TOSHIFUMI KITAMURA | AFP
TOSHIFUMI KITAMURA | AFP

Jogos da inimizade: o lado bélico e perigoso da Olimpíada

Cartazes de “Fora, Temer” ou o gesto descortês do judoca egípcio foram apenas aperitivos daquilo que uma Olimpíada pode ter de bélica e perigosa

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2016 | 16h00

O que de pior previam para o Rio 2016— zica, poluição, insegurança, doenças, mobilidade precária, instalações inacabadas ou defeituosas— acabou antecipadamente abafado por outro complicador: a secessão política em que estamos metidos faz tempo. Quem esperava uma trégua olímpica entre os que torceram pela queda da Dilma e os que consideram seu impedimento um golpe parlamentar teve seu primeiro desencanto já na cerimônia de abertura, quando o presidente interino foi estrepitosamente vaiado pelos circunstantes e os primeiros cartazes com os dizeres “Fora, Temer!” pipocaram no Maracanã.

O embaraço presidencial só não viralizou mais na internet que a imediata repressão aos protestos por agentes de segurança do governo. Em todas as arenas, mesmo sem a presença do hostilizado, torcedores com cartazes ou camisetas enxotando Temer do poder foram forçados a deixar o local onde estavam, sem outra saída se não inventar artimanhas para burlar a vigilância policial e continuar manifestando sua insatisfação.

Na raiz da encrenca, a questão da liberdade de expressão, a prepotência do Comitê Olímpico Internacional e uma interpretação no mínimo discutível da lei 13.284, sancionada por Dilma, proibindo cartazes e mensagens de caráter racista ou xenófobo em espaços públicos. Como Temer é branco e brasileiro, hostilizá-lo em silêncio é direito legítimo de qualquer cidadão brasileiro, assegurado pela Constituição, e cercear esse direito, um procedimento autoritário na avaliação de eminências jurídicas, entre as quais o ex-presidente do STF Ayres de Britto.

Só na cabeça sonhadora do seu reinventor na era moderna, o barão Pierre de Coubertin, a Olimpíada teria o condão de incentivar a harmonia entre homens e nações. Tréguas, nem os Jogos da antiga Grécia conseguiram impor; muito menos aqueles, assombrados por cidades-Estado em guerra permanente e inimigos furiosos, dispostos a invadir arenas e encharcá-las com o sangue de atletas e espectadores, como várias vezes ocorreu.

Além da insegurança e da roubalheira nas apostas e disputas, poluição e doenças eram pragas inevitáveis em Olympia, a primeira e permanente sede dos Jogos, até sua forçada extinção, em 393 d.C. Não havia em Olympia água corrente; as latrinas a céu aberto, trincheiras de urina e fezes, atraíam enxames de moscas transmissoras de moléstias gastrointestinais; os espartanos, por longo tempo banidos da competição por sua infrene selvageria, tinham por princípio não tomar banho— imaginem o fedor no auge do verão mediterrâneo. Noves fora a dopagem— se nessa categoria podemos enquadrar os rituais de magia negra a que boa parte dos atletas se entregava com fé e gosto.

Melhoramos à beça. E não apenas em relação aos infectos, sanguinolentos e corruptos jogos olímpicos gregos, mas também aos da era Coubertin (de 1896 em diante) incomparavelmente menos incivilizadas e truculentas, mas não de todo impermeáveis às fraquezas humanas, às diferenças políticas e a disputas territoriais.

A sétima olimpíada, programada para Berlim em 1916, não se realizou por causa do primeiro grande conflito armado do século passado, a Primeira Guerra Mundial. Vinte anos mais tarde, de volta à capital alemã, um novo choque de realidade surpreendeu o barão: o ideal olímpico de Hitler não era bem competir, sequer apenas vencer, mas provar a superioridade da raça ariana, bazófia frustrada pelo negro americano Jesse Owens, ganhador de quatro medalhas de ouro naquela competição, da qual, aliás, só um judeu, a esgrimista Helene Meyer, teve permissão de participar com as cores germânicas.

Dali em diante, raramente a paz reinou nos jogos. E os recordes de atritos foram sendo batidos. A dissidente Marie Provaznikova, líder da equipe feminina de ginástica da Checoslováquia, aproveitou os Jogos de Londres, de 1948, para “fugir para o mundo livre”, como então se dizia. Foi a primeira de uma série de defecções olímpicas.

Metade da delegação húngara não voltou ao seu país de origem depois dos Jogos de Melbourne, em 1956, boicotados pela Holanda, Espanha e Suíça por causa da invasão da Hungria por 200.000 tropas da União Soviética. Egito, Líbano, Cambódia e Iraque também fizeram forfait, mas por outro motivo: a crise no Canal de Suez.

Os americanos não prestigiaram os Jogos de 1980, em Moscou, em represália à invasão da Afeganistão pela União Soviética. A China cortou um dobrado para que a chama olímpica chegasse inteira e acesa aos Jogos de Pequim, oito anos atrás. Nos Jogos do México, em 1968, abertos sob o impacto de um massacre de estudantes por soldados do governo, dois velocistas negros americanos quebraram o protocolo, subindo ao pódio com os punhos fechados, a tradicional saudação do movimento radical Black Power. Na olimpíada seguinte, em Munique, onze atletas israelenses foram mortos pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro.

Quando o pior de uma olimpíada é um gesto descortês, como a recusa do judoca egípcio a cumprimentar seu adversário (e algoz) israelense, como aconteceu na última sexta-feira, temos de dar graças a Zeus.

A rotatividade das sedes dos Jogos foi uma ideia engenhosa do barão visando disseminar o “ideal olímpico”, diluir diferenças e expandir o acesso a distintas culturas. Por mais que pensasse globalmente, Coubertin não tinha como prever a TV por satélite e a internet, que tornaram de certo modo irrelevante a necessidade de uma nova sede a cada quatro anos, com os transtornos por demais conhecidos.

Montar do zero um evento da magnitude de uma olimpíada pode levar uma cidade à bancarrota. Montreal, que hospedou os Jogos de 1976, levou 30 anos para zerar o prejuízo e até hoje não sabe o que fazer com um estádio de beisebol. Outras sedes, de países economicamente menos robustos que o Canadá, perderam a esperança de sair do vermelho. Os Jogos de 2004 ajudaram a empurrar a Grécia ladeira abaixo.

Por essas e outras, alguns membros do COI, descartando todas as duvidosas promessas vinculadas ao “legado olímpico”, defendem o estabelecimento de uma sede permanente para os Jogos, suficientemente neutra, sem conflitos internos nem problemas de caixa, com infraestrutura impecável e clima favorável. Nesse perfil só um país se encaixa com folga: a Suíça, capacitada para hospedar os Jogos de verão e inverno, possivelmente em St. Moritz, sede de duas olimpíadas de inverno.

Se já fossem nos Alpes os Jogos de 2016 o máximo que veríamos nas arenas seriam cartazes e camisetas exigindo o fim das contas numeradas e da lavagem de dinheiro sujo pelos bancos locais, nada de “Fora, Temer!”. Quem sabe, um fortuito “Queremos a grana do Cunha de volta”, o que equivaleria a uma medalha de prata.

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