CRIS FAGA/FOX PRESS PHOTO
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Lento ocaso do magistério

Baby-sitters na escola privada, bedéis sonolentos na pública, para onde se movem os professores?

Julio Groppa Aquino, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2015 | 16h00

A Caça, produção dinamarquesa que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014, é uma daquelas obras que ultrapassam a qualificação de artísticas, uma vez que oferece uma mirada acurada sobre os conflitos intergeracionais cada vez mais agudos, testemunhados no presente, em que vemos a balança pender vertiginosamente para o lado da infância/juventude. Por isso, o filme é também um pequeno tratado sobre as sendas judicializantes em que as sociedades democráticas vêm se embrenhando, a título de garantia dos direitos das ditas minorias; no caso, as crianças. Vale lembrar que o filme não visa a problematizar tais direitos, hoje canônicos, mas dimensionar os contraefeitos que sua defesa in totum têm causado nos modos de convivência concretos entre os mais novos e aqueles a quem foi delegada a tarefa de protegê-los, inclusive de si próprios. 

Algo análogo parece ter ocorrido nos episódios testemunhados no Brasil das últimas semanas, que vão desde a depredação de uma escola em Goiás por alunos do ensino fundamental até a truculência cometida pelo governo do Paraná contra professores grevistas, ambas contornadas pela difusão de slogans em torno de uma quimérica pátria educadora. Tais acontecimentos voltam a pôr em cena o paulatino apagamento do lugar social, antes exclusivo, do trato com a infância e a juventude: o magistério. 

As razões para isso remetem a um paradoxo cortante: no atacado discursivo, ninguém hesitaria em se compadecer - por alguns minutos, ressalve-se - com as agruras enfrentadas pelos profissionais da educação básica; no varejo das práticas, contudo, todos e cada um parecem crer que o que se passa nas salas de aula do País não seria significativo o bastante para promover rupturas existenciais capazes não apenas de instrumentalizar os alunos com habilidades e competências específicas para bem figurarem em avaliações comparativas com outros países, mas de desembrutecer suas vidas germinais e, quem sabe, equipar-lhes de certa disposição para rumar a uma existência outra. Uma existência sempre à nossa espera, embora raramente usufruída. 

A fim de dimensionar a causa docente hoje, é a uma primeira equação, já cantada em verso e prosa, que devemos atentar: o ensinar versus o aprender a aprender. Equação cujos termos conflitantes jamais conheceu harmonização.

Um exemplo disso pode ser encontrado no final do discurso de posse do novo ministro da educação: “Peço não só aos trabalhadores na educação, no MEC e fora dele, aos 2 milhões de professores, mas também aos 50 milhões de alunos, a seus pais e familiares, aos cidadãos em geral que deem o melhor de si pela educação. Eduquem-se cada vez mais, nunca parem de aprender. Eduquem os outros, eduquem a sociedade”.

No apelo do ministro, o termo ensino, sintomaticamente, nem sequer é mobilizado. Trata-se, ao contrário, de se autoeducar, eufemismo para a responsabilização quanto ao próprio aprendizado. Uma operação onipresente e perene, fadada a eternos recomeços. Resta-nos, no entanto, indagar: a quem caberia ensinar, de fato?

Uma possível resposta a tal questão remete-nos a uma segunda equação: a utilidade versus a necessidade social do magistério, hoje. Se, por alguma razão menos inócua do que aquela em voga, considerássemos os professores ainda necessários socialmente, haveríamos de convir que eles não são mais úteis, substituídos que foram por um conjunto de iniciativas cujos efeitos são imediatamente educativos - sem ajuizar, é claro, o valor intrínseco de tal designação. E quem haveria de negar que uma hora de navegação nas tais redes sociais se perfaz muito mais efetivamente do que um mês de sala de aula?

Se, na direção contrária, ainda atribuíssemos alguma utilidade social à ação dos professores, seríamos igualmente forçados a reconhecer que eles não são mais necessários, já que convertidos em um contingente de reserva meramente assistencialista; logo, facilmente intercambiável por qualquer outro tipo de intervenção profissional.

Não se trata aqui de conjecturar o desaparecimento, em curto prazo, do magistério. Seus profissionais continuarão a ocupar o papel a que têm sido relegados: baby-sitters sempre em prontidão, no caso da escola privada; bedéis ora sonolentos, ora esgotados, no da pública. Em ambos os cenários, os professores veem-se confinados à condição de meros gestores das idiossincrasias infantojuvenis, sob o manto da observância do direito universal da opinião e da expressão alheias. Daí o fato desconcertante de a palavra dos mais novos congregar muito mais aderência do que a dos adultos, como A Caça bem o retrata.

No filme, mesmo que refutada a acusação contra o professor, resta uma suspeita indelével sobre ele. A queixa é transmutada em veredicto e, por extensão, em pena. De profissional a réu, o passo é automático. E não há defesa possível.

Alvos recorrentes ora da polícia, ora da justiça, ora do capricho dos usuários, ora ainda do desprezo travestido em piedade da opinião pública, os professores se movem, contudo. Para onde, ninguém saberá dizer. 

JULIO GROPPA AQUINO É PROFESSOR TITULAR DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA USP

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