Elise Bakketun/Seattle Opera
Elise Bakketun/Seattle Opera

Livro reúne escritos do escritor alemão E. T. A. Hoffmann

'O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos' traz obras variadas do autor, conhecido pelo natalino 'O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos'

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

25 Março 2017 | 16h00

O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos (Estação Liberdade, 2017) traz uma seleção de contos do jurista, músico, escritor e poeta alemão Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (1776-1822) extraídos de três diferentes coletâneas do autor: Quadros Fantásticos à Maneira de Callot, de 1814, Contos Noturnos, de 1817, e Os Irmãos Serapião, de 1819/21. A antologia, organizada por Maria Aparecida Barbosa, que também assina a tradução, oferece ao leitor um panorama abrangente da obra de Hoffmann. Ao lado de contos conhecidos como O Homem de Areia e O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos, o leitor terá acesso a outros não tão populares, mas importantes para compreender a criação de um escritor que não separava a música e as artes plásticas da literatura.

Em Jacques Callot, Hoffmann parece definir a literatura fantástica, que nasce com o romantismo alemão no início do século 19, como algo semelhante à obra do desenhista francês, que revelava ao espectador “todas as insinuações secretas, guardadas sob o véu do grotesco”. Ao final do conto, Hoffmann afirma: “Um poeta ou escritor, a quem se apresentassem em seu espírito romântico figurações da vida comum, e que as representasse agora, esplêndidas como na fonte, num estilo estranho e raro, não poderia tal poeta ou escritor se desculpar com o mestre, dizendo que quis trabalhar à maneira de Callot?”. 

A música também ganha destaque nos contos do mestre alemão, que foi ainda, ao lado de Thibaut e Mendelssohn um dos bons críticos musicais da época romântica, como lembra Otto Maria Carpeaux. Em O Cavaleiro Gluck, o escritor traz à tona não só o seu olhar de crítico musical, mas seu gosto pessoal por determinados compositores, como Gluck e Mozart: “Se, por um lado, preciso admitir que a obra-prima de Mozart é, em grande parte, negligenciada de forma inexplicável aqui em Berlim, as obras de Gluck, convenhamos, são encenadas com dignidade”. Sabe-se que a admiração de Hoffmann pela obra de Wolfgang Amadeus Mozart era tanta que ele incorporou Amadeus ao seu próprio nome.

Kreisleriana trata de anotações do músico Johannes Kreisler, personagem do romance mais famoso do autor, Reflexões do Gato Murr. No conto, Kreisler parece querer dar voz às opiniões do escritor sobre música: “(...) Somente Mozart e Haydn, os criadores da música instrumental contemporânea, nos mostraram a arte em sua glória plena. Quem, contudo, a contempla cheio de amor e penetra em sua essência profunda é Beethoven”.

Sua obra inspirou também grandes compositores e o enredo de óperas como Tannhäuser, de Wagner, Die Brautwahl, de Busoni e Cardillac, de Hindemith. Além disso, o próprio Hoffmann é personagem de Les Contes d’Hoffmann, de Offenbach, sem contar que seu conto O Quebra-Nozes, com música de Tchaikovski, transformou-se num dos balés mais conhecidos mundialmente. A propósito de Wagner, Carpeaux afirma que, com Tristão e Isolda, o compositor “aparece como o herdeiro do grande e autêntico romantismo alemão, dos sonhos de Novalis e E.T.A. Hoffmann. Realizou o desejo profundo romântico da volta para o sono, o sonho e a morte, o nada”. Esses são de fato os temas da literatura hoffmanniana.

Em seus contos, sonho e realidade se confundem, como se lê em As Minas de Falun: “Lançou então um grito de desespero e despertou do estranho sonho, mas o deleite e o horror ainda permaneceram reverberando em sua alma”. Na literatura fantástica, ressalta Italo Calvino, citando indiretamente Todorov: “O fato extraordinário que o conto narra deve deixar sempre uma possibilidade de explicação racional, ainda que seja a da alucinação ou do sonho”. Os contos de Hoffmann dialogam com a psiquiatria, e em O Anacoreta Serapião, ele cita três médicos psiquiatras, contemporâneos seus, autores de livros sobre curas psíquicas e tratamentos de alienação mental. 

Há também citações a obras de outros autores. Em O Reflexo Perdido, por exemplo, cita A História Maravilhosa de Peter Schlemihl, de Adelbert von Chamisso, na qual parece ter buscado inspiração. Mas, se na novela de Chamisso, o homem vende sua sombra ao diabo, no conto de Hoffmann, sua personagem doa a ele o seu reflexo: “— Agora o senhor conhece a dimensão de minha desgraça. Schlemihl, essa alma pura e virtuosa, é digno de inveja em comparação a mim, o pobre coitado! Num gesto leviano, vendeu sua sombra, mas eu... Eu dei meu reflexo... a ele! Oh, não, oh, não!”.

*Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, do livro 'James Joyce e seus Tradutores', da editora Iluminuras

O Reflexo Perdido e Outros Contos Insensatos

Autor: E. T. A. Hoffmann

Tradução: Maria Aparecida Barbosa

Editora: Estação Liberdade

264 páginas

R$ 42

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