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Joseph Conrad, o primeiro romancista da globalização

Autor cresceu falando polonês e francês, tendo aprendido inglês só aos 21 anos. Mesmo assim, tornou-se um dos melhores escritores do idioma

The Economist, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2017 | 16h00

Joseph Conrad era um fenômeno. Filho de poloneses, nascido em 1857 numa região do império russo que hoje faz parte da Ucrânia, foi batizado como Jozef Teodor Konrad Korzeniowski. O francês era sua segunda língua e até os 21 anos ele jamais havia estado na Inglaterra (nem falava um pingo de inglês). Não obstante isso, adquiriu tal domínio do idioma que viria a ser considerado um dos maiores escritores da língua inglesa.

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Em 1948, o célebre crítico literário da Universidade de Cambridge, F. R. Leavis, incluiu Conrad em A Grande Tradição, colocando-o em pé de igualdade com Jane Austen, George Eliot e Henry James. Oito anos mais tarde, o também crítico Walter Allen disse que Nostromo era “o maior romance em língua inglesa escrito neste século”. Em 1979, Coração das Trevas conquistou público novo com a adaptação para o cinema de Francis Ford Coppola,Apocalipse Now.

A questão é que as frases um tanto tortuosas e não exatamente econômicas de Conrad muitas vezes são uma barreira para os leitores de hoje. O que é uma pena. Muitos de seus romances e contos recompensam ricamente a persistência. Como a professora da Universidade Harvard, Maya Jasanoff, argumenta no recém-publicado The Dawn Watch: Joseph Conrad in a Global World, Conrad, escrevendo na virada do século 20, abordou muitas das forças e ameaças globais que afligem o mundo de hoje.

O romancista ficou órfão aos 11 anos, depois de seus pais terem sucumbido à tuberculose contraída por ambos na Sibéria, para onde haviam sido mandados por envolvimento com atividades revolucionárias. Aos 16, Conrad se fez ao mar. Durante quase 20 anos, trabalhou como marujo em Marselha, onde, endividado e desesperado, parece ter tentado o suicídio. Posteriormente, tornou-se capitão da marinha mercante britânica e navegou pelo mundo inteiro, em particular pelos arquipélagos e penínsulas do Sudeste Asiático, onde se passam muitas de suas histórias. Conrad, diz Jasanoff, “pertenceu à última geração de homens do mar que navegaram predominantemente em embarcações a vela”, merecendo do escritor o epíteto de “a aristocracia”. Em sua ficção, ele “transforma o navio a vela britânico em padrão-ouro da conduta moral”.

A caminho da Austrália como imediato do Torrens, Conrad fez amizade com John Galsworthy, jovem advogado que anos depois escreveria A Saga dos Forsyte, obra que lhe renderia o Nobel de literatura. Então, em 1894, sem perspectiva de navio para comandar, o marujo literato abandonou o mar e publicou seu primeiro romance, A Loucura do Almayer. A trajetória que fez do polonês, marinheiro, e deste, escritor estava completa. Dois anos mais tarde, após breve e encabulado namoro, Conrad se casou com Jessie George — uma moça simples, apática e sem graça —, fixou residência em Kent, no sudeste da Inglaterra, teve dois filhos e passou o resto da vida escrevendo.

Em The Dawn Watch, Jasanoff narra as viagens que ela própria fez à procura de Conrad: quatro semanas navegando pelo oceano Índico a bordo de um cargueiro francês e uma complicada visita à República Democrática do Congo. O livro consegue combinar com destreza os detalhes da vida de Conrad e a análise de suas quatro obras mais importantes, associando os desafios e forças que subjazem a cada romance com os que estão em ação no século 21.

Se não tão cosmopolita quanto hoje, a Londres dos anos 1890 abrigava 50 mil europeus continentais — “número superior ao da população de Cracóvia”. (Conrad talvez achasse curioso que, atualmente, no Reino Unido como um todo, os poloneses tenham se tornado o maior contingente de indivíduos nascidos no exterior.) Revolucionários russos e militantes nacionalistas irlandeses servem de inspiração para O Agente Secreto, que se passa numa Londres encardida, dickensiana e urde com ironia uma trama de conspirações e terrorismo, com uma bomba que explode na hora errada, matando um sujeito inocente e simplório. Na época, assim como agora, as ameaças de anarquismo e terrorismo alimentavam sentimentos anti-imigrantes. Como diz Jasanoff: “Quando a pessoa tem medo de que um estrangeiro roube o seu emprego, ela protesta. Quando acha que pode ser morta por um estrangeiro, entra em pânico”.

Se a narrativa de O Agente Secreto é simples e fluente, Lorde Jim, publicado sete anos antes, é um romance bem mais exótico e exigente. O capitão Charles Marlow, narrador que reaparece em outras obras de Conrad, conta como um jovem inglês “de forte compleição” abandona o navio do qual era imediato, quando, num momento de confusão, a embarcação parece prestes a ir a pique. A bordo fica um grupo de peregrinos que estava sendo levado para o mar Vermelho. Sentindo-se profundamente culpado, Jim tenta repetidas vezes recomeçar a vida, mas quando finalmente parece prosperar, um incidente causa sua ruína. Repleta de meandros, a narrativa, segundo Jasanoff, “oferecia uma metáfora ao gosto dos imperialistas”, sobretudo no tocante à correção moral do “tipo certo” de inglês. O livro serviu de inspiração a inúmeros jovens escritores e a opinião geral era a de que se tratava de obra de grande originalidade, ainda que nem todos estivessem convencidos disso. Para E. M. Forster, “do porta-joias do gênio de Conrad sai vapor, não brilho”. Mas Jasanoff sustenta que, “para Conrad, vapor era brilho”.

Coração das Trevas, que foi publicado em 1902, dois anos após Lorde Jim, é fruto do breve e repugnante contato que Conrad teve com a exploração do então Congo Belga pelo homem branco. O escritor ficou horrorizado com o tratamento dado aos africanos e com o comércio de marfim, representados no romance pelo personagem Kurtz, agente comercial que chega prometendo civilização, mas se rende a uma selvageria cruel e, ao morrer, pronuncia as palavras: “O horror! O horror!”.

Preocupações semelhantes reaparecem no mais substancial Nostromo, de 1904, em que pela primeira vez Conrad escreve sobre um lugar imaginário, a república de Costaguana, na América do Sul. Trata-se, porém, de “um romance sobre todos os lugares em que ele havia estado”. Suas páginas refletem todo o ceticismo político do antigo marinheiro, sua nostalgia de uma era pré-tecnológica e o medo que ele sentia de um futuro dominado por “interesses materiais”.

Jasanoff diz que se dispôs a explorar o mundo de Conrad munida “da bússola de uma historiadora, das cartas de navegação de uma biógrafa e da sextante de uma leitora de ficção”, e  demonstra ter feito bom uso desses instrumentos. O romancista Anthony Powell certa feita disse que Conrad era “uma figura enigmática. Quanto mais lemos a seu respeito, menos parecemos conhecê-lo”. A biografia de Jasanoff pode não revelar todo o mistério que há por trás do homem, mas serve como poderoso estímulo à leitura de seus livros. / Tradução de Alexandre Hubner

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