Literatura no vácuo: os escritores brasileiros vão bem, obrigado, mas os leitores nem tanto

A safra de 2016 permite dizer que os escritores brasileiros vão bem, obrigado. Não se pode dizer o mesmo dos leitores, infelizmente

Sérgio Sant’Anna, Impresso

31 Dezembro 2016 | 16h00

Não vejo por que a passagem de ano, mera convenção, vá alterar uma tendência que se observa na literatura e nos meios literários brasileiros. Primeiro de tudo, a quantidade absurda de escritores ou candidatos a, completamente desproporcional ao número de leitores. Seria bem interessante que tantas oficinas de escrita se transformassem em oficinas de leitura. Se daí viessem à tona escritores, com certeza teríamos escritores melhores e, por que não?, ensaístas críticos de que o Brasil se ressente muito.

Convencionou-se também que romance é melhor que o conto e o resultado é que cada vez temos mais pretendentes a romancistas, de qualidade muitas vezes discutível. Para abrigar essa safra, fundam-se cada vez mais editoras, cujo nome nem conseguimos guardar. E quanto à repercussão dos livros, os próprios autores, ou seus amigos, se encarregam disso nas redes sociais, que se tornam um festival de elogios e narcisismos.

Vale acrescentar que a probabilidade de parar de ler um romance chato é muito maior que a de abandonar um conto chato. E me agrada a plataforma minimalista: menos é mais. Não seria mal que as pessoas escrevessem menos e melhor.

Mas nada disso quer dizer que não se publicaram no Brasil, em 2016, excelentes livros, como a saga de Luiz Ruffato, Inferno Provisório, que só tem um paralelo em Luxúria, de Fernando Bonassi, este de 2015; o caprichadíssimo e envolvente Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, de Elvira Vigna; O Tribunal de Quinta-Feira, romance de Michel Laub; o demolidor A Vida Não Tem Cura, de Marcelo Mirisola e, por fim, mas não menos, o romance inigualável de Silviano Santiago, Machado, um mergulho não só na vida do mais célebres de nossos autores, mas também um histórico de quatro anos de transformações na cidade do Rio de Janeiro. É evidente que outras obras podem ter-me escapado, afinal não posso ler tudo. E, quanto à poesia, prefiro não me envolver, não tenho conhecimento suficiente para isso. Mas tenho uma frase otimista para esta passagem de ano: a literatura brasileira vai bem, obrigado. Só falta a contrapartida tão essencial: a dos leitores. Leitores que, entretanto, não faltam para escritores muito jovens que veiculam seus trabalhos no Youtube. Nunca os li, mas no entender de especialistas fazem subliteratura. E são lidos na própria rede ou em livros por milhares e milhares de leitores. Para eles não há crise.

Mas gostaria de citar também um livro estrangeiro, o da bielorussa Svetlana Alexievich, publicado no Brasil no início da 2016, Vozes de Chernobyl, que trata da grande tragédia naquela usina nuclear na Ucrânia. Por ele, Svetlana ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2015. Uma tragédia que, afinal, num mundo cheio de conflitos, diz respeito a nós todos.

E aproveito para citar também o alemão W.G. Sebald e o seu Anéis de Saturno, de 2010. Sebald é um escritor imenso e os seus depoimentos sobre o nazismo são inestimáveis.

Outra descoberta minha recente é da norte-americana Patti Smith, romancista e cantora pop. Seu Linha M, é uma fonte inesgotável de prazer e conhecimento artístico, inclusive de literatura. E cito ainda Corpos Divinos, livro póstumo e saborosíssimo do cubano Guillermo Cabrera Infante. Infante morreu em 2005 e o livro foi publicado em 2010, mas no Brasil saiu em 2016, pela Companhia das Letras. Literatura é prazer e o brasileiro precisa saber disso.

Um fenômeno a se registrar é que a grande crise por que passa o nosso país não é abordada na literatura. Mas isso é facilmente explicável. Acontecem tantos fatos dramáticos e controvertidos todos os dias na política nacional, que não há tempo de amadurecer o contraditório para escrever sobre ele em livros. Já em relação à ditadura de 64/68 houve muitas abordagens literárias, pois, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, a ditadura trouxe uma certa estabilidade cronologicamente falando, de modo que os autores puderam discorrer sobre ela e não me lembro de um só escritor que tenha se colocado favoravelmente ao regime militar.

Atualmente, não se sabe o que irá acontecer amanhã. Então, nos livros brasileiros que citei, não há um só deles que seja político, rigorosamente falando. O mais próximo disso é Luxúria, de Bonassi, cuja trama é uma análise acurada e crítica da classe operária durante a euforia consumista dos governos Lula. O Inferno Provisório de Ruffato também é político, na medida que seus personagens pertencem a uma classe desfavorecida, em geral ignorada pelos escritores brasileiros com sua vivência de classe média. Mas se nos permitirmos voltar mais uma vez a 2015, teremos o livro literalmente político, que é A resistência, de Julian Fux.

Mas, no fundo, me bato pela ideia de que ler no Brasil é um ato de resistência em si, contra a acomodação e a ignorância e isso já é política.

SÉRGIO SANT’ANNA, ESCRITOR, QUATRO VEZES GANHADOR DO PRÊMIO JABUTI, A MAIS RECENTE POR O VOO DA MADRUGADA (COMPANHIA DAS LETRAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.