialização, que incluiria a criação de uma startup que teria o veterinário e pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos como sócios – a ideia é criar um remédio que possa ser vendido também no mercado norte-americano. A notícia das tratativas com o Brasil, ainda que em fase inicial, se espalhou festivamente pelo vilarejo. Em meio à esperança coletiva, o taxista Juan não escondia o nervosismo. “Ele está cansado e não é de ferro. Se não encontrarem logo uma solução, a fórmula morre com o doutor.”

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