Jocy de Oliveira
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Jocy de Oliveira compõe ópera sobre naufrágio civil da 2.ª Guerra

Compositora pede meio musical mais justo, afirmando que apenas 1% das obras executadas nas orquestras são de homens

João Luiz Sampaio  , O Estado de S. Paulo

27 Maio 2017 | 16h00

No dia 12 de dezembro de 1941, um barco deixou o porto de Constanta, na Romênia, em direção à Palestina, levando a bordo 769 refugiados judeus, número que superava em muito a capacidade da embarcação. Três dias depois, o Struma chegou a Istambul, mas foi impedido de atracar. Ficou à deriva por meses, até que um submarino soviético o destruiu. Houve apenas um sobrevivente.

“Este foi o maior naufrágio de passageiros civis durante a 2.ª Guerra”, conta a compositora Jocy de Oliveira. “E não me parece difícil estabelecer entre essa história terrível e os nossos dias um paralelo, com refugiados sendo deixados à deriva, centenas de pessoas, homens, mulheres, crianças, morrendo em mar aberto. A viagem do Struma foi uma viagem sem retorno. Viagens que seguem acontecendo hoje.”

O episódio serve de base para a nova ópera de Jocy, Liquid Voices, que reafirma um dos aspectos mais marcantes de sua produção para o palco: o desejo de discutir questões de nosso tempo no espaço abstrato da relação entre texto e música (e do sentido teatral que dela emana). “Eu nunca determinei um rumo que deveria seguir como autora. Minha mãe dizia que escrevia porque baixava o santo. Eu sempre escrevi aquilo que sentia, valorizando o trabalho artesanal da criação.”

E Liquid Voices, em certo sentido, ainda que sem resquícios autobiográficos, trata da própria afirmação de Jocy como compositora. Ela iniciou sua trajetória ao piano – e como intérprete trabalhou ao lado de nomes como Olivier Messiaen, Igor Stravinski, John Cage e Luciano Berio. A partir dos anos 1960, no entanto, optou gradativamente por um novo caminho, o da criação. Encerrou o que chama de seu “destino ao piano”, com Noturno de um Piano, videoinstalação em que o instrumento é jogado no mar.

“Mas esse destino ficou latente de alguma forma, não foi enterrado. O piano não afundou totalmente, mas precisava afundar”, ela brinca, explicando a ponte com a história de Liquid Voices. “A ópera se passa em 1942, no momento específico do naufrágio, mas a história também se dá vinte anos mais tarde, quando um pescador se depara com o piano do navio, que volta à superfície e traz com ele o espectro de uma cantora lírica, Mathilda Segalescu, passageira ficcional do Struma, cujo nome eu construí a partir da lista de passageiros reais do navio.”

Segalescu é a nova integrante de uma galeria de personagens femininas que povoam a criação de Jocy. Em Solo, ela colocou no palco Ofélia, Desdêmona e Medeia, esta última também protagonista de Kseni – A Estrangeira, que falava da discriminação com relação às mulheres. Inori - À Prostituta Sagrada e As Malibrans, cada uma a seu modo, também tratavam da percepção de nossa sociedade a respeito da figura feminina. “Jocy, de alguma forma, foi uma feminista antes mesmo do movimento. Se a gente olha para a atividade dela nos anos 1960, por exemplo, já se manifesta a busca de uma liberdade interna na criação que, com o tempo, vai se voltar a grandes personagens mitológicas que permitam um olhar sobre a condição feminina”, afirma Rodrigo Cicchelli, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Cicchelli está organizando, ao lado do musicólogo Manuel Correa do Lago, um livro sobre a obra de Jocy, com previsão de lançamento pela editora do Sesi no segundo semestre. As temáticas, as partituras, as questões filosóficas, o trabalho como intérprete: cada faceta da trajetória da artista é tratada, ao lado de depoimentos de colegas como Fernanda Montenegro, que atuou, em 1961, em Apague Meu Spotlight. “O que eu ganhei como artista nesse acontecimento musical histórico foi a coragem do experimento, de ousar o contemporâneo, ouvir obstinadamente, sempre, o instinto desafiador e lutar por sua utopia”, diz a atriz.

Jocy diz esperar que o livro se torne ponto de partida para outras pesquisas desse tipo, sobre outros autores. Sua relação com a academia, ela lembra, nunca foi das melhores. “A academia no Brasil é masculina. E essa é, em geral, a realidade do nosso meio musical também. Li outro dia uma pesquisa que mostra que apenas 1% das obras executadas pelas principais orquestras europeias é de compositoras. No Brasil, a porcentagem deve ser ainda menor. Eu me questiono muito a respeito do motivo pelo qual certas profissões são tão estigmatizadas. Na literatura, nas artes plásticas, as mulheres são aceitas como criadoras. Na música, não. Acho que isso tem a ver com o fato de que, por mais que as mulheres criem, elas precisam dos intérpretes. E o mundo das orquestras e dos teatros é essencialmente masculino”, afirma.

Talvez por isso, a questão feminina tenha alcançado tamanha importância em sua criação. “Isso vem de muito cedo. Mas a minha ligação com o feminismo sempre foi antagônica. Eu nunca concordei com a ideia de que mulheres são iguais aos homens. Não somos, somos diferentes e precisamos ser valorizadas como tal”, afirma. “Mas a verdade é que cheguei a um ponto, com mais de 80 anos, em que me dou conta de que nenhuma das minhas nove óperas jamais foi produzida por um teatro, sempre eu precisei lutar de forma independente para que isso acontecesse. Perceber que essa questão, em 2017, ainda é fundamental e precisa ser discutida me leva a crer que pouco ou nada de fato mudou. E isso me parece incrível.”

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