Inédito no Brasil, livro de Jules Verne critica o povo americano

Inédito no Brasil, livro de Jules Verne critica o povo americano

‘O Testamento de um Excêntrico’ faz um retrato crítico de um povo obcecado pela competição e pelo jogo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2017 | 16h00

O francês Jules Verne (1828-1905), segundo autor mais traduzido do mundo, atrás apenas do inglês William Shakespeare, acaba de ter um livro de sua fase madura traduzido pela primeira vez no Brasil, O Testamento de um Excêntrico, publicado em 1899. Antes tarde do que nunca. Edição limitada (1 mil exemplares numerados), o livro, publicado pela editora Carambaia, é ao mesmo tempo uma descrição detalhada da vida nos EUA na virada do século 19 para o 20 e uma análise do caráter do americano médio feita por um autor reverente às conquistas do país, mas extremamente crítico ao espírito competitivo dos seus cidadãos.

Outros três livros de Jules Verne estão sendo simultaneamente lançados por outras editoras, entre eles uma outra obra pouco lida do autor de Vinte Mil Léguas Submarinas. Trata-se de Dois Anos de Férias (leia mais sobre o livro nesta página), publicado pela primeira vez em 1888, sobre crianças à deriva no mar do Pacífico que, para sobreviver na natureza hostil, são obrigadas a replicar o modelo da sociedade dos adultos – com toda a hierarquia de quem se imaginava livre das ordens dos pais. Dois Anos de Férias é lançado pela mesma editora, a Via Leitura, que publica uma nova tradução de um dos livros mais populares do romancista francês, A Volta ao Mundo em 80 Dias (1873). A editora Zahar lançou também A Ilha Misteriosa, em edição de bolso, e promete Viagem ao Centro da Terra no mesmo formato em 2018. 

Entre esse título e O Testamento de um Excêntrico existe um vínculo nada desprezível. Se A Volta ao Mundo em 80 Dias tem um rico cavalheiro inglês sócio de um clube fechado, vivendo de maneira um tanto sistemática, o livro americano de Verne também tem um milionário filiado a um clube – no caso, de excêntricos – que precisa justificar sua adesão ao mesmo, redigindo um testamento que obriga os interessados em sua herança a viajar por toda a extensão do território norte-americano. Vale lembrar que, em A Volta ao Mundo em 80 Dias, o itinerário do cavalheiro inglês Philleas Fog, que pertence igualmente a um clube privado, prevê uma viagem de trem de sete dias pelos EUA, entre San Francisco e Nova York. Detalhe: nele, a viagem segue um roteiro, a despeito dos imprevistos.

Nos dois livros, o deslumbre futurista de Verne cede lugar a uma abordagem mais crítica dos impérios – A Volta ao Mundo em 80 Dias faz um inglês pontualíssimo chegar atrasado ao seu destino, representação alegórica do declínio do Império Britânico, incapaz de acompanhar as mudanças de sua época e reconhecer as diferenças culturais de outros pontos do planeta, particularmente o Novo Mundo. Em O Testamento de um Excêntrico, o milionário obriga os pretendentes à herança a uma maratona de viagens por todos os 50 Estados americanos, submetendo os sorteados a um jogo de tabuleiro e dados. A uma certa altura do livro, aliás, Verne cita Mallarmé – “um jogo de dados jamais eliminará o acaso.” E é justamente o acaso que dá as cartas em O Testamento de um Excêntrico.

O ponto de partida (e chegada) dos seis candidatos sorteados para herdar a fortuna do multimilionário William J. Hypperbone é Chicago, que, em 1897, data em que começa a disputa, ostentava o título de quinta cidade do mundo, já usando, na época, meios de transporte modernos. Na verdade, são sete os candidatos – o excêntrico Hypperbone, num complemento ao testamento, determina que o sétimo participará do Jogo do Ganso sem ter sua identidade revelada. Como no tradicional jogo de tabuleiro, que se popularizou na Europa entre os séculos 16 e 17, os participantes podem avançar, retroceder ou sofrer penalizações, o que, em se tratando de uma corrida por uma herança de US$ 60 milhões, pode significar mais que um simples contratempo.

Verne criou alguns tipos bem antipáticos para participar desse ‘jogo do ganso’ – que Hypperbone batiza de Nobre Jogo dos EUA, em que as casas do tabuleiro são substituídas pelos estados do país. E, obviamente, a movimentação dos jogadores é real. Há, por exemplo, um casal de usurários, Hermann e Kate Titbury, que, mesquinhos ao extremo, são obrigados a desembolsar US$ 8 mil para pagar as despesas de viagem e aprendem uma lição no epílogo que deixará marcas nesse relacionamento. Há também um colérico capitão de sangue quente que, acompanhado de um marinheiro, entra na competição e viaja apenas para amargar uma grande decepção. Outro personagem patético, um pugilista, leva mais murros da vida do que talvez merecesse.

A simpatia de Verne converge para a figura de um artista, o pintor (descendente de franceses, claro) Max Réal, que, como sugere seu sobrenome, tem uma relação verdadeira com a vida – para ele, a herança não significa muito, mas a viagem, sim. Outra personagem simpática é Lissy Wag, vendedora de uma loja de Chicago. Acompanhada na jornada por sua melhor amiga, durante o jogo ela e Max Réal ficam cada vez mais próximos. Dois outsiders, que, enfim, não se encaixam num jogo em que o capital é o prêmio, são os heróis de Verne. A exemplo dos demais, não são senhores de seu destino. São servos do acaso num jogo de dados, mas contam com a empatia do autor pelos artistas e desfavorecidos no gigantesco território do jogo (os EUA), onde a palavra ‘loser’ (perdedor) é frequentemente empregada para designar tipos como Max Réal e Lissy Wag.

Verne foi não só um visionário que anunciou o futuro, mas um escritor adotado como referência por autores filiados ao surrealismo, como Raymond Queneau e Julio Cortázar, como já assinalou um crítico francês, referindo-se à ressonância de O Testamento de um Excêntrico na obra dos dois (especialmente em O Jogo da Amarelinha, do escritor argentino, que pode ser lido de maneira linear ou como num jogo do ganso, partindo do capítulo 73 para retornar ao princípio). As narrativas literárias de Verne conservam também um parentesco com Raymond Roussel e Breton. É o que garantem os acadêmicos Terry Hale e Andrew Hugill.

O Testamento de um Excêntrico

Autor: Jules Verne

Tradução: Mauro Baladi e Regina Schöpki

Editora: Carambaia

418 páginas

R$ 134,90

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