Metropolitan Museum of Art
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Livro usa realismo mágico para abordar mundo feminino, loucura e mar

'Começa em Mar', de Vanessa Maranha, navega pela história de quatro protagonistas e investiga insanidade

Bruna Meneguetti*, Colaboração para o Estado

15 Julho 2017 | 16h00

Vanessa Maranha acreditava que sua “praia literária” era o conto, por ter sido premiada nessa categoria, mas acabou descobrindo a aptidão no “mergulho”, no romance. Desde então, pegou o mar guardado em seu nome e mergulhou em dois livros: Contagem Regressiva (Selo Off Flip, 2014), romance de estreia finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015; e Começa em Mar, sua mais nova obra, que recebeu menção honrosa no Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016. 

Se Contagem Regressiva é sob a perspectiva masculina, contando respectivamente a velhice, juventude e infância de João, Começa em Mar navega pela história de quatro mulheres: Alice, Jordana, Hortênsia e Marta. Por meio de personagens como uma mulher-peixe, um marido-não-marido, um pai que cabe no bolso e uma mãe que virou brisa, Vanessa questiona o que é a loucura e destrincha temas femininos. “Porque a mulher não é compreensível em linha reta”, afirma em entrevista ao Aliás. Não é à toa que suas personagens “têm fases, marés, vazantes, ondas e tsunamis”.

Dona de um hotel numa ilha constantemente ameaçada de ser tragada pelo mar, Alice vai atrás de suas origens ibéricas, herdadas dos pais imigrantes, e os vê diminuindo e suavizando conforme embarca em sua nova jornada. “Fiz a reconstrução do Édipo naturalmente. A criança vive um romance familiar e, na adolescência, busca uma singularização. Os pais vão tomando outra dimensão para ela conseguir se construir como ser humano.”

Conversando com o livro Mulheres que Correm com os Lobos, da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés, é como se Alice fosse em busca da “mulher selvagem”. Ou seja, procura nos ancestrais a força que carrega em seu íntimo enquanto mulher. “As questões da alma feminina não podem ser tratadas tentando-se esculpi-la de uma forma mais adequada a uma cultura inconsciente”, escreve Estés. Isso toma forma na travessia de navio de Alice, que é também uma viagem ao interior onde a protagonista se torna capaz de escolher. 

“Ela estava dentro das estruturas que Lacan propunha, de a mulher terceirizar o desejo. À medida que alguém escolhe por mim, está tudo certo, mas não está. Você tem que tomar posse do seu desejo, da sua vida.” A prova disso é a personagem Jordana, empregada do hotel, que enlouquece. “Eu vou jogando elementos que mostram o quão soterrado vai sendo o desejo dela, que é o movimento da psicose, então uso o elemento fantástico, o nonsense e o absurdo, para falar da loucura”, analisa Vanessa, que usa toda sua formação: o jornalismo lhe deu o compromisso com a escrita e o lado psicóloga trouxe a “sondagem interior, o fluxo de consciência”. Para ela, a loucura está presente em toda a sua obra.

“Sempre me fascinou o paradoxo da loucura em sua miséria e exuberância, o quanto ela denuncia e escancara qualquer hipocrisia”. Ao escrever sob a óptica de Jordana, a autora, que trabalhou em uma clínica psiquiátrica, imaginava a mente de um psicótico. “Quando estamos em consultório, não tratamos a loucura negando-a. Você entra na loucura do paciente para entender que lógica é essa.”

É nessas horas que Vanessa usa do realismo mágico, fantástico ou maravilhoso. “Às vezes o real é tão difícil de se expressar que a via fantástica é a melhor. Sabe aquilo que atira, mas não mata?” Não é à toa que este gênero germinou durante movimentos totalitários e ditatoriais que estavam presentes na América Latina. Segundo Ingrid Galleazzo, professora de literatura e mestre em filosofia, o realismo fantástico ganhou força a partir da década de 1960. “A principal característica é a tradição oral. Já em termos de conteúdo, buscou resgatar a tradição popular, de modo a se usar esses elementos mágicos como parte do desenvolvimento da narrativa”, informa Ingrid. Entre os escritores e escritoras que estão na base do realismo fantástico estão Gabriel García Márquez, Angela Carter, Julio Cortázar, Isabel Allende e Arturo Uslar Pietri, que introduziu o termo na literatura hispano-americana através do seu ensaio El Cuento Venezolano

Pintando o fantástico como corriqueiro, Vanessa usa o gênero também para tratar dos amores, segundo tema importante em suas obras. “Os personagens se reúnem nas suas solidões e eu acho que é um momento em que eles estão mais lúcidos. Eles se afrouxam nos discursos culturais asfixiantes e buscam ser quem de fato eram.” Para a autora, essa “autenticidade radical” pode ser confundida com loucura, mas na verdade é quando os personagens tomam posse de si e não cedem aos próprios desejos em prol das vontades alheias. 

“Ou seja, é a vida que dá para ser. As pessoas se reúnem porque ninguém é feliz sozinho e elas precisam umas das outras”. Assim, há nos personagens uma busca incessante por ser amado. “No outro nos reconhecemos. Na diferença, na singularidade e no sentido.” E, nessa procura pelo reconhecimento, que Maranha aposta: “É pela universalidade que a literatura vai permanecer.” 

*Bruna Meneguetti é jornalista e escritora, autora de 'O Céu de Clarice' (Amazon)

Começa em Mar

Autora: Vanessa Maranha

Editora: Penalux

189 páginas

R$ 40

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