Politics & Prose
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Livrarias instigam resistência a Trump com ações, não só com palavras

Estabelecimentos tomam partido e lideram protestos nos Estados Unidos

Julie Bosman, The New York Times

25 Fevereiro 2017 | 16h00

Uma centena de pessoas lotou uma livraria de Nova York para escrever cartões postais a parlamentares eleitos e, nas palavras do convite, “planejar novos passos”. Em St. Louis, donos de livrarias começaram a planejar um evento repleto de escritores para beneficiar refugiados da área. Numa livraria de Massachusetts, um gerente perguntou a membros de alto escalão de seu pessoal sobre como a loja devia reagir às medidas de Trump. “Jogue duro”, eles lhe disseram.

No movimento de protesto difuso e subitamente feroz que brotou na esquerda desde que o presidente Donald Trump assumiu a presidência, as livrarias entraram na briga, assumindo papéis que variaram de locais de reunião a salas de guerra política. Muitas lojas distribuíram informações a clientes que estão se mobilizando contra os atos de Trump: as escolhas para seu Gabinete, sua ameaça de cortar subsídios para cidades-santuário (que protegem imigrantes sem documentos) e seus banimentos à imigração de refugiados e muitos muçulmanos.

Na City Stacks, uma livraria de Denver, empregados imprimiram formulários com informações para o contato com parlamentares eleitos num discreto incentivo aos clientes. No dia da posse, a Broadway Books em Portland, Oregon, entregou cópias gratuitas de We Should All Be Feminists (Deveríamos ser todos feministas, em tradução livre), um chamamento às armas em forma de livro da romancista Chimamanda Ngozi Adichie.

Por todo o país, livrarias independentes encheram suas vitrines e estantes com 1984 de George Orwell; It Can’t Happen Here (Isso não pode acontecer aqui, em tradução livre), de Sinclair Lewis; e outros livros sobre política, fascismo, totalitarismo e justiça social. Livrarias começaram a chamar o mostruário nas entradas das lojas dedicados a esses títulos de #Resist table (mesa de resistência).

“Tem muita gente dizendo, ´Nós orientamos nossa loja para a revolução`”, disse Hannah Oliver Depp, gerente operacional da Word, que tem livrarias em Nova Jersey e Nova York. “Acho que isso vai mudar decisivamente as livrarias e a venda de livros.” Por enquanto, disse ela, “as pessoas estão simplesmente tentando imaginar: ´Até onde podemos pressionar? Até que ponto podemos aumentar o calor?`”

Algumas lojas, entre elas cadeias grandes como Barnes & Noble, com fregueses de todo o espectro, se esquivaram do viés político. Algumas dizem que trabalharam para manter equilibrados os mostruários de livros mais recentes – com títulos de esquerda e de direita.  “Meu gosto entra em ação”, disse Cathy Langer, diretora de compras da Tattered Cover em Denver, “mas minha política não, nunca.”

Muitos locais, contudo, tornaram-se centros vibrantes de protestos, como a Women & Children First em Chicago, que no mês passado abrigou um fórum sobre “Arte e Resistência”, um círculo de artesanato para tricotar “toucas de gatinho” cor de rosas e uma reunião de freguesas para um café com rosquinhas na manhã seguinte à posse, antes de todas saírem para a Marcha das Mulheres no centro. “Vamos elevar nossas vozes e fazer o novo governo saber que ele não fala por nós”, escreveu a loja para fregueses num e-mail antes do comício.

A organização política talvez seja a extensão natural do que as livrarias fizeram durante séculos: incentivar a discussão, proporcionar acesso a história e literatura, abrigar escritores e intelectuais. “Todas as livrarias têm um viés missionário, em certo grau – sua missão é inspirar e informar, e educar se possível”, disse Elaine Katzenberger, publisher e diretora executiva da City Lights em São Francisco, uma loja com um longo histórico de ativismo de esquerda. “Quando Trump foi eleito, as pessoas diziam: ´O que é que eu vou fazer? O que é que nós vamos fazer?`” ela acrescentou. “Um dos lugares onde se pode encontrar algumas respostas é nos livros, nas histórias, nos fatos correntes, até na poesia.”

Para muitos livreiros, a insistência para participar num movimento de protesto é nova. Muitos que foram entrevistados disseram que nunca haviam tentado mobilizar politicamente sua clientela; muitos estão deixando cristalinamente clara sua visão política pela primeira vez.

Stephanie Valdez, dona da Community Bookstore no Brooklyn, já recebeu um evento de redação de cartões postais, e recentemente folheou livros sobre organização política procurando orientação para envolver mais a sua loja. “Acredito que as livrarias são um lugar ao qual as pessoas vão para compreender o mundo”, ela disse. “E acho que somos apenas um de muitos lugares que se tornarão centros de ativismo.”

Gayle Shanks, uma coproprietária da Changing Hands em Phoenix, disse que a página de sua loja no Facebook tinha se politizado à medida que membros do seu pessoal a encheram de artigos sobre política nacional e questões relacionadas à Primeira Emenda. Por sugestão de um de seus empregados jovens, membros do pessoal começaram a montar uma mesa de exposição com livros escritos por autores dos sete países de maioria muçulmana dos quais Trump suspendeu a imigração.

Shanks usou seu newsletter de e-mail regular em dezembro, em geral um veículo para bate-papos para sugerir novos livros ou compartilhar notícias do meio editorial, para registrar seu pesar pela eleição de Trump e pelos “compadres” que ele havia escolhido para compor seu Gabinete. Mais de 50 visitantes responderam de maneira acolhedora, agradecendo a ela por ter ventilado suas visões. Um homem não: “Cale a boca e venda livros”, ele escreveu.

E algumas lojas silenciaram, temendo afastar clientes mais conservadores. “Muitas livrarias querem ser tudo para todas as pessoas” , disse Josh Christie, dona da Print, uma livraria em Portland, Maine. “Elas querem ser apolíticas e oferecer de tudo de qualquer ponto de vista. As pessoas temem perde essas vendas.”/Tradução de Celso Paciornik

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