Edu Simões
Edu Simões

Lugar incomum

"Venho da escola humanista e documental do fotojornalismo. Produzir estes ensaios sobre grandes escritores brasileiros me ajudou a fazer a passagem para a fotografia autoral"

Entrevista com

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2015 | 16h00

Sentado em seu charmoso escritório paulistano, um casarão do começo do século 20 que pertenceu ao seu bisavô, Edu Simões fala do maior terror de um fotógrafo: “É fazer uma imagem clichê, repetir o que já foi fotografado à exaustão”. Foi diante deste terror que ele partiu, em 2001, para fotografar o Rio de Janeiro do escritor Carlos Heitor Cony para os Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles. “No Rio, pra onde você aponta a câmera tem um lugar-comum. É quase impossível escapar”, ele continua. “A minha sorte é que eu tive bons guias”, brinca, referindo-se aos autores tratados nos Cadernos que nasceram ou viveram na cidade.

Simões fotografou para todas as 27 edições, até 2012. Produziu retratos dos escritores e imagens dos lugares de suas biografias, seus contos, poemas e romances. Foi um marco e uma transformação na carreira de fotojornalista iniciada aos 20 anos. Agora, aos 59, Simões separou seis daqueles ensaios para compor a exposição Clichê/Rio, em cartaz a partir de 13 de julho em São Paulo. Serão 36 fotografias sobre o universo de Cony, Clarice Lispector, Rubem Braga, Machado de Assis, Millôr Fernandes e Carlos Drummond de Andrade. A seguir, o fotógrafo conta como, tentando escapar do terror, mudou a própria trajetória profissional.

Este Rio que você reapresenta, tirado do contexto dos Cadernos de Literatura, passa a ser mais seu do que dos escritores?

Sempre foi bastante meu desde o início. A relação das fotos com os escritores é absolutamente subjetiva. Antes de ir ao Rio fotografar eu me embebia da obra e da biografia deles. Lia anotando pontos geográficos, diálogos, personagens. Só depois de processar tudo isso eu saía para buscar as fotografias que, na minha interpretação, teriam a ver com o escritor da vez. Os livros funcionavam como roteiro, um GPS. Para cada escritor, eu passava até 20 dias no Rio andando e procurando imagens. Como as fotos foram publicadas sem legendas, sou o único capaz de dizer o que cada uma tem a ver com o escritor.

Elefante e Clarice Lispector, por exemplo.

Fui impactado pelo conto O Búfalo, no qual uma mulher traída vai ao Jardim Zoológico querendo se identificar com a animalidade de algum bicho. Ela queria sentir ódio. Então fui ao Jardim Zoológico. Não tinha búfalo lá, mas tinha o elefante, também citado pela Clarice no conto.

É mais fácil ver o Cony no pedalinho de cisne na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou o Millôr na onda estourando na praia. Mas onde está o Machado de Assis na escadaria de dragões? 

No caso do Cony, além da Lagoa, a foto carrega algo meio sinistro, mórbido. É por causa do romance Pilatos, em que o camarada circula com o próprio pênis amputado dentro de um vidro de compota. O Millôr, sim: era o cara da praia, do frescobol, da leveza. Para as fotos do Machado eu quis ver o que o Rio mantinha de século 19. Fui andar na Gamboa, um bairro da zona portuária que aparece em Quincas Borba. Encontrei um prédio imponente, o Centro Cultural José Bonifácio. Entrei e lá estava aquela escadaria maravilhosa.

Falta falar de Drummond e Rubem Braga.

O Rubem Braga foi o que me deu o roteiro mais preciso. Nas crônicas, ele sempre cita nomes de ruas e edifícios. Esse poder de descrição me conduziu à Central do Brasil. Fui de carro e estacionei neste lugar que tinha uns cavalinhos esculpidos na parede. Tinha uma luz bonita, juntei com a minha fascinação por representação de animais e fiz a foto. É Rubem Braga? É, porque foi ele que me levou lá. Mas sou eu também, porque a foto só passa a existir por causa das minhas pequenas obsessões. O Drummond difere bem dos demais. Ele seria o último Cadernos. Eu já tinha feito tantos, já tinha tentado fugir tanto dos clichês do Rio, que decidi me render aos cartões postais: Ponte Rio-Niterói, Cristo Redentor, Pão de Açúcar e à arquitetura modernista da cidade. O Drummond era um poeta modernista e trabalhou num grande símbolo modernista, o Edifício Gustavo Capanema, do Niemeyer, que foi sede do Ministério da Educação. No hall de entrada vi uma mesa diante da parede de vidro. Só faltava o próprio Drummond burocrata do serviço público sentado atrás dela.

Como esse trabalho mudou sua fotografia? 

Eu venho do fotojornalismo. Me fiz fotógrafo inspirado na escola humanista e documental da Magnum, de Cartier-Bresson, Robert Capa. Produzir estes ensaios sobre grandes escritores brasileiros me ajudou a fazer a passagem para a fotografia autoral. Foi quando me dei conta de que, para contar uma história, eu não preciso alinhavá-la objetivamente. Mas eu só percebi isso no Cadernos número 8, dedicado à Hilda Hilst. Antes dele eu fotografava com câmera de 35 milímetros, usada por fotojornalistas. Aí passei a usar também uma Hasselblad, de médio formato, e tudo mudou. A fotografia passou a ser mais subjetiva para mim, o que modernizou e tornou meu trabalho mais contemporâneo.

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