Fundación Gala-Dali/Autvis/Editora Companhia das Letras
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Intrigas, assassinatos e traições estão em livro sobre origens de Los Angeles

Jean Stein, fascinada pelos problemáticos novos-ricos de Hollywood, tem livro lançado no Brasil na semana em que cometeu suicídio

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

06 Maio 2017 | 16h00

Um título de ressonâncias bíblicas (A Oeste do Éden), com uma sucessão de sagas reais ambientadas na Califórnia – a mesma Califórnia do romance de John Steinbeck, A Leste do Éden, cuja versão para o cinema, aqui traduzida como Vidas Amargas, lançou o mito James Dean. A leste ou a oeste, tanto faz: ambos ficam do outro lado do alegre e inocente jardim do Paraíso. No romance de Steinbeck, no Vale de Salinas. No livro de Jean Stein, mais ao sul, em Los Angeles. 

Los Angeles foi, em sua gênese, um verdadeiro paraíso para determinados aventureiros do capitalismo predatório. Eles investiram pesado, sem barreiras e sem escrúpulos, nas promessas da cidade e nas potencialidades de seus três principais ramos de negócios (mercado imobiliário, petróleo e cinema) e ficaram bilionários. E poderosíssimos. Até que os deuses da fortuna os deixaram entregues à própria sorte, atolados em desgraças familiares e escândalos financeiros.

A Oeste do Éden é uma história oral de cinco clãs disfuncionais daquela terra ensolarada em que tudo é ou parece ser falso, a começar por sua aristocracia, sucedânea jeca da europeia. Temos os Donehy (petróleo), os Warner e os Selznick (indústria de filmes), os Garland (terrenos & imóveis) e, fechando a corte, os Stein (show business), a cuja linhagem pertence a autora do livro, cria de Los Angeles e testemunha ocular de alguns episódios por ela exumados em entrevistas com quem ainda estava vivo na década passada. 

Jean Stein já se exercitara nesse subgênero literário celebrizado há seis décadas por Studs Terkel (Working, sobre a classe trabalhadora), contando a vida trágica de Edie Sedgwick, modelo de Andy Warhol, morta de overdose aos 28 anos. Impecavelmente encadeados, os depoimentos de A Oeste do Éden formam um Rashomon que se lê como um romance noir de Raymond Chandler (citado na abertura do primeiro capítulo, sobre Edward L. Donehy, inspiração constante de Chandler e modelo do personagem de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro) ou como a transcrição das conversas de um coquetel em que estivessem presentes Lauren Bacall, Gore Vidal, Arthur Miller, Jane Fonda, Warren Beartty, Joan Didion, Dennis Hopper, Ring Lardner Jr, para citar apenas oito dos entrevistados.

Como nos dramas gregos, nas tragédias de Shakespeare, na ficção chandleriana e nos tabloides, pais e filhos se antagonizam, amigos se atraiçoam, herdeiros se matam. Mistério, sangue e suicídio é o que não falta.  Ned, filho do magnata do petróleo Edward L. Donehy, morre (e mata o amante) em condições mais que suspeitas. Bob Simon, enteado da atriz Jennifer Jones, mete uma bala na cabeça e o sangue escorre pelas frestas do chão, caindo na cama onde sua mulher dorme; Mary Jennifer, filha bipolar da atriz com o magnata do ketchup (logo ketchup!) Norton Simon, pai do supracitado Bob, despenca do 22.º andar de um prédio; a própria atriz tentara se afogar nas marolas de Malibu, nove anos antes. 

Por mais escroque que Doheny tenha sido (para ampliar seus domínios no México subornou autoridades e complotou contra o presidente Venustiano Carranza, assassinado por querer nacionalizar o setor petrolífero do país), quem sai mais tosqueado do livro é o tycoon de Hollywood Jack Warner. Vaidoso, vulgar, grosseiro, invejoso, ao mesmo tempo complexado e metido a besta, era uma caricatura de novo-rico, cujo poder feudal se estendia de sua mansão em Beverly Hills ao estúdio que empalmou depois de passar a perna nos três irmãos. Nenhum mandachuva comportou-se tão covardemente quanto ele durante a Caça às Bruxas.

Jack, “um zero à esquerda em relações humanas”, na abalizada opinião de Jack Warner Jr., levava uma vida pateticamente nababesca. Suas preciosas “antiguidades”, contudo, eram fabricadas pelos carpiteiros e artesãos da Warner, onde dispunha, em seu escritório, de uma mesa de jantar para 20 comensais e um chef francês de plantão. 

Agarrada desesperadamente à fama e à beleza, Jennifer Jones não deixa melhor impressão. Mimada pelo pai, por um Oscar precoce (aos 25 anos, por A Canção de Bernadete) e pelos maridos (todos bilionários, à exceção do primeiro, o ator Robert Walker, destruído pelo álcool aos 32 anos), era uma canastrona vistosa que teve a sorte de cair nas graças do produtor David Selznick. Egocêntrica e narcisista, nem antes de dormir tirava a maquiagem – para causar boa impressão caso fosse hospitalizada no meio da noite. 

No fim da semana passada,  soube,  pelo site Daily News que Jean Stein, repetindo o gesto de Mary Jennifer, acabara de se jogar de um arranha-céu de Manhattan. Um resenhista de A Oeste do Éden encerrou seu comentário com esta, na época, oportuna observação: “Stein é a única pessoa ainda de pé para contar todas essas histórias”. Daquelas histórias não há mais sobreviventes. Ainda bem que Stein teve tempo de recontá-las.

A Oeste do Éden

Autora: Jean Stein

Tradução: Denise Bottmann

Editora: Companhia das Letras

376 páginas

R$ 64,90

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