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Já vai tarde

O camaleão se aposentou dos palcos. Que bom. Ele não merece ser mais um engambelador de tiozões na gerontocracia do rock

André Forastieri, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2015 | 16h00

David Bowie nunca mais excursionará. Ótimo. O rock já é uma gerontocracia. Podemos tranquilamente dispensar outro brontossauro engambelando tiozinhos e sobrinhos em arapucas corporativas, parques temáticos para rebeldes de araque. Choram os fãs? Os admiradores batem palmas e torcem para que Bowie nunca mais pise em um palco.

A informação vem de boa fonte. John Giddings diz que Bowie disse a ele pessoalmente: “Me aposentei, não vou mais excursionar”. Giddings foi o promotor de todas as excursões britânicas de Bowie desde a turnê Glass Spider, em 1987. Na época, Bowie explicava que fazia rock para pessoas de sua geração, porque a garotada queria música eletrônica, e não rock, e isso era bom. Tinha 40 anos. Sua contribuição já estava feita. Mesmo que ele tenha escrito boas canções e feito bons shows depois. 

Bowie não lança um grande álbum desde 1980, Scary Monsters (And Super Creeps). Entre 1970 e 1980 escreveu e gravou 11 álbuns irrepreensíveis. Ninguém na história do rock fez igual. São clássicos, na mais precisa definição. Não porque fizeram sucesso que nos enternece a memória. Nem porque viraram parte da paisagem. E sim porque resistem a novas audições e interpretações e porque mudaram o que veio depois. Comprove ouvindo hoje Station to Station ou Low, para ficar em dois dos menos festejados.

Não que sua música diga tudo. Bowie sempre foi mais que música. Suas roupas, atitudes, afetações, colaboradores e entrevistas sempre contaram tanto - frequentemente mais - quanto suas canções. É tudo indissociável, é tudo parte da obra. Nunca foi o melhor melodista, letrista, instrumentista ou cantor. Mas ninguém foi tão popstar e tão rockstar ao mesmo tempo. Tão rudimentar e ambicioso e apelativo e transgressor. Trocava de persona como de fantasia. É tudo o que todo mundo depois dele quis ser. E frequentemente foi: de Madonna e Michael Jackson a Lady Gaga e Lana del Rey e quem você quiser.

Então, por que tanta sede por ver Bowie em um palco novamente? Alguém imagina que vai nos encantar ou surpreender? É impossível ultrapassar o que ele já fez em suas apresentações, em teatralidade e repertório. Como era impossível que The Next Day tivesse a densidade de informação, sensibilidade e argúcia de seus grandes álbuns. O disco mais recente de Bowie saiu em 2013, dez anos depois do anterior. O aplauso da crítica foi acrítico. 

Uma segunda audição, dois anos depois, confirma a primeira impressão. Não fez história e não faz feio. Mas ninguém precisa ouvir essas canções ao vivo. Bowie, sejamos sinceros, vai tarde. E Bowie, nascido em 1947, faria muito feio em um palco em 2015. Não é um palhaço como Keith Richards ou Ozzy Osbourne. Roqueiros não melhoram com o tempo, e mais: são prisioneiros do seu tempo. 

A recepção de The Next Day se deve ao silêncio de Bowie no século 21. Ele teve um ataque do coração em 2004 - é isso que dá fumar. Nada como uma angioplastia para forçar a revisão das suas prioridades. Se recolheu. Parou de gravar, tocar e se comunicar com o mundo exterior. Foi curtir a filhinha Alexandria, hoje adolescente, que esconde dos paparazzi. Tem também um filho adulto, diretor de cinema talentoso, Duncan Jones. Uma mulher linda e companheira, Iman. Vive entre Nova York e Londres. Nunca mais fará um show. Não precisa trabalhar, ponto. É muito rico. 

Nesta era em que todos falam sem parar, e um quer falar mais alto que o outro, e todos gritam aos ventos suas mínimas e míseras conquistas, David Bowie calar parece incompreensível. Nos provoca e ofende. Que conforto, então, que Bowie tenha lançado disco e feito vídeos para promover The Next Day. Mas que desperdício que o faça sem espalhafato! Cadê a tour mundial? O show no Rock in Rio? O dueto com Beyoncé, Jamie XX, Emicida? Nada feito. Bowie não precisa arrastar a carcaça pelos palcos do mundo para pagar as contas. Que bom. 

A mostra de suas roupas e badulaques, que passou por São Paulo, já foi show suficiente. E suas tours legendárias estão aí na internet para quem quiser se deslumbrar, pela primeira vez, para sempre, e cada um pode escolher a sua favorita. Serious Moonlight, a mais solar, já viu? 

O fato de ter se aposentado das turnês não quer dizer que nunca mais subirá em um palco. Mas eu dispenso. É mais precioso seu isolamento: antídoto poderoso à glossolalia que nos embevece e bestifica. Bowie fez mais que a maioria de nós e se despede com elegância, à francesa. Merece a aposentadoria de luxo. Merecemos seu silêncio.

ANDRÉ FORASTIERI É JORNALISTA E DIRETOR DE NOVOS NEGÓCIOS DO R7.COM

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