DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Hahaha do mimimi

Diga-me como ris (nas redes sociais) que te direi que tipo de eleitor és

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2015 | 16h00

Não dou duas eleições para um bem pago guru indiano, master of arts degree in political science, desembarcar no Brasil com o nobre propósito de montar uma estratégia de campanha eleitoral baseada, vejam vocês, no jeito como os eleitores riem nas redes sociais.

Já vislumbro o Jornal Nacional dando os últimos resultados do Ibope para presidente: “O candidato fulano tem 23% dos votos válidos entre os homens com mais de 30 anos, que ganham até cinco salários mínimos e usam hahahaha no WhatsApp”.

Após a divulgação de tal pesquisa, o núcleo duro de uma campanha se reunirá numa sala claustrofóbica, sem ar condicionado, para tentar entender por que o candidato vem perdendo os eleitores que riem hehehe ou buscar o motivo por ainda não conseguirem penetração entre os kkk. 

“E se a gente usar a versão samba na laje do nosso jingle? A campanha precisa de povo pra crescer entre os rsrsrs! Chama a dupla sertaneja com boa aceitação entre os hihihi. Nicho bom são os huashuashua. Traz um rapper que a gente conquista essa turma. Com essa cor de gravata a gente perde entre os huehuehue. Quem precisa dos huehuehue pra ganhar eleição, mané”?

O Facebook abriu o saco de risadas de Pandora com uma recente pesquisa, feita entre usuários americanos, sobre o uso de hahaha, hehehe e outros qua-qua-quás. Constatou-se, por exemplo, que 15% dos usuários do Face usam algum tipo de risada nos posts. Um pouco mais da metade dessa gente feliz (51%) vai de hahaha; cerca de 33% prefere usar um emoji (carinhas que expressam algum sentimento) e 13% ficam com o hehehe. Decretou-se ainda a inevitável extinção do lol (laughing out loud - que pode ser traduzido como “rindo muito alto”), com apenas 1,9% de praticantes.

Para ajudar o guru indiano, esquadrinhei o comportamento político-eleitoral dos nossos risonhos eleitores. A primeira coisa é tirar da frente o lol. O lol nacional ficou restrito aos eleitores que falam inglês, usam roupa de flanela e ouvem indie rock. São do tipo que marcam férias para o mês da eleição: melhor justificar ou pagar multa. Quando se dão ao trabalho, votam em branco ou num nanico extravagante. 

Outra risada morta é o quá-quá-quá. Mas, diferente do lol, não deve ser desprezado. Os quá-quá-quás têm mais de 70 anos, são aposentados e funcionam na TV. Um quá-quá- quá cheio de mimimi no horário eleitoral sempre rende. São patrimônio nacional e reserva moral do País.

Quem é o hahaha? Massa sem a qual não se chega ao segundo turno. É a classe média consumidora, o fã do MasterChef, assinante do Netflix e batedor de panela da estação, grupo que nada ao sabor da correnteza, mas está sempre no centro. 

Já o hehehe se diz formador de opinião. Tem muito jornalista hehehe por aí, muito artista ou celebridade hehehe. Tenha uma cota de hehehe, pague por eles e construa uma linha de frente. Os hehehe são bons de blog e fazem barulho no Twitter. 

O hihihi requer cuidado. Quem ri com a boca quase fechada tem talento pra Judas, são os futuros delatores, os tais do dossiê. Qualquer dossiê. Voto de hihihi tem preço. 

No mesmo escopo está o kkk. Eis aqui o tão disputado voto conservador. Casamento gay, kkk não quer. Diminuição da maioridade penal, kkk adora. Rota na rua, puro kkk. Homens de Bem, pastores, revoltados online, comentaristas de internet e deputados da atual base aliada não se intimidam: se assumem como legítimos kkk.

Ainda existe oh oh oh? Sim! A risada estilo Papai Noel é a do empresariado nacional, bebedor de Red Label e frequentador de cantinas em São Paulo. São os que financiam campanhas, que apostam em todos os cavalos e fazem do lobby religião. 

Já o huehuehue é aquele que decidirá o voto baseado no último programa eleitoral, no santinho espalhado na frente da escola, no papo com o amigo no boteco. Em eleições apertadas, não o perca de vista. Isso vale para o huashuashua, esse brasileiro que diz odiar política, que quer mudar de País porque não aguenta mais tanta corrupção - mas vive tentando dar um olé ao declarar o imposto de renda. 

Tem quem envie emoji porque sabe que o que está escrito não vai valer depois da eleição. E tem quem use o indefectível “eu ri” pra deixar tatuado, pra não chorar na véspera nem após quatro anos.

Agora, se vocês me perguntarem quem vai rir por último, digo que, com certeza, o guru indiano. Ele vai ficar milionário rindo da nossa cara com essa conversa fiada.

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