Jan Betke/Encore/The New York Times
Jan Betke/Encore/The New York Times

Livros de Herman Melville explicam era Trump

Como o autor do século 19 previu os mecanismos falaciosos que decidiram as eleições presidenciais americanas em 2016

Ariel Dorfman*, Colaboração para o Estado

06 Maio 2017 | 16h00

Há 160 anos, em primeiro de abril de 1857, Herman Melville, o criador de Moby Dick, publicou um romance The Confidence Man (O Vigarista) que na época não teve nenhuma repercussão. Uma alegoria sobre a infinita capacidade dos seres humanos de serem enganados por farsantes e impostores conhecidos em inglês como “confidence men”: indivíduos que ganham nossa confiança para se aproveitar da nossa boa fé. A história transcorre exatamente no primeiro dia de abril daquele ano, coincidindo com o dia da mentira, quando as pessoas tentam fazer o outro de bobo por meio de trapaças e pilhérias.

O personagem da história é exatamente um malandro que assume muitas identidades a bordo de um barco que atravessa o rio Mississippi, enganando os passageiros.

Em meus anos de juventude em Santiago li esse livro, que fazia parte de uma extensa biblioteca que eu e minha mulher montamos em detrimento das necessidades domésticas mais urgentes, coleção que tivemos de abandonar quando partimos em exílio após o golpe militar de 1973. Embora muitos livros tenham sido perdidos, a maior parte nos espera cada vez que voltamos a um Chile já democrático. E durante uma estadia mais longa, pus-me a reler o romance, imaginando que The Confidence Man conseguiria me fazer compreender melhor a ascensão de Donald Trump à presidência com base em mentiras e falsas promessas.

E fiquei espantado como Melville previu, uma a uma, todas as falácias e fraudes, os truques retóricos e as manobras descaradas que Trump usou em sua campanha presidencial.

O que Melville não conseguiu prognosticar, porém, foi a possibilidade inusitada de que os ardis e a sedução do confidence man lhe possibilitaria um dia assumir o comando do barco em que viajava e se tornar o homem mais poderoso do mundo. E o que ocorre se o vigarista se transforma no insano, narcisista e apocalíptico Capitão Ahab, que, consumido pelo seu ódio da Baleia branca, termina desaparecendo, com sua tripulação e seu navio, num abismo insondável? Neste caso, o que nós, os desafortunados passageiros, devemos fazer?

Descobri que Herman Melville tinha a resposta a essas perguntas. Em três romances curtos, que tenho em minha biblioteca no Chile, encontrei diversos modelos de como podemos resistir aos ataques de alguém como Trump.

Comecei com Bartleby, O Escrivão, em que o protagonista responde, de vez em quando, com frase emblemática “preferiria não fazê-lo”, toda vez que seu patrão, um advogado de Wall Street, lhe pede para realizar uma tarefa normal para qualquer empregado. Essa obstinada recusa em cooperar com o sistema dominante é tão radical que Bartleby não só é despedido e fica sem um teto, mas morre de fome na prisão por não pagar suas dívidas.

O protesto passivo desse personagem enigmático, que Melville concebeu como um manifesto contra a literatura comercial da sua época, pode nos servir na era de Trump como um possível grito de guerra, uma convocação para uma rebelião pacífica e ao mesmo tempo vigorosa contra o abuso do poder. Basta imaginar que as cidades e igrejas, de San Francisco a Nova York, quando recebem ordens para não dar amparo aos imigrantes ilegais, declarem que “prefeririam não fazê-lo”. E essa frase pode se tornar uma bandeira de luta dos ativistas indígenas contra a violação de suas terras tribais, de professores e alunos diante do assalto à educação pública, de funcionários públicos contra os que lhes pedem para trair a Constituição, de cidadãos que não estão dispostos a que se envenene o ar e a água, um “não” coletivo firme e decidido, embora sempre calmo. O fato de Bertleby nunca mostrar “inquietação, cólera, impaciência ou impertinência” desarma seu patrão, diminui sua agressividade.

Não podemos esperar uma reação dócil similar da parte de Trump. Sua tendência autoritária e a personalidade agressiva o levarão inevitavelmente a reprimir de modo violento os questionamentos de suas políticas. Neste caso, serão os juízes dos Estados Unidos que devem proteger os cidadãos e reprimir os ataques belicosos desse presidente enganador.

Herman Melville contemplou em um outro romance curto os dilemas daqueles que administram a justiça em tempos turbulentos e refratários. Billy Budd, neste sentido, é sua obra mais perturbadora, e alguns leitores deverão se lembrar por causa de um filme de 1962 em que Terence Stamp, estreando no cinema, interpretou um marinheiro tão belo que parecia um anjo caído do céu. A beleza e a bondade do jovem, cujo único defeito era uma gagueira paralisante, suscitam a inveja e o rancor de Claggart, mestre de armas encarregado de manter a disciplina nessa embarcação de sua Majestade Britânica. Claggart, que Melville descreve como de uma perversidade quase metafísica, acusa Billy de organizar um motim e este, frustrado por não conseguir se expressar por causa da mudez, reage com os punhos, desfechando um golpe mortífero em seu acusador.

Vere, capitão do navio, que tem um carinho paternal por Billy, sabe que o rapaz não é culpado e que deveriam ser levadas em conta circunstâncias atenuantes para julgar o homicídio acidental. Mas tendo de mostrar que tem controle total sobre seu pessoal em uma época de sedição e revoltas, ele acaba manipulando os oficiais para que condenem Billy Budd à morte. E para isto (e Melville se empenha em qualificar Vere como um homem honrado, valente e culto) o capitão tem de trair sua própria consciência, impor um sacrifício para atender ao que considera ser a lei superior da guerra e a razão de Estado. O anjo tem de morrer enforcado em um mastro.

Se Melville denuncia a força abusiva de Claggart e lhe dói como o Capitão Vere degrada a humanidade exercendo uma violência estatal e judiciária (esperemos que os magistrados dos Estados Unidos saibam defender as vítimas desses assaltos do governo), o que mais o atinge é o crime cometido por Billy Budd. Por que o marinheiro respondeu à injustiça com a virulência de um golpe, por que se deixou subjugar pelo que existe de selvagem e bárbaro em sua alma? Poderíamos explicar que a própria crença de Billy na bondade de seus semelhantes o deixou indefeso, mal preparado para reconhecer e enfrentar a vileza; ou seja, foi demasiado inocente, justamente como os passageiros enganados pelo embusteiro em The Confidence Man, como os tripulantes do Pequod que, a caminho da perdição, não conseguem deter o enlouquecido capital Ahab.

O olhar mais profundo de Melville sobre a relação caótica entre inocência e violência se reflete num outro romance curto, Benito Cereno, publicado em 1856, pouco antes de ser lançado The Confidence Man (ou O Vigarista) e se baseou em um fato real que ocorreu em 1805 nas costas do Chile, não muito distante de onde comecei a reler a história. Um grupo de escravos se apropriou de um barco espanhol, massacrando a maioria dos brancos a bordo, incluindo tripulação e passageiros, e obrigou o capitão Cereno a levá-lo para um país africano. Melville viu nessa história verdadeira uma oportunidade de mostrar a seus compatriotas complacentes o tipo de desenlace sangrento que os esperava se a escravidão não fosse abolida. 

Tenham cuidado, advertia Melville. Quando os escravos se rebelarem, utilizando os únicos meios ferozes a seu alcance, copiarão a crueldade dos seus senhores, e irão impor inevitavelmente o terror para atingir seus objetivos. É a ameaça que paira sobre toda revolução implacável. 

O genial é que durante quase todo o romance essa revolta é ocultada do leitor, que presencia a situação a bordo do barco sequestrado através dos olhos de Assa Delano, um capitão de Boston que vem resgatar o que acredita ser um navio a ponto de soçobrar, mas onde a eterna ordem social de senhores e lacaios parece não ter sido alterada. Ocorre que os insurretos armaram uma farsa para o capitão norte-americano, um espetáculo onde os escravos fingem ser submissos e Benito Cereno finge mandar em seus subordinados. O capitão de Boston, dominado por preconceitos raciais não pode imaginar que as hierarquias tenham desmoronado, muito menos que os negros sejam tão inteligentes e sutis para encenar uma ficção tão elaborada e perfeita. Sua cegueira diante da existência da maldade deriva do fato de que ele também é cúmplice, sem perceber, daquela maldade.

Assa Delano vem a ser, portanto, mais um dos protagonistas que povoam a literatura de Melville, contaminados por uma aterradora ingenuidade. Os heróis de Melville são enganados porque se enganam a si mesmos. É o que sucede com os passageiros do barco em O Vigarista, com o patrão de Bartleby, com a tripulação do Pequod, com o capitão Vere e com o desafortunado Billy Budd.

Relendo estas obras de ficção nos desastrosos tempos de Trump, o que me chamou a atenção foi o número de eleitores nos Estados Unidos - e me incluo entre eles - que não acreditaram na possibilidade de a malevolência e a mentira triunfarem. Supor que nesse país havia suficientes homens e mulheres decentes que rechaçariam esse futuro infame foi uma cegueira insana. Tanto otimismo, imaginar que a pátria de Lincoln é demasiadamente boa, excepcional e maravilhosa para cometer esse erro fatal, deveria ser considerado uma falta grave, quase um pecado.

O fato de ler Melville no Chile acrescenta a este meu julgamento severo uma certa ironia histórica, pois nós chilenos também ficamos cegos à realidade história à nossa frente e também não despertamos a tempo. Quando embarcamos na revolução pacífica de Allende em 1970, proclamamos que nosso país era diferente do resto da América Latina, que nossas instituições democráticas eram tão fortes e duradouras que nenhuma sublevação militar teria êxito. Não imaginamos que existia alguém como Pinochet num mundo muito perigoso.

Claro que, estando no Chile, foi fundamental ler as obras de Melville a partir da resistência que opusemos à ditadura, já que, com a paciência obcecada de Bartleby, a audácia angelical de Billy Budd e a valentia dos escravos revoltados, vencemos os Claggart do Chile. 

A população dos Estados Unidos será capaz de algo semelhante?

Deixo a última palavra para Melville: “tento tudo; alcanço o que posso”. /Tradução de Terezinha Martino

*Ariel Dorfman é autor do livro A Morte e a Donzela e Allegro

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