Isso o ano todo

Isso o ano todo

Luisa Geisler, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: Em 2014, as ruas do País foram tomadas por manifestações contra os gastos da Copa do Mundo. O ano terminou com uma possível faísca para novos protestos em 2015: o reajuste das tarifas de ônibus, metrô e trens em São Paulo, anunciado pela Prefeitura e pelo governo do Estado.

O que é dessa vez? É a Copa? Mas já não aprenderam? Sabe que as pessoas só protestam na calçada nos Estados Unidos? Pra não atrapalhar. É civilizado, sabe? Aqui, por exemplo. Pode ter um pai a caminho do hospital pra visitar o filho. 

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Sua mãe tem você no colo e fala para acenar para a câmera. Você quer ir embora. Toda em amarelo, ela sorri. Uma pessoa do lado dela veste amarelo. Você quer muito ir embora porque gritam. Um menino da sua idade passa com uma bandeira listrada em amarelo e vermelho nas costas. Muita gente carrega aquela imagem. Naquele momento parece a capa do Capitão América de cores erradas. Teve um filme do Capitão América. Você aprenderá um dia que é a bandeira da Catalunha. Você quer ir embora, porque o Capitão América só vem quando um acidente vai acontecer. 

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É coisa de quem não tem emprego, eu acho. Ninguém protesta fora do horário comercial, só querem ficar na cerveja e na mania de minoria. Que vão fazer um abaixo-assinado, sei lá. Vão lotar a internet. Brasileiro é assim. Não dá pra querer ser levado a sério assim. Tudo tão disperso. Ah, o 3G tá protestando também? Olha no teu celular se o viaduto perto da tua casa tá melhor. 

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Talvez seja difícil imaginar o maior shopping dos Estados Unidos. Mais ainda, talvez seja difícil imaginar 260 mil metros quadrados com 1.500 protestantes. Talvez seja mais difícil imaginar porque era o final de semana antes do Natal, conhecidamente o mais cheio do ano. Talvez até fosse mais fácil exibir uma frase no telão e prender 25 pessoas. Talvez não estivesse acontecendo se um policial não tivesse atirado em um adolescente por ser suspeito. Talvez ele não fosse suspeito se não fosse negro. Talvez tudo isso fosse desnecessário se as pessoas conseguissem respirar.

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E isso é só aqui, viu? As filhas da Solange voltaram do intercâmbio faz pouco. Nenhuma reclamação, uma paz. Oi? Design. É, na França. Não, não, imagina. Elas foram com o Ciência Sem Fronteiras.

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Ao fundo da repórter, uma espécie de cartaz pega fogo, o fedor de gás lacrimogêneo ainda enche o ar. Ela revisa o roteiro, o nome da rua, o horário de chegada dos policiais que dispersaram os manifestantes, a pronúncia do nome do presidente. Nicolás, não Nicolas. Para em frente à câmera e sorri. O câmera ia começar a gravar quando ela ouve um grito em espanhol e dois tiros.

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Esse pessoal aí só quer saber de bolsa esmola, sabe? Vi no Facebook uma foto de gente chorando na frente de um banco porque tinha um boato de que iam terminar o bolsa esmola. Um povo se agarrando nas grades. Oi? Agora? Mas não aparece? Só no Brasil a 3G é mais lenta que o trânsito.

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Juan Pablo disse que estaria em casa às 8. No máximo às 8. Eram só 19h50. Se precisasse, Teresa sabia que o padrasto iria atrás. O filho do vizinho também tinha ido. Ele e o vizinho iriam. Essas crianças inventam cada uma. Vai ficar tudo bem. Teresa sabe que Guadalupe protege. 

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Pega a Ásia. Tanta gente com trabalho escravo, não-sei-o-quê. Tem protesto? Não. Porque tem que trabalhar. A Ásia é outro país civilizado. Deviam deixar isso de lado. Vai pegar mal para a nação. Agora tem que apoiar a seleção. Só no Brasil é essa baderna.

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Tinha que sacar dinheiro para carregar o cartão antes de fechar o horário comercial. Mas os vidros da vitrine do banco ocupavam toda a calçada (será que roubaram as máquinas ou o banco levou, por segurança?).

Atravessei para o outro lado da rua e encarei alguns funcionários (já não tinham arrumado isso?). Um homem (de terno preto demais para o calor da tarde) parou do meu lado.

Sabe que esse banco teve lucro recorde no primeiro semestre? (ele disse). Dez bilhões (quem sabe o lucro assim?). Um quarto disso é só o juro do cartão de crédito (quem sabe isso de cor?). E patrocina violência, abuso. Patrocina qualquer candidato com chance de ganhar. Manda mais que muito político. Me diz se não dá nem um pouco de vontade de quebrar mais esse vidro.

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Oi? Tá melhor por lá? A gente pega a entrada ali então. Não, não, a gente vai rapidinho pelo acostamento.

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Observações sobre gás lacrimogêneo: suponha-se mexer em comida apimentada e coçar os olhos; a sensação de ficar ao sol por três horas seguidas e, na quarta hora, sentir a pele ressecar; o nariz, os olhos, a boca, a pele. Ranho. O ranho que tem que assoar e não sabe como. E aquele líquido tem que sair e ar tem que entrar. O ar que queima enche o pulmão até a última ramificação. E aquele ar tem que sair. Mas o mesmo ar entra. Os olhos e a pimenta. Os olhos fecham. Dentro de um bando, como enxergar para onde ir? A náusea. Porque aquele cheiro-gosto desce ardendo e atinge um estômago. Com sorte, fechou-se a boca. Com sorte, não se tem um lábio rachado, feridas. O gás adere. E fede e dá náusea e coçar os olhos é puro arrependimento. Um formigamento fica. Fede-se a protesto por dias. O sabonete também gruda nessa camada. Isso se junta e se repete. Rápido. John Yok-sing me avisou. Por isso o guarda-chuva, as máscaras e os óculos.

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É que não dá pra deixar assim. Brasil é assim. Vai ser isso o ano todo.

ESCRITORA DE CANOAS (RS), PARTICIPOU DA COLETÂNEA JOVENS ESCRITORES BRASILEIROS DA GRANTA. AUTORA DE LUZES DE EMERGÊNCIA SE ACENDERÃO AUTOMATICAMENTE (ALFAGUARA)

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