NGV International
NGV International

Livro aborda o Holocausto para público infantojuvenil

'Uma Vez', de Morris Gleitzman, conta história de menino em meio à 2.ª Guerra Mundial

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado

24 Junho 2017 | 16h00

Uma Vez, do escritor inglês Morris Gleitzman, que tem se dedicado à literatura infantojuvenil, trata de temas fundamentais para que, segundo Theodor Adorno, “Auschwitz não se repita”, justo num momento em que vivemos a constante ameaça de “regressão à barbárie”, com a ascensão de movimentos e partidos ultranacionalistas. Adorno lembra, aliás, que o genocídio “tem suas raízes naquela ressurreição do nacionalismo agressor que vicejou em muitos países a partir do fim do século 19” e que parece ressurgir com força nos anos 2010. Além disso, o filósofo alemão adverte que o simples fato de o genocídio ter ocorrido uma vez já constitui “uma tendência social imperativa”.

Na opinião de Adorno, a educação na infância e o esclarecimento geral permitiriam um clima intelectual, cultural e social que impossibilitaria a repetição da barbárie. Uma Vez parece cumprir esse papel ao oferecer ao leitor mirim (mas não só a ele) uma reflexão oportuna sobre temas fortes como suicídio, morte e tortura.

O livro de Gleitzman conta a história de um menino judeu, Felix Salinger, que foge de um orfanato em busca de seus pais, em plena Segunda Guerra Mundial, sem ter consciência, contudo, do que está acontecendo no mundo real e sem entender ao certo o porquê de os pais o terem deixado naquele lugar.

Em busca de uma explicação que convença a ele próprio, Felix passa a inventar histórias: “Meus pais escolheram este orfanato por dois motivos: porque era o mais próximo da cidade e pela bondade da madre Minka. Quando me trouxeram para cá, contaram que durante os anos em que ela era cliente da livraria deles, muito antes de as coisas ficarem difíceis para os livreiros judeus, a madre Minka nunca criticava os livros”.

O menino é, na realidade, um grande contador de histórias, talvez por ter nascido cercado pelos livros da livraria dos pais na Polônia. 

É interessante pensar que Felix carrega com ele um caderninho que lembra o diário de Anne Frank, embora anote nele apenas histórias irreais e fantásticas, numa forma de escapar do mundo à sua volta. 

As histórias do menino cessam, contudo, depois de ele tomar conhecimento da realidade, da guerra e de suas atrocidades: “Um oficial nazista com cara de indiferente segura Zelda pelo cabelo e aponta uma arma para ela. – Por favor, não – digo. Espero minha imaginação se manifestar e inventar um motivo para dizer que ele não pode atirar na Zelda, mas minha cabeça está queimando e tudo está girando, e eu caio no chão gritando, mas sem palavras”. Zelda, no livro, é uma amiga do protagonista.

Mesmo num cenário desolador, o menino encontra os amigos e readquire, graças a eles, a sua imaginação; afinal, ele sabe o poder que tem uma boa história: “De repente me lembro de outra história contada pelos meus pais sobre o motivo para eu ficar no orfanato. Eles disseram que assim eu poderia ir à escola enquanto eles viajavam para tentar reestruturar seu negócio. Eles contaram essa história tão bem que acreditei nela por três anos e oito meses. Essa história salvou a minha vida.” 

Uma Vez não é uma história baseada em fatos reais, como Gleitzman faz questão de frisar, mas é uma história “para todas as crianças que não tiveram sua história contada”. Ao final do livro, o autor convida os leitores a buscar em seu site oficial outras histórias, essas reais, contadas por sobreviventes do holocausto.

Morris Gleitzman acaba de terminar uma nova aventura de Felix, intitulada Talvez, que se passa no pós-guerra, em 1946. O lançamento está previsto para setembro deste ano na Austrália, onde o autor reside, mas deverá chegar em breve também ao Brasil pela editora Paz e Terra.

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de 'As Antenas do Caracol: Notas sobre Literatura Infantojuvenil' (Iluminuras)

Uma Vez

Autor: Morris Gleitzman

Tradução: Marília Garcia

Editora: Paz e Terra

160 páginas

R$ 27,90

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.