Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Inédito no Brasil, 'Em Alto-Mar' narra viagem transatlântica

Livro de 1889 do escritor italiano Edmondo Di Amicis cria microcosmo da Itália unificada com viés social

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

08 Julho 2017 | 16h00

É um pouco estranho que Em Alto-Mar só agora tenha chegado a um país como o Brasil, povoado por milhões de ítalo-descendentes. O livro foi escrito pelo romancista Edmondo De Amicis (1846-1908) e publicado na Itália em 1889, tornando-se imediato best-seller peninsular, tendo chegado a tirar nada menos que 25 edições. História de uma travessia do Atlântico, de Gênova a Montevidéu, foi considerado o primeiro romance sobre a emigração em massa na Itália após o processo de unificação do país, o chamado Risorgimento. 

Por sorte, o livro chega com esse considerável atraso, porém em edição caprichada, tanto do ponto de vista estético como de conteúdo. A bonita edição em capa dura da Nova Alexandria (em parceria com o Istituto Italiano di Cultura), abriga a tradução esmerada de Adriana Marcolini, uma especialista com tese defendida na USP intitulada Sull’Oceano: uma Travessia de Emigrantes Italianos (2016). Sull’Oceano é o título original do livro. 

Em Alto-Mar é obra peculiar, sem dúvida. De Amicis, conhecido no Brasil por seu romance Cuore (Coração), outro campeão de vendas em seu tempo, era também famoso por seus livros de viagens, como Spagna (1872), Olanda (1874), Marocco (1876), Ricordi di Londra (1874) e Costantinopoli (1877). No entanto, Em Alto-Mar concentra-se apenas na travessia, não no ponto de chegada. Usa o espaço restrito do navio como teatro da emigração e o tempo de viagem como duração do drama.

Batizada de forma ficcional como Galileo, a embarcação se chamava, de fato, Nord America. Era um navio moderno e grande para sua época. Com 127 metros de comprimento e 15 de largura, levava cerca de 1.700 pessoas entre passageiros e tripulantes. De Amicis ia a convite do jornal argentino El Nacional, do qual era colaborador, para ministrar palestras sobre a cultura e a história da Itália. Passou três meses na Argentina e, na volta para seu país, já em outra embarcação, o Sirio (que naufragou em 1906 com 700 emigrantes a bordo), fez escala de três dias no Rio de Janeiro. Muitos anos depois, registrou suas impressões sobre a cidade, relatando inclusive seu encontro com o imperador Pedro II, em dois textos incorporados ao livro.

Na viagem de Gênova a Montevidéu, De Amicis era um dos 50 privilegiados passageiros de primeira classe. Na segunda, iam 20 e, na terceira, se aglomeravam nada menos que 1.600 emigrantes. A maioria tinha como destino a Argentina, fazendo escala no Uruguai, onde poucos deles se deteriam.

De Amicis não tinha qualquer intenção de gastar os 22 dias de travessia trancafiado na cabine, lendo ou meditando. Preferiu aproveitá-los para observar os outros passageiros, a maior parte formada por compatriotas e a imensa maioria por emigrantes pobres, praticamente expulsos de sua terra natal por falta de meios para sobrevivência. Iam à busca de melhores condições de vida na rota do Eldorado representado pelo Novo Continente. “Fare l’America”, fazer a América, era palavra de ordem dos italianos pobres daquele tempo. 

Socialista e humanista, discípulo da precisão naturalista de Émile Zola, olha com certa ironia para seus companheiros de primeira e segunda classe. Reserva a mirada compadecida para seus compatriotas pobres. Descreve de maneira pungente as famílias acomodadas em cantos exíguos, sem qualquer conforto ou higiene. Aliás, a superlotação dos navios de emigrantes era tolerada numa época sem maiores controles. As descrições de De Amicis contribuíram para a aprovação da Lei de Emigração, em 1901, que impunha inspeção dos navios nos portos de partida para verificar se os armadores respeitavam as regras sanitárias.

Somos como que transportados a bordo, para esse teatro móvel em que se transforma o Galileo ao longo da viagem. Com o correr dos dias, os atores vão definindo seus papéis e aparecendo no palco. Algumas figuras são cômicas como a senhora fogosa, que deixa o marido na cabine e busca aventuras pelo convés. Ou o fiscal da moralidade a bordo, fiel cumpridor das ordens do capitão, que deseja para seu navio a castidade de um convento e se expressa em saboroso dialeto genovês. Há mesmo uma rica família brasileira, com sua negra escrava a tiracolo, figura “exótica” que será sensualmente cobiçada por muitos passageiros e pintada por De Amicis com traços racistas próprios daquela época.

Na descrição das conversas, muitas vezes De Amicis usa formas dialetais, preservadas pela tradução e cujo sentido se encontra em notas de rodapé. Isso para mostrar que a Itália do Risorgimento não era tão unificada assim e a língua italiana oficial convivia com inúmeros dialetos que não se compreendiam entre si.

Também não escapa a De Amicis que o Galileo se transforma em microcosmo da Itália e expressa, a bordo, as contradições e tensões do país deixado para trás. Estratos sociais olham-se com desconfiança e, muitas vezes, com desprezo e hostilidade. Essa “miniatura” da Itália fornece o quadro do drama descrito por Em Alto-Mar e vivido por seus personagens como script de suas existências: a moça bondosa e doente, as famílias camponesas voltadas para si mesmas, a mulher grávida que vai dar à luz em pleno oceano e o velho moribundo que não chegará a ver seu filho do outro lado do mundo. Sexo, amor, morte e nascimento, desespero e esperança, como num folhetim da vida real, isolado e cercado de água por todos os lados.

A todos esses personagens, a mirada de De Amicis contempla com rigor e acuidade. Mas seu olhar melhor e mais bondoso vai, sem dúvida, para a maioria dos passageiros, forçados à viagem e que desafiam o medo em nome de uma vida melhor. Aos que viajam em terceira classe pela vida afora.

Em Alto-Mar

Autor: Edmondo Di Amicis

Tradução: Adriana Marcolini

Editora: Nova Alexandria

320 páginas

R$ 65

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