Livro de José Luís Peixoto evoca a poesia que vem do inconsciente

Livro de José Luís Peixoto evoca a poesia que vem do inconsciente

Escritor português lança no Brasil 'A Criança em Ruína', pela editora Dublinense

José Castello*, Colaboração para o Estado

12 Agosto 2017 | 16h00

Há mais de meio século, Vinicius de Moraes já nos alertava que a poesia não está nas palavras, mas na vida. Na era das mentes turbinadas e do culto à adrenalina, nada melhor do que retornar à lentidão das pequenas coisas e a, partir delas – muito além dos livros –, procurar a poesia. Parece simples, talvez redutor, e até ingênuo, mas não é fácil. Os que preferem ver a poesia como artifício e jogo, como uma tarefa de especialistas, na verdade se esquivam do assombro que ela desvela. Evitam, assim, o que eles mesmos dizem cultuar.

Temas antigos, mas sempre futuristas, como o amor, a liberdade e a morte, persistem nos livros de poesia que realmente importam. Agora mesmo leio A Criança em Ruínas, do português José Luís Peixoto. Nele encontro, mais uma vez, uma poesia que não se contenta com a exibição intelectual. Que deseja ultrapassá-la, cavar fundo sob o manto de letras, para chegar aos fundamentos de sua própria voz. Em tempos tão fúteis, este parece ser um trabalho sem sentido. Buscar sentido – isso hoje não faz mais sentido; interessa apenas produzir efeitos. De modo que os poetas parecem seres em fuga, quando é bem ao contrário: se você olhar a paisagem na direção correta, verá o quanto, na verdade, eles nos ultrapassam.

Poetas como Peixoto escrevem com a consciência de que, a cada palavra, têm menos nas mãos. “Sou um erro propositado e sou erro/ maior por isso”, ele nos diz. A cada verso escrito, é todo um mundo que fica para trás. A questão, portanto, não é deter-se nas palavras, não é “enfeitá-las” com o recurso do artifício ou da novidade: mas perfurá-las para examinar o que detrás delas se esconde. Aqui o verdadeiro poeta se arruína: ao escrever, ele destrói aquilo mesmo que escreve. “Sou a erosão de mim próprio”, diz Peixoto, ciente de que escrever, muito mais do que um exercício de inteligência ou de mestria, é perder-se de vista. Ao escrever, o poeta se exclui, deixando as palavras como restos de seu esforço.

Não devemos – como fazem os novos poetas esnobes, com seus óculos da moda e sua mente intoxicada de citações – nos deter na fulguração da letra. O esnobismo é isso: afetação, busca da superioridade, e também um desejo escondido de vingança contra aqueles que apenas fazem. “A letra p não é a primeira letra da palavra poema”, nos alerta Peixoto em sua Arte Poética. “O poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma.” Algumas linhas à frente, ele esclarece ainda melhor: “O poema é quando eu não conhecia a palavra poema.” Anterior à própria letra, o poema é a ruína do poeta.

Mas aceitar isso – que a poesia se antecipa ao poema – é aceitar, ao mesmo tempo, a presença de elementos fugidios e não domesticáveis, como a intuição, o recolhimento e o silêncio. Admitir que o poema só se faz porque existe alguma coisa antes dele que o sustenta e o engendra. Os poemas “não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são/ bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema”. E esclarece, em versos ainda mais escandalosos: “não é a/ raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos/ conhecer o que possuímos e não possuímos nada.”

Aceitar, portanto, não só a limitação atroz que nos constitui, mas a corrosão persistente que compõe a vida. Aceitar que quanto mais falamos – quanto mais escrevemos – menos nós sabemos. E, no entanto, é nessa perseguição do sentido, além, muito além da rede de palavras, que a poesia reside. Os esnobes, com suas teses espantosas e seus muxoxos, pouco sabem da poesia. Lembro aqui de uma observação nada consoladora de Clarice Lispector: “Mas é que o erro das pessoas inteligentes é tão mais grave: elas têm os argumentos que provam.” Ao escrever, nos mostra Peixoto, em vez de elucidar, o poeta devasta: “entre as palavras da minha voz, as minhas palavras, renasce/ um silêncio.”

Aqui, a própria letra se torna corrosiva e mortal. “A palavra poema existe para não ser escrita como eu existo/ para não ser escrito.” Afirma, assim, a primazia da vida sobre o poema. Para poetas como ele, a poesia sempre escapa; por mais que se escreva, está sempre em outro lugar. É como ele diz sobre o amor, em outro belo poema: “o amor é saber/ que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.” A poesia também. E por isso, toda assinatura, toda vaidade, não passam de uma fraude.

*José Castello é jornalista, mestre em comunicação pela UFRJ e escritor. Autor de 'Ribamar' (Bertrand Brasil) e 'A Literatura na Poltrona' (Record), entre outros

A Criança em Ruínas

Autor: José Luís Peixoto

Editora: Dublinense

80 páginas

R$ 36,90

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