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Herdeiros ou coveiros

Serviços de streaming de filmes revigoram a força da velha indústria cinematográfica americana ou vão acabar por enterrá-la?

Sérgio Augusto

Sensação em Sundance recusou oferta maior da Netflix
Sensação em Sundance recusou oferta maior da Netflix

YouTube não deu à luz apenas os youtubers. Outros na certa acabariam inventando o que em internetês castiço se chama “fluxo de mídia por demanda” (em bom portinglês: “streaming on demand”, ou simplesmente “streaming”), mas a verdade é que os rapazes do YouTube descobriram primeiro as potencialidades da distribuição de conteúdo multimídia pela rede mundial, possibilitando o surgimento da Netflix e assemelhados.

Oferecendo mais de um bilhão de horas de filmes e telesséries para mais de 44 milhões de assinantes em mais de 40 países, Netflix virou o ne plus ultra do cinema em domicílio. Ou do cinema na TV. Na sua cola, corre célere a Amazon Prime. Ambas têm muita grana para torrar na compra e também na produção de filmes, e alguns Emmys e Golden Globes no currículo: Netflix com House of Cards e Orange is the New Black; Amazon com Transparent. Representam a vanguarda da nova forma de assistir a filmes (mudem o slogan: “na telinha mais próxima de você”), a Hollywood do futuro, os herdeiros da velha indústria cinematográfica americana.

Herdeiros ou coveiros? Não chegaram a tanto quando o canal a cabo por assinatura HBO deu sua decisiva virada nos anos 1990.

Na abertura do filme Steve Jobs, o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke aparece antecipando, numa entrevista à TV em 1974 (tem no YouTube), o admirável mundo novo ligado pela internet em que ora vivemos. Claro que streaming de filmes já fazia parte de suas predições. Mas nem antes nem depois daquela entrevista, Clarke arriscou profetizar sobre o fim do cinema tal qual o conhecemos há mais de um século. Deixou isso para os céticos da cinefilia, presumidamente em atividade desde o surgimento do sonoro, já descontado o agouro de um dos irmãos Lumière, para quem o cinema sempre pareceu “uma invenção sem futuro”.

Quando uma lei antitruste da Suprema Corte dos Estados Unidos determinou, em 1948, que os estúdios não podiam mais distribuir os próprios filmes nem exibi-los em salas de sua propriedade, Hollywood tremeu nas bases. Sem controle do circuito produção-distribuição-exibição e já à míngua de um star system assalariado e cativo, os grandes estúdios tiveram de abdicar de seu poder centralizador, mas que ainda era suficientemente vigoroso no auge do macarthismo, no início da década seguinte, conforme se vê em outro filme em cartaz, Trumbo: Lista Negra. Na era dos produtores independentes, os caçadores de comunistas teriam sido barrados pelos seguranças dos estúdios.

A voragem macarthista revelou-se mais nociva que o presuntivo inimigo número um do cinema, a TV, que várias circunstâncias transformaram em linha auxiliar da produção cinematográfica. O igualmente temido advento do cinema digital, em 1998, acabou bem absorvido, pois afinal barateava os custos de qualquer produção, mas o streaming atingiu o plexo do Golias. “Querem acabar com as salas de cinema” é a paranoia da vez. Milhares delas foram desativadas nas duas últimas décadas, algumas excepcionais, como o Ziegfeld Theater de Nova York, com o melhor som e a melhor qualidade de projeção da cidade, que deverá fechar as portas nas próximas semanas.

No fim de semana passado, a paranoia aumentou. Especificamente em Park City, Utah, palco anual do Festival de Cinema de Sundance. Nos dois primeiros dias da mostra, que hoje termina, a Amazon já havia adquirido os direitos de exibição de quatro filmes para streaming, a Netflix arrematara três, e as distribuidoras tradicionais, as poderosas majors do mercado exibidor, nada. Fox e Universal ofereceram cerca de US$ 8 milhões por Manchester By the Sea, de Kenneth Lonergan, que a Amazon levou por US$ 10 milhões.

O placar se reverteu nos dias seguintes, mas o susto este ano foi maior que o de 2015.

As majors – Fox Searchlight, Focus Features, Sony Pictures Classics, The Weinstein Co. – continuam dando as cartas. As salas exibidoras ainda são um atrativo incomparável, mas, como ressalvou Sian Heder, diretor de Tallulah, exibido no Sundance e comprado pela Netflix por US$ 5 milhões, “a maneira como o público consome filmes está mudando”. E o modo operacional das gigantes do streaming também. Anfíbias, ocuparam a telinha e testam a telona. Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga, foi lançado em outubro pela Netflix e em 31 cinemas.

“Queremos sempre o circuito mais amplo e robusto para o que produzimos”, enfatizou Roy Price, o mandachuva da produtora de filmes da Amazon. “Concentramos nosso interesse em criações de artistas que tenham algo novo e interessante a dizer”.

Antes de chegarem à plataforma da Amazon Prime, os filmes são submetidos a um test drive no circuito exibidor independente. Exibição simultânea não costuma dar certo. Diversos cinemas se recusaram a programar Beasts of No Nation porque duvidavam, com razão, que o público saísse de casa para assistir a um filme que podiam ver na TV, no computador e no tablet, sem comprar ingresso e quando melhor lhe aprouvesse. De todo modo, se não for exibido em cinema, antes, ao mesmo tempo ou depois de exposto pela internet, nenhum filme pode concorrer ao Oscar.

Além de qualificar para o Oscar, o lançamento em cinemas ainda enobrece um filme. Essa é uma das vantagens das majors. Por enquanto. Isso explica por que o produtor de The Birth of a Nation (o novo épico sobre a escravidão, dirigido e interpretado por Nate Parker, não o centenário clássico racista de David W. Griffith) preferiu perder US$ 2,5 milhões e vendê-lo à Fox Searchlight, não à Netflix, que lhe oferecera US$ 20 milhões. Uma das sensações do Sundance, The Birth of a Nation, recriação da célebre revolta de escravos liderada por Nat Turner na Virginia, em 1831, foi a maior transação comercial da história da mostra. Os que acusam a Academia de Hollywood de branquidade excessiva (#OscarSoWhite) ganharam novo argumento para sua cruzada.

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