Guerreiro da vacina

O brasileiro Ciro de Quadros, morto aos 74 anos, combateu como ninguém a poliomielite, a varíola e o sarampo pelos cantos esquecidos do mundo

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h00

O brasileiro Ciro de Quadros não criou vacinas, mas foi a pessoa mais importante nos últimos 50 anos para garantir que elas chegassem a milhões de pessoas. Enfrentando zonas de guerra, longas distâncias e a desconfiança de populações locais, liderou esforços para erradicação da varíola na Etiópia, nos anos 1970, e comandou campanhas que levaram à eliminação da pólio e do sarampo no continente americano. “Gosto de pensar em Ciro como o vacinador do mundo”, disse ao Aliás o médico Peter Hotez, presidente do Sabin Vaccine Institute, onde o epidemiologista brasileiro ocupou o cargo de vice-presidente executivo de 2003 até sua morte, no dia 28 de maio, aos 74 anos.

Com um misto de conhecimento científico, habilidade política e capacidade de planejamento, Quadros desenvolveu estratégias que permitiram a chegada de vacinas a regiões desassistidas. Também conseguiu fontes de financiamento, criou mecanismos de acompanhamento e controle e, no Sabin Institute, estabeleceu um programa destinado a capacitar autoridades de países africanos a adquirir vacinas.

“Ciro tinha convicção de que a imunização era um dos mais efetivos e baratos instrumentos de saúde pública preventiva e dedicou sua vida profissional a implementar essa visão”, observou Marc Strassburg, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Strassburg era um dos 20 voluntários do Peace Corps (Corpo da Paz) que trabalharam sob o comando de Quadros no esforço de erradicação da varíola na Etiópia.

O grupo tinha que encontrar casos da doença e convencer a população ao redor a se vacinar. “Você podia andar por aquelas montanhas durante dias e dias para encontrar um caso de varíola, mas aí não conseguia vacinar ninguém porque ninguém queria ser vacinado. Eles atiravam pedras. Soltavam cachorros contra nós”, lembrou o brasileiro em entrevista dada em 2001 à revista médica britânica The Lancet. Quadros ficou seis anos na Etiópia, até 1977, e deixou o país seis meses depois do registro do último caso de varíola.

Antes de ser chamado pelo OMS para liderar a campanha na Etiópia, Quadros testara o método no Paraná, onde conseguiu eliminar a doença no fim dos anos 1960. Chamada de “vigilância e contenção”, a tática exigia a identificação de casos e a imunização da população ao redor.

A estratégia foi a maneira encontrada pelo jovem médico de saúde pública para contornar a falta de recursos e braços para realizar uma campanha de imunização em massa. Além das vacinas, tudo que tinha era um carro e a ajuda de uma enfermeira. “Quando encontrávamos um caso, começávamos a vacinar todo mundo”, disse à The Lancet, lembrando que montava locais de vacinação nas ruas, ia a escolas e promovia a campanha em rádios e carros com megafone.

Quadros identificou mil casos e imunizou 35 mil pessoas no Paraná. Quando a campanha de vacinação em massa finalmente começou, já não havia ninguém com varíola no Estado.

Ao se formar em medicina, em 1966, Quadros sabia que se dedicaria à saúde pública. Mas foi dissuadido de iniciar de imediato o mestrado na Escola Nacional de Saúde Pública, no Rio, por um professor da instituição. Dele recebeu o conselho de fazer trabalho de campo e “experimentar a vida real” antes de voltar à academia.

O recém-formado então foi trabalhar em Altamira, cidade paraense que na época tinha menos de 10 mil habitantes. “Tínhamos um médico, uma enfermeira, um técnico de laboratório, um educador em saúde e um administrador. Tínhamos que fazer de tudo: prática geral, pequenas cirurgias e, claro, o trabalho de saúde pública”, lembrou no depoimento à The Lancet.

Quadros conseguiu quebrar a resistência dos etíopes contratando enfermeiras e profissionais de saúde etíopes. Sua liderança não era exercida de escritórios, mas nos locais onde as doenças estavam. “Eu o vi atuar na Etiópia, onde os obstáculos eram inacreditáveis - o imperador assassinado, dois grupos revolucionários em luta, nove dos integrantes de sua equipe sequestrados e até um helicóptero capturado para exigência de resgate. Ciro manteve as equipes em campo - e o piloto do helicóptero saiu para vacinar todos os rebeldes”, disse em 2011 a The New York Times D. A. Henderson, o ex-diretor da OMS que levou Quadros para a entidade.

A fotografia que ilustra esta reportagem mostra o brasileiro em uma vila na qual Strassburg - de óculos, à esquerda - havia encontrado seu primeiro caso de varíola. “Ciro tinha que ver o caso e viajou até lá”, recordou Strassburg. “Ele sempre aparecia. Algumas vezes isso requeria uma viagem de oito horas no lombo de uma mula ou uma caminhada de oito horas.”

Depois que sua missão na Etiópia foi concluída, Quadros foi contratado pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) para liderar o programa de imunização no continente, pelo qual a entidade previa levar a populações pobres da região vacinas só disponíveis em países ricos. O convite o conduziu a Washington, cidade na qual viveu quase metade da vida e onde morreu. O médico foi casado durante 34 anos com Susana Figueroa de Quadros. Ele deixou duas filhas, Julia e Christina, e dois enteados.

No início dos anos 1980, o brasileiro passou a defender a erradicação da pólio nas Américas e mobilizou para tanto governos, instituições multilaterais e profissionais de saúde pública. “Sua liderança e visão foram essenciais para nossa região ter sido a primeira no mundo a erradicar a pólio, uma história de sucesso que inspirou a campanha global pela erradicação”, declarou a diretora da Opas, Carissa F. Etienne, na cerimônia em que Quadros foi homenageado com o título de “Herói da Saúde das Américas”, cinco semanas antes de sua morte.

Em 1989, a China pediu ajuda ao brasileiro para desenvolver seu programa de erradicação da doença. Quadros foi ao país e depois despachou Strassburg para uma série de palestras a profissionais chineses. “Ele pediu que eu mostrasse o que tínhamos feito nas Américas. Com base nisso, os chineses conseguiram erradicar a pólio em dois a três anos”, contou o americano.

Na entrevista à The Lancet, Quadros defendeu o lançamento de uma campanha global para erradicação do sarampo, que no ano anterior havia matado 535 mil crianças em todo o mundo. A ideia enfrentava resistência de integrantes de organizações internacionais, que diziam não haver recursos suficientes para o financiamento. O esforço poderia comprometer outras áreas bem-sucedidas, como o combate à pólio.

Em 2009, a OMS criou um grupo para analisar a viabilidade da erradicação do sarampo em todo o mundo. O programa de ação da entidade para o período 2012-2020 estabelece que o prazo para que isso ocorra deverá ser definido em 2015.

“Mais que qualquer outro na área de saúde pública, Ciro sabia fazer as pessoas se mexerem. Para vacinar o mundo, ele precisava de uma forte personalidade”, afirmou Hotez, o presidente do Sabin Institute, cujo nome é uma homenagem a Albert Sabin, o criador da vacina oral contra a pólio.

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