Arquivo pessoal/Família Golla/Editora Record
Arquivo pessoal/Família Golla/Editora Record

História real de homem que matou a própria mulher dá origem a livro

'O Último Abraço' discute eutanásia, envelhecimento saudável e suicídio assistido inspirado por tragédia que ocorreu em São Paulo

André Cáceres*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Março 2017 | 16h00

Em tempos de disseminação de notícias falsas em redes sociais, reportagens apuradas superficialmente sem sair da redação, matérias preguiçosas e “caça-cliques”, uma grande reportagem nos moldes do new journalism americano dos anos 1960 é uma lufada de ar fresco. O Último Abraço, de Vitor Hugo Brandalise, publicado pela editora Record, é uma dessas histórias que costumam se perder na enxurrada de informações irrelevantes produzidas e consumidas diariamente. 

Em 28 de setembro de 2014, Nelson Irineu Golla, então com 74 anos, explodiu uma bomba caseira em uma casa de repouso repleta de idosos em São Mateus, na zona leste de São Paulo, matando sua mulher, Neusa Maria Golla, 72, e se ferindo. O fato foi registrado assim, de maneira rasa e no tom bege das publicações diárias, mas despertou em Brandalise o faro jornalístico para cavar mais profundamente. 

Após nove meses de apuração, sua reportagem foi publicada na internet pelo site Brio em 2015, com o título Sobre a Sede, e pelo Estado, em três episódios, entre as edições de 27 de setembro e 11 de outubro do mesmo ano. O livro, porém, traz mais detalhes, divagações do personagem, e transcrições de cartas de conhecidos que foram usadas após o ocorrido pelos advogados de Nelson como “atestados” do amor dele por Neusa.

O Último Abraço começa “in media res”, no meio dos acontecimentos, e é um livro que já entrega seu final desde o início. O que interessa ao jornalista não é o lide tradicional (Quem? O quê? Quando? Onde? Por quê?), e sim a dimensão humana por trás dessa história. Após dezenas de encontros com “seu” Nelson, sua família e pessoas envolvidas no caso, o repórter traçou um panorama de toda a vida do casal, ressaltando episódios específicos da trajetória do trágico protagonista que tornam, se não justificável, compreensível o seu impulso suicida. O livro revela que o estopim foi a proibição de dar água a Neusa, que se alimentava por meio de uma sonda.

Brandalise deixa o jornalismo frio e objetivo de lado em prol de uma aproximação subjetiva, característica do jornalismo literário de nomes como Joseph Mitchell, Gay Talese e Janet Malcolm (há muito de Anatomia de um Julgamento – Ifigênia em Forest Hills na abordagem que não busca respostas conclusivas e no modo de costurar a narrativa do livro, sem preocupação cronológica). A maneira como Brandalise entra na cabeça de seu Nelson em busca de devaneios, reminiscências e digressões lembra a ousadia dos perfis de Tom Wolfe, que não tinha pudor em examinar os mais desvairados pensamentos de seus personagens. O próprio autor cita como inspirações o filme Amor, de Michael Haneke, e as biografias romanceadas de Fernando Morais e Ruy Castro.

A relação de poder entre marido e mulher que fez Nelson levar a responsabilidade de provedor da família às últimas consequências; a desconfiança dele com a medicina; sua noção de velhice como um sofrimento desnecessário; e, acima de tudo, o amor por Neusa. Todos esses temas são esmiuçados de modo a levar o leitor o mais próximo possível da intangível mente do personagem enquanto o jornalista mistura passado e presente a fim de opor momentos de vitalidade e fragilidade.

A Vila Prudente, palco da história e da vida inteira de Nelson e Neusa, se faz sempre presente no relato, como se os personagens fossem moldados pela vida simples na vila operária e afetados por sua transformação em bairro de classe média. Mais da metade do livro oferece o tom leve e saboroso do jornalismo literário, embora usado para narrar um drama denso, mas o autor traz na segunda metade da obra a opinião de especialistas e abre uma ampla discussão sobre eutanásia, envelhecimento saudável e suicídio assistido, temas caros à tragédia de seu Nelson, uma espécie de Romeu e Julieta da terceira idade, como vem sendo chamado informalmente o caso nas esferas jurídicas. 

Por fim, com a ajuda de Albert Camus, filósofo franco-argelino que escreveu, entre outros temas, sobre o suicídio, O Último Abraço busca uma dimensão filosófica para a reportagem e delineia um paralelo entre a angústia do casal e o mito grego de Sísifo – condenado pelos deuses a empurrar uma rocha até o topo de uma montanha apenas para vê-la rolar de volta à base e ser obrigado a repetir o processo indefinidamente. Para Camus, o suicídio seria o único problema filosófico realmente sério, e o que motiva um ato como esse é sempre algo incontrolável. Teria Nelson identificado sua peregrinação diária de casa para a clínica onde Neusa estava internada havia quatro anos como o destino cíclico de Sísifo? Essas respostas o livro não fornece. 

O Último Abraço não se propõe a julgar ninguém ou oferecer fatos conclusivos. Mais valioso como um exercício de humanização de manchetes, o livro de Vitor Hugo Brandalise tem a ambição de narrar uma história com requintes literários, mas sem deixar de lado a preocupação jornalística de informar.

*André Cáceres é jornalista, escritor, colaborador do 'Aliás' e autor do livro 'Cela 108', da editora Multifoco

O Último Abraço

Autor: Vitor Hugo Brandalise

Editora: Record (138 pág., R$ 32,90)

Lançamento: Terça-feira, dia 7 de março, às 19h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, tel. 3814-5811)

Mais conteúdo sobre:
Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.