RAFAEL PACHECO/PREFEITURA DE BOM JESUS PIRAPORA
RAFAEL PACHECO/PREFEITURA DE BOM JESUS PIRAPORA

Leviatã Juíapora

O povo de Pirapora do Bom Jesus faz voto por uma graça do padroeiro da cidade: que ele dê fim ao monstro bíblico em forma de espuma que tomou o Rio Tietê

André de Oliveira, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2015 | 16h00

Nosso Senhor Bom Jesus,

Se lhe fazemos esse pedido é porque muito acreditamos nas graça concedida por vós e também porque já perdemos as esperança de recorrer aos homem graúdo. Acontece que faz pra lá de três decênio que nóis, viventes em Pirapora do Bom Jesus, aqui no São Paulo, estamos num aperreio danado. No mesmo Rio Tietê em que, no ano de 1725, encontraram vossa imagem talhada na madeira - fato que iniciou a formação da nossa cidade -, tem descido, entra ano, sai ano, uma espuma catinguenta que muito desgosto tem causado. Branquinha e nojenta que só, a bicha é resultado da água poluída por detergente doméstico que é despejada de uma barragem há coisa de 1 quilômetro do centro. Tal qual uma hóstia que tomasse fermento, ela cresce, se junta, encobre todo o curso do Tietê, inté que transborda, passando por cima de carro, ponte e o que mais tiver pela frente. É coisa muito feia de se ver e - vosso Pai nos guarde e proteja - parece mesmo um Leviatã, monstrengo que se alevanta das água pra derrotar navegante atrevido, tão cheia de vida própria que ela é.

Quase o ano todo tem, mas no inverno piora por demais. Senhor Bom Jesus, a espuma deixa no ar um cheiro de fazer arder o olho, prostrando os caboclo - em especial os pequenino e os mais de idade - com toda sorte de problema respiratório e enxaqueca. A prefeitura diz não saber precisar quantos baixam no pronto socorro quando ela dá as cara, mas uma reportagem de 1997 já dizia que 68% das criança atendida têm problemas por causa dela. E não é só isso. Onde ela cai, tinge tudo de preto, seja pintura de carro ou de casa e, se porventura, pousa em qualquer pé de horta, preteja na hora. Os técnico da Sabesp e da Cetesb diz que isso do inverno acontece porque em mês que não tem a letra “R” no nome não chove. Se a chuva não cai, o rio acaba por ficar só com um bocadinho de oxigênio - 0,3 mg/l, quando o normal seria registrar de 5 a 7 mg/l. Agora, imagine isso com essa estiagem das comprida que estamos passando? Nessa segunda mesmo, 22 de junho, a Maria Tereza Palazzolli, 65 anos, dona do armarinho e vossa devota há 40 (desde que ganhou uma garotinha), amanheceu com o canto dos galo, botou a cabeça pra fora da janela, viu uma cerração branca pros lado do rio, sentiu um cheiro acre no ar e adivinhou: vem espuma braba por aí. Foi tiro e queda.

Antes de dar metade da manhã, o WhatsApp da dona Maria Tereza não parava de apitar: “A espuma fechou a ponte, olha só a foto”, “Fechem as janelas”, “Tirem as roupas do varal”, “Meus olhos tão ardendo desde de cedinho”, “Já mandei mensagem pra reportagem, daqui a pouco chegam os jornalistas”. Um deles, mais saidinho, arriscou um meme em que aparece duas fotos, uma por de cima da outra: um loirão na neve e uma piraporense ao lado da espuma. Na legenda lê-se “selfie de rico” e “selfie de pobre”. Dona Maria Tereza se divertiu, mas repreendeu o gracejo, porque era muito cedo pra dar risada. Graças a vós, o que a Maria Tereza mais temia não sucedeu. É que quando a espuma acumula é ruim, mas pior mesmo é quando bate uma ventania pra cima dela. A bicha se divide em um monte de floco e sobe que sobe - pra lá de 20 metro -, às vez faz cada redemoinho que parece com as torre da nossa igreja. Depois de subir, os floco se espalham todos, correndo em toda direção, indo pousar coisa de 150 metro pra longe do leito do rio. Um caboclo vindo de fora, desavisado, pode inté achar essa monstrenga interessante, bonita, mas logo vai aperceber pelo cheiro azedo de coisa química que aquilo ali não é natural, não é obra do vosso Pai, mas, sim, de homem poluidor mesmo.

Espia que tudo isso que nóis narremo, contudo, acontece pra área mais central de Pirapora, onde fica o vosso santuário. Por ali, o leito do Tietê é mais profundo e a cidade fica protegida por um muro de casas na beira do rio. Não é fácil, não, mas quando dá de ter muita espuma é cerrar as janela e tentar tocar a vida normalmente. A situação fica das braba mesmo é pro sentido da barragem, pra depois do bairro da Vila Nova, no conjunto São Benedito, fundado há coisa de uns 15 anos, onde os barraco de madeira e as casa de alvenaria fica todas na beirada do Tietê, quase no mesmo nível do rio, apartadas apenas por uma rua de asfalto. Aí, Nosso Senhor Bom Jesus, é floco avoando o tempo todo. Se tá ruim no centro, tá impossível por lá. A espuma corre ligeira por sobre a água, entra nas casa, se agarra nos fio de eletricidade e fica girando no meio da rua como se fosse bolo de feno de velho oeste americano. Aí a criançada aproveita para brincar de driblar os pedaço que vão passando. Pela proximidade com a água, o pessoal parece mesmo uma comunidade ribeirinha, mas sem rio, ou melhor dizendo, com um rio morto, donde quando não desce espuma, desce uma porcalhada que encobre toda a água: aparece de um tudo, de pedaço de carro a defunto.

Por isso é que a dona Imbelina Aranha do Carmo, 53 anos de vida, 30 de Pirapora, diz que a neve (como ela chama a espuma) é uma desgraceira só, mas que o difícil mesmo de ver são as coisa que se tira do rio quando desce essa sujeirada: “O Marquinhos, marido da Vanda, por exemplo, é o maior pescador de presunto do bairro”. E “presunto” aí, Deus nos livre, no sentido de cadáver. Como se não pudesse piorar, os menino novo, de tão acostumado que tão, dão risada ao dizer que de lá o Marquinhos - usando bambu, corda ou mesmo mergulhando no rio - já tirou corpo de mulher novinha, neném de mês e homem sem cabeça. Tudo enterrado como indigente.

Mulher do Marquinhos, a Vanda Rodrigues da Silva, 39 anos, nunca ganhou nada do rio - muito pelo contrário -, mas sonha com ele limpo. Apesar de que, pensando bem, “se ele fosse limpo, aqui ia ser residência de milionário, melhor sujo mesmo”. Mãe de quatro filhos que ela mima com muito cafuné e beijo na cabeça, teve seu primeiro marido, pai das criança, carregado pelo Tietê faz coisa de dois anos. Ela foge do assunto, se dói ao dizer, mas ele trabalhava tirando pedra do fundo do rio pra vender na construção civil e numa madrugada, sem bilhete ou explicação, subiu na ponte da cidade e se jogou. Na queda, quebrou o braço e morreu afogado ali mesmo. É triste e é pecado, vós sabe melhor que ninguém, mas não é o primeiro piraporense que resolve dar cabo da vida de permeio com a água suja e as espuma.

É por tudo isso um pouco e porque, como diz a dona Maria Tereza, “Pirapora segue em frente, ficando cada vez mais longe do passado”, que viemos escrever esse pedido de graça. O Tietê nem sempre foi assim, já nos deu muita das alegria, e tudo o que nóis queria era voltar a se orgulhar dele. Todo o caboclo com pra lá de 60 anos já se banhou no rio e tem boas lembrança da antiga ponte arqueada, donde a meninada saltava pra nadar. Também tinha barco de montão subindo e descendo pelo leito e, na Semana Santa, vossa imagem saía em primeiro lugar numa procissão pelas água. Era a coisa mais linda de se ver: bandeirolas colorida, vela e crucifixo adornando as embarcação.

Tem quem diga, inclusive, que as água do rio, junto com a vossa graça, já fez muito milagre e por isso também nóis persiste no acreditar de vossa generosidade. A Maria Tereza, por exemplo, gosta de contar um causo de um romeiro chamado seu Antônio que volta todo ano para agradecer a vós e ao Tietê. Quando em menino, ele tinha um problema danado de vista e, ao esfregar as água do rio nos olho, curou tudo. Como o Antônio, uns 600 mil romeiro visitam a cidade todo ano e nóis morremo de medo que um dia eles parem de vir, assustados com a espuma. Isso sim seria uma desgraceira, porque nossa cidade de 15 mil habitante vive em função da passagem deles. O bom é que no fim de semana - pelo que os caboclo mais matutos puderam notar e a Empresa Metropolitana de Águas e Energia, mais conhecida por Emae, não confirmou - a barragem diminui a atividade e dá uma acalmada no Leviatã. Aí tem romeiro que nem percebe muito a poluição. É durante a semana que a bicha realmente incomoda nóis.

A bem da verdade, é importante explicar, essa sujeirada toda não é lá bem culpa nossa. Desde o detergente que faz espuma, inté os corpos que descem em frente ao conjunto São Benedito, é tudo trazido lá de São Paulo e outras cidade - Pirapora do Bom Jesus é bem interior, mas dista só 54 km do centro da capital. Tá bom que nóis também não tem todo o esgoto tratado, mas o problema é bem maior e vem se arrastando desde meado dos anos 1970. Em 1993, o Projeto Tietê tomou pra si a responsabilidade de limpar a porcalhada que o homem fez no rio, mas, de lá para cá, a diferença ainda não chegou aqui. A Sabesp informa que já diminuiu a mancha de poluição em 86%, ou 459 km de rio. Caipira é desconfiado, mas nóis não desacredita na informação. O problema é que aqui a coisa ainda tá braba demais. E, além disso, agora, faz coisa de semana, eles acaba de anunciar que vão parar com umas obra de tratamento de esgoto por 120 dias. Ou seja, mais atraso no solucionamento do nosso problema.

E aí o Senhor sabe como é: com uma notícia dessas, nóis perde a esperança nos homem e passa a contar só com a fé. É que o jeito de acabar com os flocos é só deixando o rio limpo mesmo. E isso demora demais! Não adianta outra coisa, não. Por exemplo: em 1998, a Sabesp botou lá uns bicos aspersor, espécie de chuveirinho suspenso em uma ponte, que faz cair água na espuma - jeito certeiro de acalmar os floco que querem voar, garantiram pra nóis. Não resolveu muita coisa e eles também concorda com a gente que isso é só um quebra-galho. E no ano passado? Teve inté presença do governador Alckmin na inauguração de uma hidrelétrica que a Emae disse que eliminaria a bicha da espuma, mas não foi bem o que aconteceu. Segundo os entendido lá deles, o problema é que antes a água despencava pra lá de 20 metro de uma barragem que só servia para represar água. Depois da usina inaugurada, ela passaria a ser escoada por um túnel e lançada para turbinas que gerariam energia. Aí, o problema criador da espuma taria resolvido: sem queda grande d’água, sem espuma. Como se vê, nada feito. Tem piraporense que arrisca o palpite de que, depois da hidrelétrica, a bicha aumentou em volume.

Nosso Senhor Bom Jesus, o que nóis quer mesmo de volta é nosso rio limpo - tal qual ele era quando o primeiro piraporense resgatou vossa imagem das corredeira. O Tietê era tão agraciado, mas tão agraciado, que parecia o paraíso - há caboclo mais emotivo que diz. Quantos não eram os peixe que dava por aqui? A dieta da cidade só vinha do rio. Era baixar a varinha na água e já botar fogo na lenha pra assar o almoço. Daí, inclusive, que vem, do tupi-guarani, a palavra Pirapora, em que “pira” é “peixe” e “pora” é “pulo”. Agora, contudo, a única coisa que pula da água é essa fedorenta. Qualquer dia, mudam o nome para Juíapora, já que “juía”, na língua dos índio, quer dizer espuma. Nosso Senhor Bom Jesus, vós é nossa última esperança de ver o Tietê como ele já foi. Na fé de que nossa graça seja alcançada, olhai por nóis.

Assinado:

Povo de Pirapora do Bom Jesus

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