Erick Labbe
Erick Labbe

Livro de entrevistas revela Robert Lepage 'insaciável'

'Conversas sobre Arte e Método', de Renate Klett, traz entrevistas com dramaturgo canadense

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2017 | 16h00

O teatro do dramaturgo canadense Robert Lepage é relativamente conhecido no Brasil. A montagem de Os Sete Afluentes do Rio Ota (1996) por Monique Gardenberg, em 2002, teve boa repercussão crítica. A de Copas e Espadas, parte de sua tetralogia Jogos de Cartas, no Sesc Santo Amaro, em 2014, aprofundou a discussão de temas recorrentes na dramaturgia de Lepage (guerra, sexismo, emigração, transculturalismo). Agora, a publicação de um livro de entrevistas da alemã Renate Klett, Conversas sobre Arte e Método (Edições Sesc), oferece um ótimo perfil do dramaturgo, consagrado em 1985 por La Trilogie des Dragons, epopeia poética de seis horas de duração sobre o lugar da China mítica no imaginário dos canadenses de Quebec, onde nasceu Lepage há 59 anos.

Também essa é uma “pequena história” com grandes lances autobiográficos de Lepage, filho de um taxista e uma dona de casa. Ele perdeu todos os pelos do corpo aos cinco anos, vítima de uma espécie rara de alopecia, passou parte da adolescência deprimido e foi descobrir no teatro a sua tábua de salvação. De dramas íntimos como Agulhas e Ópio (encenada no Brasil em 1998) à montagem do ciclo wagneriano O Anel do Nibelungo, de Wagner, Lepage fez praticamente tudo no teatro, tanto como ator como dramaturgo e diretor, unindo os mais modernos recursos de alta tecnologia a uma imaginação desenfreada.

As entrevistas de Renate Klett foram feitas entre 2007 e 2008, em trânsito, condição permanente de um artista requisitado como Lepage, também conhecido por sua atuação no cinema – ele foi Pôncio Pilatos em Jesus de Montreal (1989), de Denys Arcand – e como criador de três companhias de teatro em 30 anos de carreira, sendo a mais conhecida a Ex-Machina, fundada em 1994. A primeira conversa entre Lepage e a entrevistadora se deu em Bruxelas, quando ele montava The Rake’s Progress, e começou mal – ambos tentando inutilmente fazer o gravador funcionar. Quando finalmente a máquina resolveu colaborar, Lepage não parou mais de falar.

Ele começou por contar sua infância numa família simples, sua admiração pelo irmão (sete anos mais velho) e como a irmã Lynda foi importante em sua juventude, incentivando-o a participar de um grupo teatral para perder a timidez. Funcionou, mas nem tanto, segundo ele. Lepage admite não ter um vocabulário teatral tão rico quanto o de Bob Wilson. Em contrapartida, descobriu algo nem mesmo pensado por Peter Brook – na verdade, o oposto de seu conceito do “espaço vazio”. Ou seja, intuiu o “espaço limitado”, em que o ator, pressionado por essa condição, é obrigado a reinventar tudo – em Os Sete Afluentes do Rio Ota, por exemplo, o cenário se resumia basicamente a três caixas que dividiam cada um dos atos.

Lepage diz que ficou um tanto frustrado com os resultados de Ota, especialmente porque gostaria de se concentrar na bomba atômica e terminou reduzindo a tragédia de Hiroshima a dramas pessoais. Esse trabalho coletivo o fez montar um monólogo logo depois, pela absoluta incapacidade de ser impositivo com o elenco, admitiu à entrevistadora.

É nessa primeira conversa entre os dois que Lepage revela suas principais referências no teatro. Além de Bob Wilson, destaca os nomes de Peter Brook e Pina Bausch – principalmente a Pina de Café Müller. Músicos do rock dos anos 1970 também tiveram influência em sua formação (Peter Gabriel e David Bowie, entre outros). Lepage revela não ser um devorador de livros, como se imagina. Lê mais revistas e vê filmes (de Wim Wenders a Woody Allen).

Na segunda conversa, a entrevista toma um rumo mais pessoal. A entrevistadora pergunta sobre a vida sexual do dramaturgo e este conta bem mais do que ela talvez desejasse ouvir – das traições ao seu companheiro às experiências com haxixe afegão na juventude (hoje, consciente de sua vulnerabilidade ao vício, Lepage diz que se afastou definitivamente das drogas, presentes com frequência nos primeiros trabalhos e ausentes nos mais recentes, como nota Renate Klett).

A longa duração de suas peças (uma delas com nove horas) não é um exercício megalomaníaco, mas uma exigência dos espectadores, observa Lepage. Dos filmes que realizou, nenhum o deixou plenamente satisfeito. Mesmo no teatro, teria uma lista de títulos para abjurar – entre eles figuram Vinci, espetáculo que classifica de “desastrado”, e Polygraphe, cujo texto não é exatamente Eugene O’Neill. Desde que começou a dirigir óperas, tem preferido montar as mais difíceis (como a tetralogia wagneriana). Entre Mozart e Alban Berg, certamente ficaria com o segundo.

Na terceira conversa, a confissão de que se interessa mais por sexo que por teatro pode parecer leviana, mas ele explica a razão: não é vício, nem obsessão, mas a única coisa no mundo que o leva a manter o foco, não o trabalho e a arte. Finalmente, nessa quarta e última conversa, a principal revelação: Lepage admite ser “insaciável”, uma “pessoa sem medida”. O teatro saiu ganhando com esse exagerado.

Robert Lepage: Conversas Sobre Arte e Método

Autora: Renate Klett

Tradução: Claudia Abeling

Editora: Sesc

204 páginas

R$ 60

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