Livro reúne memórias do perfumista francês Jean-Claude Ellena

Livro reúne memórias do perfumista francês Jean-Claude Ellena

Nascido na capital francesa dos perfumes, o 'escritor de odores' produziu fragrâncias para diversas grifes

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2018 | 16h00

Desde muito pequeno Jean-Claude Ellena já tinha um olfato extraordinário. Seu pai também e sua filha seguiu o mesmo caminho. Vale dizer que ele estabeleceu muito cedo o caminho que o levou mais tarde a se tornar um dos grandes perfumistas da França, talvez do mundo, e a produzir perfumes exclusivos para a casa Hermès. Ainda no ventre de sua mãe, Jean-Claude já se preparava, uma vez que tomou o cuidado de nascer às margens do Mediterrâneo, não distante de Nice, na deliciosa cidade de Grasse, repleta de campos de rosas e jasmim e que é a capital francesa dos perfumes.

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Ao nascer, Jean-Claude começou imediatamente a preparar seu destino. Estudante distraído na escola, tímido e sonhador, ele seguiu a carreira de “mau aluno” com energia, mas aos 16 anos teve de abandonar o liceu. Adeus então às intermináveis aulas de matemática, geografia, química, física. Jean-Claude vai trabalhar como auxiliar de laboratório em uma perfumaria de Grasse. O saber abstrato que o repugnava na escola irá conquistá-lo no trabalho, pela prática.

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E foi entre a colheita de flores e os alambiques onde se realizavam fermentações fascinantes que o jovem se iniciou nas ciências da perfumaria, a química e a física que tão pouco lhe interessaram na escola. As mulheres do laboratório são gentis. Elas o ensinam a distinguir o aroma do vetiver do Haiti daquele das Ilhas Reunião ou de Java, ou o cheiro do narciso e da mimosa, parecido com o do couro. Ele aprendeu que o óleo de sândalo evoca o “cheiro da urina do cavalo”. E que o musgo do carvalho “cheira aos pelos da púbis feminina”.

Hoje Jean-Claude Ellena está com 70 anos de idade. E resolveu se aposentar. E continua sua busca, mas pela escrita. 

Li seu último livro: L’écrivain d’Odeurs (O Escritor de Odores). Não sei se, na escola, ele foi um aluno com mais vocação para a literatura do para que a química ou a física, mas constatei que ele constrói frases tão belas e sutis como os perfumes que criou durante 40 anos para Saint-Laurent, Bulgari, Van Cleef & Arpens, Guerlain e sobretudo Hermès.

O título do seu livro já deixa claro: o perfumista é um escritor, mesmo se suas palavras, suas frases, sua gramática e sintaxe, são feitas de aromas e flores, de óleos essenciais ou desses rastros invisíveis que o perfume deixa atrás de si, como uma cauda suntuosa e já agonizante. Ele afirma que “O perfume que escrevi, naquele ano, para determinado estilista... E resume: “num determinado momento compreendi que se quisesse dizer coisas em perfumaria, isto passava pelas palavras”.

Este livro ensinou-me esta verdade: o perfumista é como o cozinheiro, certamente, mas se assemelha muito mais ao escritor cujas alegrias, angústias e desejos circulam longamente em sua cabeça antes de eles colocá-los no papel, depois do que ele aplaina, suaviza, lapida tudo isto, até obter o poema ou o romance que sonhou. Eu acrescentaria que vejo Ellena mais sob a forma de um daqueles alquimistas da Idade Média que mantinham vivo o fogo no Atanor esperando a humilde “matéria” terrestre se metamorfosear e então nascer a “pedra filosofal”.

Uma vida inteira a sentir o aroma das flores, equacioná-las, desenhá-las, escrevê-las. Uma vida correndo o mundo pois o perfume é também uma geografia e seu inventor deve conhecer o grão e a cor da terra indonésia, o barulho das ondas da Bretanha, o cheiro dos ventos do Saara. Um “nariz” sério não pode se contentar em escrever fórmulas químicas ou físicas. Tem de ser também um historiador, lembrar-se dos aromas dos jardins da Renascença inglesa, das pedras do antigo Egito ou dos cavalos de Gengis Khan. 

O mau aluno na escola em Nice tinha muitas tarefas a cumprir. À química e à física teria de acrescentar a história, a geografia e as ciências da linguagem. Cada perfume contém traços de todos estes conhecimentos. E ainda outros.

Jean-Claude Ellena é um homem sem tabus. Por mais que tenha evoluído no mundo sofisticado e irreal do luxo e do hiper-luxo, entre mulheres delicadas como a porcelana e homens ricos como um iate de Onassis, ele confronta todos os odores, incluindo os maus e os obscenos. E não se limita a constatar que vivemos também no mundo animal, da defecação, da podridão e da morte. São odores desprezados que ele reúne para levar sua arte até as últimas fronteiras.

Gustave Flaubert escreveu sobre o perfume que “ele é elaborado a partir de químicas maravilhosas, de decomposições que confundem. Quem sabe a que sucos de excrementos devemos o perfume de rosas e o sabor dos melões”. 

Segundo outro gigante da literatura francesa, Montagne,: dos seus excrementos e suas descargas tiramos não apenas guloseima, mas nossos mais ricos ornamentos e perfumes. E mais próximo de nós, no século 20, Ernst Junger afirmou: “O aroma da rosa contém em doses ínfimas o princípio do odor do excremento”.

Jean-Claude Ellena ratifica, por sua ciência da química e sua profissão de perfumista, a intuição desses grandes escritores. Diz ele: “O almíscar é uma matéria secretada pelo orifício anal de um pequeno mamífero, cujo odor fecal no fim do dia impregnava minhas roupas e minha pele. Mas esse odor não me desagradava. Até me atraía – os odores ditos “repugnantes” sempre me pareceram misteriosos e humanos”.

No seu livro, o criador dos perfumes mais sutis, mais transparentes, confessa: “para mim não existem odores ruins. Eles apenas me incomodam, por exemplo, num grande espaço especializado em perfumes. Se você associa um determinada dosagem de almíscar, que cheira a merda, à rosa, esta se torna mais voluptuosa, mais quente. Se fosse chocolateiro colocaria almíscar no chocolate. O almíscar o engrandeceria”.

Boa ideia. Mas à espera de que isso aconteça, gostaria de citar um trecho do livro em que ele explica a um jornalista americano as dificuldades que encontrou para criar um perfume que evocasse a América:

“No meu cofre de perfumes eu tinha um extrato de céu, um de floresta, um de colina e de rio. O cheiro do céu era maravilhoso, azul e puro e sentia a verão. O cheiro da floresta era estranho, mas conseguia distinguir na sua bela complexidade os aromas do freixo, da oliveira e algumas castanheiras. O da colina era como o da Provença. Quanto ao rio, o odor era turquesa e gelado como das torrentes. Misturei os quatro extratos e o perfume lembrava a Provença, particularmente a Alta Provença, mas não paisagens americanas. Por mais que eu mudasse as proporções, colocando mais céu e rio, menos árvores, diminuindo a altura das colinas, não consegui. Meu perfume lembrava sempre a Provença”. (Texto magnífico: chegamos a crer que Deus está criando os aromas)

Para concluir vou dar uma receita aos leitores que gostariam de criar um cheiro de bruma. Um amigo americano forneceu uma pista a Ellena: “cheira a malte, aveia ou trigo sarraceno fervido, e também óleo de amêndoa e flor do espinheiro. Jean-Claude experimentou e ficou encantado. Era o cheiro da bruma. Ele estava ali. Mas faltava uma pequena coisa, quase nada. Criou uma metodologia, fez experiências. Fracasso. Até o dia em que acrescentou àquele odor algumas gotas de uísque. Mas não um uísque qualquer. Colocou o uísque Bruichlalddich, destilado na ilha de Islay, ilha escocesa batida pelos ventos do diabo e do bom Deus. A rolha de uma garrafa deste uísque cheira a urze, turfa, lenha queimada, ervas amargas e seringueira. Ele juntou as gotas do uísque à sua primeira decocção. Sucesso. Ali estava o cheiro da bruma.

Este é o destino de um “nariz” de boa estirpe. Uma longa busca do Graal. / Tradução de Terezinha Martino

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