Gótico de Shirley Jackson é relançado e ganha adaptação para cinema

Gótico de Shirley Jackson é relançado e ganha adaptação para cinema

'Sempre Vivemos no Castelo' é uma das obras-primas da autora que influenciou Stephen King e Neil Gaiman

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado

09 Setembro 2017 | 16h00

A editora Suma de Letras acaba de publicar Sempre Vivemos no Castelo, romance de 1962, escrito pela norte-americana Shirley Jackson (1916-1965). O livro ganhou uma adaptação para o cinema, que manteve o título original da obra e foi dirigido por Stacie Passon, com a atuação da excelente Taissa Farmiga, uma das protagonistas da série de TV American Horror Story. O filme estreia em breve no Brasil. 

Jackson ainda é pouco conhecida por aqui, embora outros livros seus já tenham sido adaptados para o cinema e alcançado um bom público no Brasil. Esse é o caso de A Assombração da Casa da Colina (1959), cuja primeira adaptação para o cinema, intitulada Desafio do Além (1963), foi dirigida por Robert Wise. A obra ganhou nova adaptação para as telas em 1999, sob o título A Casa Amaldiçoada, dirigida por Jan de Bont. 

Shirley Jackson se tornou popular em vida escrevendo para jornais e revistas, como Woman’s Day e The New Yorker. Contudo, apenas recentemente foi considerada pela crítica um dos nomes mais importantes da literatura americana, recebendo o título de “rainha do gótico americano”. Cabe lembrar que, em 1948, a New Yorker publicou o conto A Loteria, cujo enredo mórbido perturbou os leitores. Foi com essa publicação, a meu ver, que a escritora se revelou de fato a grande escritora gótica americana. Shirley Jackson teria influenciado escritores como Stephen King, de O Iluminado, e Neil Gaiman, de Coraline, entre outros. E ela mesma talvez tenha sofrido a influência de góticos americanos como, por exemplo, Henry James, autor de A Outra Volta do Parafuso e do conto A Esquina Encantada, e Edgar Allan Poe. Aliás, há muito em comum entre A Queda da Casa de Usher, de Poe, e Sempre Vivemos no Castelo. É ler e conferir.

No romance de Jackson não há fantasmas nem monstros. Há, sim, personagens que destacam o que de pior pode existir em cada um de nós, nosso lado perverso. Numa de suas idas ao centro da cidade, a protagonista, Mary Katherine Blackwood (Merricat), revela: “Queria que todos vocês estivessem mortos, pensei, e senti ânsia de falar em voz alta. Gostaria de entrar no mercado uma manhã e ver todos eles, até os Elbert e as crianças, deitadas ali. Chorando de dor e agonizando. Então pegaria os produtos por conta própria, imaginei, pisando em seus corpos. Nunca sentia remorso quando tinha pensamentos como esse.” 

Há também um clima de clausura, personagens que vivem intencionalmente isoladas, trancafiadas e afastadas do convívio social e que sofrem certamente de distúrbios psíquicos. Em Sempre Vivemos no Castelo, as irmãs Blackwood, Merricat e Constance vivem em companhia de um tio velho e paraplégico na fazenda da família, circundada por cercas que asseguram, pelo menos psicologicamente, a reclusão de seus moradores: “Precisava largar a sacola de compras para abrir a tranca do portão; era um simples cadeado e qualquer criança seria capaz de quebrá-lo, mas havia uma placa que avisava PARTICULAR. NÃO ULTRAPASSE, e ninguém poderia cruzá-lo.” 

A propósito dos distúrbios psíquicos, a protagonista cultua rituais e superstições, enterra objetos pelo jardim e acredita na potência desses seres inanimados: “Voltava para casa quando me deparei com um mau presságio, muito mau, um dos piores. Meu livro que estava pregado em uma árvore no pinhal havia caído. Achei que era melhor destruí-lo, para o caso de agora ser ativamente ruim.”

O gótico de Shirley Jackson dialoga obviamente com o mistério e com o conto policial. Nesse aspecto, a escritora parece ter seguido os princípios desse tipo de ficção, principalmente aqueles apontados por Gilbert Keith Chesterton, no ensaio Como Escrever uma História de Detetive, de 1925. O escritor inglês afirma que um dos princípios fundamentais de um conto de mistério é que ele deve esconder de fato um segredo e “um segredo que mereça ser escondido”. O segredo de Jackson não desapontará o leitor. Além disso, a escritora sabe como chegar ao clímax, que, como afirma Chesterton, não é somente “o estouro de uma bolha, mas, ainda mais, a irrupção de um alvorecer”. Já na primeira página do romance, lê-se a intrigante declaração da protagonista: “Não gosto de tomar banho, nem de cachorros nem de barulho. Gosto da minha irmã Constance, e de Richard Plantagenet, e de Amanita phalloides, o cogumelo chapéu-da-morte. Todo o resto da minha família morreu.” 

O segundo grande princípio, na opinião de Chesterton, é de que a alma desse tipo de ficção não é a complexidade, mas a simplicidade. A escrita de Jackson leva esse princípio a sério e não torna de maneira alguma a “solução mais complicada do que o mistério, e o crime mais complicado do que a solução”. Sempre Vivemos no Castelo é um livro que se lê de uma assentada, conduzidos que somos pela narrativa excitante de Shirley Jackson. 

*Dirce Waltrick do Amarante é organizadora e tradutora de duas coletâneas de Edward Lear, 'Viagem Numa Peneira' e 'Conversando com Varejeiras Azuis'  

Sempre Vivemos no Castelo

Autora: Shirley Jackson

Tradução: Débora Landsberg

Editora: Suma de Letras

200 páginas

R$ 39,90

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