Jason Bell/Syfy
Jason Bell/Syfy

'Histórias em que o preconceito foi abolido não soam plausíveis', diz James S. A. Corey

Pseudônimo de Daniel Abraham e Ty Franck, autor de 'Leviatã Desperta' fala sobre processo criativo de seu livro de estreia que chega ao Brasil

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 16h00

Acesso à informação, problemas diplomáticos, sentimento nacionalista, discriminação étnica, polarizações ideológicas. Esses temas poderiam muito bem rechear um romance de espionagem digno de John Lé Carré, um debate sobre geopolítica internacional ou mesmo uma corrida eleitoral, mas são os assuntos que compõem a espinha dorsal de Leviatã Desperta, livro que originou a série The Expanse e se passa em um sistema solar parcialmente explorado pela humanidade, com uma narrativa fragmentada entre os pontos de vista de Holden, tripulante de uma nave rebocadora de gelo; e de Miller, um policial saído direto dos clássicos noir de Robert Siodmak. “A beleza da ficção científica é que ela deixa todos os outros gêneros virem e brincarem dentro dela”, afirma o autor James S. A. Corey em entrevista ao Aliás

Assim como a narrativa de Leviatã Desperta é dual, o autor também: James é o pseudônimo de Daniel Abraham, responsável pela adaptação em quadrinhos de A Guerra dos Tronos; e Ty Franck, que também trabalhou com George R.R. Martin. Os dois protagonistas, Holden e Miller, representam não apenas estilos literários que parecem irreconciliáveis à primeira vista — noir e space opera —, mas opiniões distintas sobre as questões de que o livro trata.

Diferente de Holden, Miller não crê na capacidade que as pessoas têm de formar seus próprios conceitos com base no que sabem, defendendo o controle da informação ao público. “Existem limites ao livre trânsito de informação, mas também há questões éticas sobre quem detém essa informação”, pondera Corey. “O argumento de Holden, de que todos os fatos deveriam sempre ser públicos, é ingênuo, mas o impulso por trás, de que mais transparência em geral é melhor, é algo com que nós concordamos. O problema é quando qualquer resposta simples é aplicada a um mundo complexo.” 

O romance começa com um ataque aparentemente injustificado a uma nave, e a divulgação imprudente do ocorrido por parte de Holden, acusando a marinha marciana de ter praticado o ato, provoca atritos diplomáticos que escalam rapidamente, deságuam em uma guerra de proporções inéditas e perturbam o delicado equilíbrio político entre Terra, Marte e o Cinturão de Asteroides. A sociedade tecida por Corey parece ter se organizado em torno dos preconceitos e os habitantes dos três locais odeiam-se mutuamente: os cinturinos, submetidos à baixa gravidade, são esguios e alongados, enquanto os marcianos sofrem do complexo de colonizados em relação aos terráqueos, uma potência decadente. “Questões de raça não foram resolvidas na história humana até agora, e não esperamos que elas sejam no futuro. Elas vão mudar e refletir a história na qual elas existem. Histórias em que o preconceito foi abolido não soam plausíveis para nós”, explicam os autores.

Alguns clássicos do gênero foram criados em dupla, como o cerebral 2001: Uma Odisseia no Espaço, parceria entre Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick; e o steampunk A Máquina Diferencial, por William Gibson e Bruce Sterling. Leviatã Desperta também se beneficia da pluralidade de visões proporcionada pelo processo criativo a quatro mãos. “Nós passamos muito tempo, no começo do projeto, decidindo quais eram exatamente as nossas intenções para a série, e isso nos deu uma maneira de julgar quais seriam as escolhas individuais ao longo do percurso. Tivemos pouquíssimas discordâncias, e as que tivemos foram facilmente solucionadas”, contam os escritores. Uma das intenções de Abraham e Franck foi mostrar, com naturalidade, mulheres em posições de poder. “Sempre foi a nossa intenção criar um futuro em que as mulheres eram vistas como moralmente iguais aos homens. Isso se perdeu um pouco na nossa escolha de protagonistas masculinos”, admitem. 

O realismo empregado na criação do universo de Leviatã Desperta impressiona, mas ainda não o credencia como um livro de “ficção científica hard”, como os trabalhos de Carl Sagan (Contato) e, mais recentemente, Andy Weir (Perdido em Marte). “Sempre brincamos que buscamos um nível ‘Wikipedia’ de plausibilidade. Queremos estar abalizados na física real e ter um entendimento sobre o que estamos escrevendo”, diz Corey.

Entre as influências diretas, os autores citam o filme Alien: O Oitavo Passageiro (1979), dirigido por Ridley Scott; e o livro The Stars My Destination (1957), romance de Alfret Bester (1913-1987, vencedor do primeiro prêmio Hugo em 1966 com O Homem Demolido) que se passa no sistema solar do século 25, compondo uma tragédia de vingança com ecos shakespearianos subjacentes e citações de Hamlet e Otelo, mas notável pela construção de cenário detalhada e coerente. “Ambos têm um senso de classe trabalhadora no espaço. Não os exploradores, mas a terceira onda após a exploração ser feita. Os encanadores, técnicos e pessoas reais, reconhecíveis”, afirma Corey. 

Esse viés social, a preocupação com a realidade dos operários, a população comum e questões sociais marca uma divergência importante entre Leviatã Desperta e outras óperas espaciais, como as sagas Fundação, de Isaac Asimov, e Duna, de Frank Herbert, que concentram seus esforços em traçar os grandes rumos da humanidade ou tratar de intrigas palacianas e disputas de poder nas altas esferas da nobreza. Daniel Abraham e Ty Franck foram indicados ao Hugo em 2012 por Leviatã Desperta, um romance caudaloso e original que chega agora ao leitor brasileiro, mas já entrou para o rol de um dos subgêneros mais charmosos da ficção científica.

Leviatã Desperta

Autor: James S. A. Corey

Tradução: Marcia Blasques

Editora: Aleph

672 páginas

R$ 69,90

 

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