Ulf Andersen/Getty Images
Ulf Andersen/Getty Images

Julian Barnes reflete sobre obra de pintores em livro de ensaios

Consagrado na literatura, escritor inglês investe sobre as artes visuais seguindo tradição de Baudelaire e Huxley

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 16h00

Gustav Flaubert costumava afirmar que as grandes pinturas são aquelas que dispensam explicações por meio da palavra. É o que recorda o escritor inglês Julian Barnes no livro Mantendo Um Olho Aberto, reunião de ensaios sobre arte lançada em 2015, que chega agora ao Brasil pelo selo Anfiteatro, da editora Rocco. O vencedor do Man Book Prize de 2011 discorda, no entanto, da reflexão do mestre francês. 

Para Barnes, somos criaturas “incorrigivelmente verbais”; se, eventualmente, uma obra provoca o nosso silêncio, trata-se de algo temporário, pois não demoraremos a buscar compreender tal emudecimento. É desse modo que o ficcionista se insere em uma tradição de literatos que se ocupam em dissecar criações do campo das artes visuais. 

A lista impressiona pela abrangência e variedade: Baudelaire fez escola ao escrever suas análises dos salões parisienses e seu O Pintor da Vida Moderna; Émile Zola fez reflexões ainda pertinentes sobre o movimento impressionista; e Aldous Huxley voltou à Renascença italiana para estudar Piero della Francesca. Mais recentemente, o americano Jonathan Littell abordou a obra do moderníssimo Francis Bacon.

Nesta incursão de Barnes, uma observação curiosa se dá durante o relato que faz, na introdução do livro, sobre sua aproximação com o mundo das artes. O autor de romances como O Papagaio de Flaubert (1984) e O Sentido de Um Fim (2011) revela que, na década de 1960, o despertar de sua admiração pelo modernismo foi menos por meio da literatura – seu terreno de produção – do que das artes visuais. “A jornada para escapar do realismo me parecia mais fácil de acompanhar em tinta do que impressa”, conta ele.

Esta compreensão atravessa os 17 ensaios apresentados no livro, a partir da trajetória de artistas pertencentes a quase dois séculos da história da arte; sobretudo, ao período que marca a transição do romantismo e do realismo para a série de movimentos modernistas que revolucionariam a arte europeia. 

Logo no primeiro capítulo, dedicado a Théodore Géricault, Barnes deixa evidente que não abre mão, nos ensaios, de seu olhar de ficcionista; suas reflexões carregam sempre um viés narrativo. Antes de se deter na análise formal de A Balsa e a Medusa, criação mais famosa do artista, o autor relata, ao longo de quase dez páginas, minúcias do naufrágio retratado na pintura – a tragédia real de uma fragata francesa que se dirigia à África Ocidental em 1816.

Felizmente, o leitor é surpreendido, em seguida, não só por uma reflexão refinada sobre a composição (“as figuras na balsa não são como ondas: abaixo delas, mas também por meio delas, surge a energia do oceano”), como também pelo resgate de questões mais amplas da arte. Entre elas, está o triunfo do “olhar ignorante” sobre o “olhar informado”. Para Barnes, ainda que tenhamos conhecimento dos acontecimentos nela envolvidos, uma pintura tende sempre a escapar da “âncora da história”, dissolvendo-a, com o tempo, em forma, cor e emoção.

Quando analisa, após passar por nomes como Delacroix e Courbet, a produção inovadora de Manet – sua peinture claire e sua rejeição a temas tradicionais –, Barnes aborda também um tema que fará o leitor brasileiro se lembrar de episódios recentes no País: a reação agressiva de certos espectadores. O caso de um homem que teria levantado sua bengala contra Música nos Jardins das Tulherias é justificado com ironia pelo autor: “iconoclastas raramente destroem imagens por apatia.”

Outro ponto que ele acaba iluminando junto ao exame estético é como se dá a evolução da produção dos artistas. Após uma brilhante análise sobre o distanciamento físico entre os escritores retratados nas telas de Fantin-Latour, Barnes traz à tona o fracasso do quadro O Brinde!, destruído pelo pintor após acusações de pretensão e egotismo. Braque é outro exemplo apontado de artista que, por ter tido uma carreira muito longa, ficou sujeito a períodos mais fracos. Assim, argumenta o autor, uma trajetória é mais uma questão de processo do que resultado, “viagem mais do que chegada”. 

A força narrativa de Barnes rende passagens com elegantes construções de imagens. Ele nos conta, por exemplo, que Magritte “reagiu à história da arte como um jardineiro paisagístico intimidado, e sobrecarregado, pelas tentativas imponentes de seus predecessores de simular a natureza.” Também proporciona ao leitor saborosos relatos sobre hábitos peculiares dos pintores. Descobrimos, entre outras anedotas, que Degas passou quatro horas penteando o cabelo de uma modelo, e que Cézanne entrou em fúria quando um modelo seu, orientado a “aguentar como uma maçã”, caiu no sono. 

Sim, Barnes recorre com frequência a aspectos biográficos. De artistas menos populares, como Vuillard e Valloton, ficamos sabendo que o primeiro, tímido e discreto, morou a vida toda com a mãe; o outro, chamado por Gertrude Stein de “um Manet para os pobres”, mantinha um casamento burguês com uma mulher que não se interessava por seu trabalho. Porém, assim como ocorre com a contextualização histórica, o escritor não se deixa cair em reducionismos. E faz questão de frisar isso: para ele, se somos inevitavelmente curiosos a respeito da vida privada de um artista, “a arte em si continua a existir independentemente disso, acima de nossas cabeças, sólida e indiferente.”

Certamente, o melhor do livro – que traz ainda nomes mais recentes como Claes Oldenburg e Hodgkin – reside nas análises afiadas das obras. Entretanto, algo não menos instigante a se observar ao longo das páginas é como se opera a crítica de arte de um escritor já consagrado no mundo literário. A destreza de Barnes é notória. Para ele, a arte não apenas transmite o entusiasmo da vida. Ela é esse entusiasmo. E o que o autor parece querer fazer é trazê-lo para ainda mais perto de seus leitores.

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