Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Jornalista Juca Kfouri repassa a vida em autobiografia

'Confesso que Perdi' mescla militância política à cobertura esportiva em seus 67 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 16h00

O poeta chileno Pablo Neruda prestou contas com seu passado na famosa autobiografia Confesso que Vivi, título que inspirou o grande cartunista Jaguar a fazer um trocadilho ao nomear seu inventário sobre os botecos cariocas no livro Confesso que Bebi. Seguindo pela mesma trilha, o jornalista Juca Kfouri lança agora suas memórias sob um título que pede atenta observação: Confesso que Perdi. Afinal, como pode se sentir derrotado um profissional que se tornou referência na cobertura do esporte brasileiro, tanto cobrindo glórias como a conquista da Copa do Mundo de 1994 como denunciando mazelas como a Máfia da Loteria Esportiva, destaque dos anos 1980?

“A perda se justifica pela incapacidade da minha geração de não ter conseguido modificar a forma como é gerido o esporte nacional. A desgraça de cartolas como (José Maria) Marin e (Carlos Arthur) Nuzman não me deixa alegre”, justifica ele que, ao longo de mais de 40 anos de carreira, foi processado “mais de 50 vezes”, principalmente por um de seus alvos principais, Ricardo Teixeira, que presidiu a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF (chamada por Juca de “Casa Bandida do Futebol”), entre 1989 e 2012. 

Mas Confesso que Perdi transcende a tristeza e o amargor. Aos 67 anos, Kfouri construiu uma vida (e uma carreira) marcada pela obstinação – aliás, ainda constrói. O livro alterna passagens vividas no esporte com momentos de intensa política. E, muitas vezes, é constante o cruzamento dessas duas linhas.

Juca revela, por exemplo, que, quando jovem, envolveu-se com os grupos armados que lutavam contra a ditadura militar – fez serviços de apoio para a Ação Libertadora Nacional (ALN) e chegou a ser preso pelo Dops, o famigerado Departamento de Ordem Política e Social, mas não foi torturado. O embasamento teórico foi conquistado pelo curso de Ciências Sociais, que frequentou na USP, nos anos 1960.

Foi no final desta década que começou a trabalhar no Departamento de Documentação (Dedoc) da Editora Abril para auxiliar principalmente um produto novo, a revista Placar, lançada em 1970, justamente no ano da conquista do tricampeonato na Copa do México. Com um texto apurado e beirando o literário, a revista colocava o jornalismo esportivo nacional em outro patamar, mas nem tal qualidade garantia sua sobrevivência – a vendagem irregular semeava constantes ameaças de fechamento.

Em um desses momentos de perigo, aliás, Juca foi alçado a diretor de Placar, em 1979, mesmo sem nunca ter escrito uma matéria. Sua perspicácia e senso aglutinador eram vitais para a manutenção da importância da revista, o que ele honrou logo em seguida em três momentos cruciais da publicação – e do esporte brasileiro. Fatos que, de uma certa forma, acabam justificando o melancólico título de sua biografia.

Primeiro, um furo espetacular: em 1979, o diretor da revista, Milton Coelho da Graça, jogador inveterado da Loteria Esportiva, percebeu algumas coincidências nos resultados das partidas, o que sugeriria manipulação. Após uma demorada apuração, comandada pelo repórter Sérgio Martins, Placar chegou às bancas no dia 22 de outubro de 1982 com uma capa inteiramente tingida de negro, apenas com os dizeres, em amarelo: “Desvendamos a máfia da Loteria Esportiva”.

Foi denunciada a participação de 125 pessoas, entre jogadores e técnicos, mas, mesmo com provas, a acusação não surtiu efeito esperado. “Durante uma semana, apanhamos mais que Judas Escariotes”, conta Juca, referindo-se ao descaso de toda a imprensa – com exceção da equipe do Jornal da Tarde, o assunto era descredenciado pela maioria dos jornalistas. “Placar, cuja edição vendera mais de 300 mil exemplares, era acusada de trair o futebol brasileiro e a Caixa Econômica atestava a credibilidade da loteria que bancava.” O assunto se arrastou por anos e, mesmo com uma tentativa de se punir os culpados, durante o governo de José Sarney, em 1985, o então chefe do departamento de loterias, Aécio Neves, nada fez.

Outro fato marcante dos anos 1980 foi o engajamento de Placar na divulgação de um inovador modelo de gestão esportiva, a chamada Democracia Corinthiana. Em um momento de rara convergência de talentos, tanto dentro do campo com Sócrates e Casagrande, como no comando do clube, com o diretor de futebol Adilson Monteiro Alves, o Corinthians surpreendeu com atitudes inovadoras em um meio tão conservador como o futebol.

“Votava-se no Corinthians não só para escolher o técnico ou o goleiro a ser contratado, como também para decidir se o ônibus que trazia o time dos jogos no interior de São Paulo deveria parar para o jantar num restaurante à beira da estrada ou seguir direto para o clube, onde cada um pegaria seu automóvel e iria para casa”, relata Juca. Mesmo reforçada pela conquista de dois títulos paulistas (1982 e 1983), a ordem democrática não encantou outros times, tampouco tirou a imprensa esportiva de sua letargia. Resultado: no mesmo ano em que o Congresso Nacional não aprovou as eleições diretas para presidente da República, o Corinthians voltava a ser comandado por forças conservadoras. “Qual Quixote, seguíamos derrotados sonhando sonhos impossíveis”, escreve Juca.

Finalmente, o terceiro momento de frustração foi a desclassificação da seleção brasileira na Copa da Espanha, em 1982. Apontada como a mais talentosa equipe nacional desde aquela que conquistou o Tri em 1970, a seleção de Sócrates, Zico, Falcão e Júnior podia até empatar com a Itália que estaria nas semifinais, mas perdeu por 3 x 2 na que ficou conhecida como Tragédia de Sarriá, referência ao nome do estádio, em Barcelona, onde aconteceu a partida. “Que pena, Brasil!” dizia a manchete de Placar, sobre uma foto rasgada dos jogadores decepcionados. “Cada um descreve a derrota a seu modo, cada um a digeriu como pôde, quem esteve lá e gosta de futebol chora o revés até hoje”, confessa Juca, outra de suas perdas.

Confesso que Perdi

Autor: Juca Kfouri

Editora: Companhia das Letras

248 páginas

R$ 39,90

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