JASON REDMOND | AFP
JASON REDMOND | AFP

LIVRO PONTO COM

Gigante da internet cede às pesquisas e abre loja física para os milhares que gostam de fuxicar estantes e cheirar páginas de papel

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2015 | 03h00

E se além dos tablets Surface a Microsoft passasse a fabricar máquinas de escrever? (Elétricas, claro.) Inimaginável, certo? Tão inimaginável quanto a Samsung aplicar seu know-how em novos modelos de telefones de discar, a Sony anunciar a reabertura da fábrica Kodak, para a fabricação de câmeras e filmes analógicos, e a Amazon.com abrir uma livraria de verdade. Duvide, mas não faça pouco dessas hipóteses.

Com tantas coisas que pareciam sepultadas para sempre voltando a circular (dos discos de vinil aos instrumentos acústicos, da barba nos homens aos pelos pubianos nas mulheres, da saia midi às cristaleiras), não surpreende que a Polaroid tenha ressuscitado (ungida por Lady Gaga), feirinhas de antiguidades proliferem pelas grandes capitais do país, um concorrido curso sobre fotografia analógica esteja rolando no Sesc paulistano – e, por fim, mas não por último, a Amazon tenha inaugurado sua primeira livraria física.

Se nostalgite ou mera e passageira saturação do culto à tecnologia e ao artifício, pouco importa; o fato é que as predições de que as novas gerações andavam saudosas dos anos 1970, quando ainda não havia computadores, celulares, videogames, selfies só eram possíveis com disparador automático e as imagens em movimento eram filmadas em super-8, começam a se confirmar. Parece absurdo e talvez seja: gente que só pôde curtir aquela década vicariamente tentando revivê-la com o mesmo invejoso apetite que os nascidos nos anos 1940 sentiam pelos années folles dos avós e seus filhos pelo otimismo boogie-woogie do pós-guerra.

Fotos em cores revertidas para preto & branco ou tingidas de sépia e com look retrô já podiam ser obtidas com recursos do Photoshop, do Instagram e outros aplicativos digitais, mas faltava o principal: a autenticidade analógica, a aparência sem truques de uma foto tirada com filme, como antigamente. Saem os pixels, voltam os grãos.

Por que esse afã regressivo? Fascínio pela imprevisibilidade e as imperfeições proporcionadas pela fotografia analógica. “A utilização do filme faz as pessoas pensarem mais sobre o que estão fotografando, acabou o desperdício de cliques”, explicou-me um profissional do ramo.

As câmeras analógicas nunca saíram do mercado; já os filmes, duro encontrá-los à venda. A lomografia e as práticas câmeras alemãs Adox resolveram em parte essa escassez. Lomografia é a fotografia feita com uma câmara Lomo, máquina analógica com alta sensibilidade, fabricada na Rússia, barata e de fácil manuseio. Seus 30 segundos de exposição e a alta sensibilidade do equipamento dispensam flash ou luz extra e permitem a obtenção de fotos nítidas sem borrões. Inventada por um general da antiga União Soviética e popularizada em Praga, pouco depois da queda do regime comunista, a lomografia, com suas cores vibrantes e saturadas, estourou nas mídias sociais e tem tudo para virar a Kodak caixão do século 21.

Um autêntico programa up-to-date seria ir até Seattle e lomografar a fachada da Amazon Books. Desde terça-feira a primeira livraria “analógica” da maior livraria virtual do planeta faz negócio numa das esquinas do shopping University Village. No espaço antes ocupado por um restaurante de sushi, e quase no câmpus da Universidade de Washington, a Amazon Books é a mais insólita evidência de que as livrarias físicas não foram mortalmente atingidas pela Amazon.com.

A despeito do ciclópico crescimento da máquina de vender livros inventada por Jeff Bezos, o número de livrarias físicas independentes cresceu 19,3% nos últimos dois anos. As megas (Borders, Waldenbooks, Barnes & Noble) sentiram o tranco ou pereceram, mas as que souberam tirar proveito de sua escala, do tratamento diferenciado e do fenômeno do localismo seguiram em frente; algumas até se multiplicaram.

A preferência por Seattle tem dupla explicação: lá fica a sede da Amazon e sua população é a segunda mais letrada do país. Seu clima deprê, seu céu quase sempre plúmbeo, prometendo e trazendo chuvas intermináveis, incitam as pessoas a beber, ler ou ambas as coisas.

Uma livraria Amazon soaria bizarra em qualquer lugar. Ou irônica, como observou um editorial do The Seattle Times. A Amazon.com – que hoje vende de tudo, é a maior varejista do mundo, maior que a Walmart – sempre ofereceu livros com preços bem abaixo da cotação do mercado justamente por não ter as despesas de uma loja física e gozar de isenção de impostos estaduais e municipais que, a título de incentivo, lhe foi concedida pelo governo.

Quando reiteradas pesquisas revelaram que a maioria do público leitor gosta de ir às livrarias para fuxicar as estantes, pegar nos livros e até cheirá-los, interagir com os livreiros e trocar sugestões com outros clientes, mesmo que depois, por comodidade, concretize suas compras pela internet, o esperto e agressivo Bezos fez as contas e decidiu encurralar ainda mais seus concorrentes. Não se pode culpar a freguesia por preferir comprar mais barato e pela internet, mas há quem acuse Bezos de agir e “fazer acordos por debaixo do pano” para manter seus preços lá embaixo e os dos competidores lá em cima.

“Precisamos segurar a Amazon”, conclamou o ex-editor da revista The New Republic Franklin Foer. No lide, os motivos de sua exortação: “Ela é grande demais e está canibalizando a economia”. Na Amazon Books os preços são os mesmos da loja virtual. Com os US$ 26 bilhões que faturou em 2014, Bezos pode se dar o luxo de perder alguns milhões com aluguel, salários de livreiros e demais custos de uma livraria física, para enfim consolidar um monopólio.

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