Royal Shakespeare Company
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Inédita no Brasil, peça de Shakespeare aborda relação homoafetiva

'Os Dois Primos Nobres', escrita em 1613 e ainda sem montagem no País, é publicada em livro

Antonio Gonçalves Filho , O Estado de S. Paulo

20 Maio 2017 | 16h00

O nome do dramaturgo John Fletcher (1579-1625) é automaticamente associado ao de Shakespeare, seu parceiro em três peças, sendo uma delas Cardenio (1613), considerada perdida e inspirada num personagem de Dom Quixote – fragmentos do texto foram finalmente resgatados em 2011. Outra peça em colaboração, Os Dois Primos Nobres (The Two Noble Kinsmen), provavelmente escrita na mesma época (1613-1614), permaneceu esquecida e inédita em tradução brasileira até agora (existe apenas uma versão por Ênio Ramalho, publicada em Portugal). Felizmente, a editora Iluminuras decidiu lançar a tradução em versos decassílabos por José Roberto O’Shea, da Universidade Federal de Santa Catarina, com uma irretocável introdução de Marlene Soares dos Santos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O livro é publicado simultaneamente a dois outros dedicados ao encenador inglês Edward Gordon Craig (1872-1966), reunidos num único volume, Rumo a um Novo Teatro & Cena, lançado pela editora Perspectiva. Combinação perfeita: Craig, que renovou o teatro do século 20 com uma original concepção de cenografia e iluminação, foi um dos grandes encenadores de Shakespeare, tendo montado Hamlet e Macbeth em Moscou, em 1912 (a edição traz os desenhos originais em mais de duas dezenas de pranchas).

A mais recente montagem de Os Dois Primos Nobres (no Swan Theatre de Stratford-upon-Avon, em fevereiro de 2016), aliás, deve muito à concepção teatral de Gordon Craig, à ideia de uma cena simplificada, livre dos excessos, apostando na austeridade. Craig era de opinião que Shakespeare merecia algo muito diferente do teatro Globe, sugerindo construir um espaço arquitetônico capaz de lidar com a modernidade de seus personagens. E Os Dois Primos Nobres é absurdamente moderna, ao falar de tiranos sem compaixão, do mundo das amizades masculinas que exclui as mulheres e, especialmente, da luta pela autonomia feminina diante de tal exclusão.

O tema da peça de Shakespeare/Fletcher, derivado de uma história de Chaucer, The Knight’s Tale (O Conto do Cavaleiro), uma das 24 de Os Contos de Canterbury, é a transformação da amizade entre dois primos – uma relação de caráter homoafetivo – numa rivalidade sem trégua. Capturados numa batalha, eles são presos e, apesar do juramento de fidelidade, acabam em lados opostos quando os dois se apaixonam por Emilia. Arcite, fora da prisão, vai atrás de sua amada. Palamon, o outro primo, com a ajuda da filha do carcereiro, foge e desafia o primo para um duelo que vai decidir quem fica com Emilia.

Há ecos de Sonho de uma Noite de Verão e até de Hamlet na peça, como observa a autora da introdução no livro, Marlene Soares dos Santos. Especialmente da primeira peça, escrita nos anos 1590. Ambas as histórias se passam em Atenas e têm como personagens Teseu e Hipólita. Teseu, a exemplo dos dois primos nobres presos, teve no passado uma paixão homoafetiva pelo herói mítico Píritoo, rei dos Lápitas. Hipólita é uma ex-amazona, guerreira pouco chegada ao marido. Emília tem igualmente pouco interesse nos homens, lembrando com frequência Flavina, sua amiga de infância que morreu. A filha do carcereiro enlouquece de amor, como a Ofélia de Hamlet, diante da indiferença de Palamon. Enfim, nessa tragicomédia de erros e ambivalência sexual – mais tragédia que comédia –, os maiores deles chamam-se ingratidão e indiferença. Não só o código dos cavaleiros é violado entre Palamon e Arcite, mas o trânsito interclassista é interrompido pela incapacidade de o primeiro nobre perceber a existência da filha do carcereiro que o livrou da prisão, arriscando a própria vida por ele.

A produção da peça em Stratford-upon-Avon por Blanche McIntyre, segundo a crítica do The Guardian, sublinha o estranho erotismo da peça de Shakespeare/Fletcher, “mas não resolve todos os seus problemas”. James Wilkes, como Arcite, surge numa versão contemporânea do nobre, vestido com um blusão de couro punk, cheio de tachinhas, e abraçando James Corrigan (Palamon) enquanto diz: “Somos a esposa um do outro” (a frase está no texto original). McIntyre carrega nas tintas do “bromance” (relacionamento íntimo entre homens, uma combinação de brother/irmão com romance). Fletcher, o parceiro de Shakespeare, como se sabe, viveu anos com outro homem na mesma casa, o dramaturgo Francis Beaumont, que se casou (com Ursula Isley) em 1613, ano em que Os Dois Primos Nobres foi escrita. Não é exagero dizer que ele usou a autoficção muito antes de o termo ser cunhado.

Enfim, como reconhece Palamon ao casar com Emília, no epílogo da peça, após a morte do amigo Arcite: “Não se pode ganhar um amor sem um amor perder”. Ou, como diz Teseu, o vencido triunfa e perde o vencedor, recomendando que deixemos aquilo que fica acima do nosso entendimento. “Daqui vamo-nos; comportemo-nos segundo o momento”. Bom final, ainda que dito por um tirano.

Os Dois Primos Nobres 

Autores: William Shakespeare e John Fletcher

Tradução: José Roberto O'Shea

Editora: Iluminuras

200 páginas

R$ 53

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