Holograma da revolução

Subcomandante Marcos ‘morre’ simbolicamente, mas vive na pele de Galeano, morto de verdade

Juan Pablo Villalobos,

07 Junho 2014 | 16h00

A ideia era que o 1º de janeiro de 1994 passasse à história como o dia em que o México irromperia no Primeiro Mundo, uma data que ficaria marcada por um acontecimento simbólico: a entrada em vigor do Tratado de Livre Comércio da América do Norte. Era o que pensava, ao menos, a classe governante, propulsora do neoliberalismo, educada em Yale, em Harvard e no MIT e liderada pelo então presidente Carlos Salinas de Gortari. Reza a lenda que a festa de ano-novo organizada pela presidência da república foi estragada por uma notícia que correu de boca em boca entre os elegantes bailarinos que brindavam com champanhe: guerrilheiros mascarados autoproclamados Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) acabavam de pegar em armas no Estado sulista de Chiapas, um dos mais pobres e de maior presença indígena do país. A estupefação dos participantes da festa se estenderia na manhã seguinte a todos os cantos do México. O 1º de janeiro de 1994 já não seria o que ia ser; seria recordado como o dia do surgimento do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Neste 1º de janeiro o EZLN completou 20 anos. Seu líder, o subcomandante Marcos, também completou 20 anos. Esses dois fatos, simbólicos no contexto nacional e também global, se contrapõem a uma realidade menos visível, mas de enorme impacto local: em 2014 também completaram 20 anos os nascidos nas comunidades zapatistas: os filhos que nasceram, cresceram e foram educados segundo os preceitos zapatistas já são adultos e estão prontos para pegar o bastão geracional.

Em 20 anos, o subcomandante Marcos conseguiu, realmente, ser considerado o “primeiro guerrilheiro do século 21”, um revolucionário pós-moderno que mudava de identidade. Egresso da classe média, ilustrado, consciente de seu tempo (entendeu muito rápido a revolução que a internet implicava), messiânico irônico (às vezes francamente um clown), figura pop (era visitado por Oliver Stone, escrevia canções com Joaquín Sabina, mantinha correspondência com o filósofo Luis Villoro), era capaz de encaixar em seus discursos as mais variadas referências, incluindo as séries de televisão Game of Thrones e The Walking Dead.

Personagem literário e narrador de sua epopeia, Marcos foi deixando em discursos, entrevistas e livros uma enfiada de frases e opiniões que acabavam em grafites, epígrafes, estrofes de canções, as quais, chegado o tempo, se expandiram no mundo virtual do Facebook ou do Twitter. Uma retórica revolucionária não poucas vezes brega, mas muitas vezes salva pelo humor, como mostra uma de suas frases mais célebres: “Desculpem os transtornos, isto é uma revolução”.

A imagem do subcomandante exerceu um fascínio global e, de fato, sua popularidade talvez tenha sido mais unânime fora que dentro do México. Sirva de exemplo um episódio pessoal: em 26 de maio, horas depois de Marcos anunciar seu desaparecimento, recebi uma correspondência eletrônica de minha tradutora turca que me pedia com “urgência” que a ajudasse a resolver algumas dúvidas na tradução do discurso de despedida do guerrilheiro. Ela me disse que havia parado de trabalhar para traduzir o discurso e que o estava fazendo de graça, para publicá-lo num blog, de tão urgente e importante que era a situação. Em comparação, e não o digo sem constrangimento, envergonhado, durante aquele dia e nos seguintes nenhum de meus amigos ou familiares no México me falou do assunto.

Conscientemente histriônico, Marcos construiu uma identidade maleável que não deixava ninguém indiferente. Era idolatrado ou odiado. Ou, muito frequentemente, objeto de suspeita. Quem era o homem atrás da máscara?

Em 1995, o governo de Ernesto Zedillo (1994-2000), sucessor de Carlos Salinas de Gortari, o identificou como Rafael Sebastián Guillén Vicente, originário de Tampico, no Estado de Tamaulipas, egresso da carreira de filosofia da Universidade Nacional Autônoma do México, professor universitário, nascido em 1957. Como demonstração do caráter lúdico com que Marcos assumia sua identidade, em seu último discurso, ao anunciar seu desaparecimento, ele não se esqueceu de ironizar sobre a identidade do homem atrás da máscara: “Um tempo depois o tampiquenho chegou a estas terras (...) Falamos com ele. Propusemos-lhe dar uma entrevista conjunta, assim ele poderia se livrar da perseguição, já que seria evidente que ele e Marcos não eram a mesma pessoa. Não quis. Veio viver aqui (...) Se quiserem, podem entrevistá-lo. Agora vive numa comunidade em... Ah, ele não quer que saibam onde vive (...) De nossa parte, só nos resta agradecer-lhe por nos ter passado dados que de tempos em tempos usamos para alimentar a ‘certeza’ de que o SupMarcos não é o que é na realidade, isto é, uma botarga ou um holograma, mas um professor universitário, originário do agora sofrido Tamaulipas”.

No México, uma das críticas frequentes a Marcos era o que alguns viam como “afã de protagonismo”, “ambição de estrela midiática”. Houve até quem questionasse sua autenticidade, já que no fim das contas ele era um mestiço, urbano, proveniente da classe média educada, não representativo da gente das comunidades zapatistas. Mas Marcos assumia seu papel no movimento zapatista como o de alguém que atrai a atenção sobre si para que os outros possam fazer o trabalho realmente importante. Ele atuava, conforme declarou, para que os zapatistas pudessem construir, tranquilos, suas escolas, seus hospitais e sua autonomia.

O último salto no vazio de sua identidade, seu desaparecimento anunciado no 25 de maio, é a aceitação do que Marcos foi na realidade: uma botarga ou um holograma. Botarga: personagem disfarçado que participa de celebrações populares; holograma: imagem fotográfica tridimensional criada com raio laser. Tradição e modernidade.

Se houve um grande acerto na configuração da identidade de Marcos, até o final, foi justamente este: salvar a oposição entre tradição e modernidade e propô-la como uma dicotomia, como as duas faces da mesma moeda.

Eclipsada por sua figura de ícone global da insurreição, há uma faceta do subcomandante Marcos estritamente contextual e nacional: a oposição de sua imagem, de seu “holograma”, ao da figura preponderante daquele 1994, o presidente Carlos Salinas de Gortari. Salinas e Marcos encarnam dois polos opostos de um México (e uma América Latina) entendida, muitas vezes, de maneira maniqueísta: neoliberalismo contra revolução, burguesia branca contra povos indígenas, modernidade contra tradição. A grande vitória do EZLN, o grande serviço que prestou à nação, e isso não se deve esquecer, é ter fraturado o sonho salinista, ter contribuído para acabar com o projeto que Carlos Salinas e sua equipe albergavam, a ambição de perpetuar-se no poder por 20 anos para implantar a fundo o programa neoliberal.

A “morte” do subcomandante Marcos, o desaparecimento de sua botarga e de seu holograma, são a resposta a outra morte, uma morte real, sangrenta: em 2 de maio de 2014, José Luis López, o “companheiro Galeano” (assim apelidado em homenagem ao escritor uruguaio Eduardo Galeano), foi assassinado nas mãos do que o EZLN denomina “forças paramilitares e contrainsurgentes”. Revoltando-se com a morte do companheiro Galeano, Marcos decide revivê-lo. Mas alguém tem de morrer para que Galeano viva e Marcos escolhe morrer para ceder a Galeano seu lugar na vida e, em seu último discurso, ele se erige em porta-voz do próprio falecimento: “Às 2h08 de 25 de maio de 2014, na frente de combate sudeste do EZLN, declaro que deixa de existir aquele conhecido como subcomandante insurgente Marcos (...) Por minha voz já não falará a voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional”. Um aviso fúnebre que é prontamente corrigido pela mesma voz, mas que agora provém de outro personagem, as palavras de um morto que volta à vida como um holograma: “Boas madrugadas tenham companheiras e companheiros. Meu nome é Galeano, subcomandante insurgente Galeano”. Um morto vivo (Galeano) e um vivo morto (Marcos) convivem na palestra.

Morto o subcomandante Marcos, não devemos nos ocupar somente de seguir os movimentos de seu novo botarga/holograma, o subcomandante Galeano. O momento é de refletir sobre o que há por baixo dessa troca simbólica, uma troca em múltiplas instâncias, como assinalou Marcos em sua última e definitiva aparição: “A (troca) de classe: do originário de classe média educado ao camponês indígena. A de raça: da direção mestiça à direção nitidamente indígena. E, mais importante, a troca de pensamento: do vanguardismo revolucionário ao mandar obedecendo; da tomada do poder de cima para baixo à criação do poder de baixo para cima; da política profissional à política cotidiana; dos líderes aos povos; da marginalização de gênero à participação direta das mulheres; da gozação do outro à celebração da diferença”.

Um novo EZLN está nascendo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Juan Pablo Villalobos, escritor mexicano, é autor, entre outros livros, de 'Festa no covil' (Companhia das Letras) e 'No estilo de Jalisco' (Bateia/Realejo). Escreveu este artigo especialmente para o Aliás.

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