Köz Film
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Luta contra o Estado Islâmico e migração enriquecem cinema curdo

Crescimento na produção cinematográfica chama a atenção do mundo para a etnia de 40 milhões de pessoas

The Economist

02 Dezembro 2017 | 16h00

Quando Zaradasht Ahmed, diretor de nacionalidade curda e norueguesa, começou as filmagens de um documentário de guerra, um processo complicado que durou mais de cinco anos o aguardava. Nowhere to Hide, de 2016, o relato de um enfermeiro trabalhando e criando uma família no Iraque, foi produzido por Ahmed em colaboração com o próprio enfermeiro, Nori Sharif. Vivendo na perigosa zona de Jalawla, Sharif teve acesso a pessoas e lugares que organizações e jornalistas não conseguem entrar. Ahmed ensinou-o a filmar e o documentário no final seguiu uma direção totalmente nova.

Embora a ajuda dos curdos para derrotar o Estado Islâmico tenha chamado a atenção do mundo para essa população de 40 milhões de pessoas espalhadas pela Turquia, Síria, Iraque e Irã, pouco se sabe sobre sua produção cultural. Durante décadas os políticos tornaram impossível a produção de filmes: a língua curda foi banida, a pobreza é generalizada e a guerra civil opondo curdos e iraquianos durou toda a década de 1990.

Mas nos últimos anos, em Erbil, maior cidade da região autônoma curda no Iraque, um renascimento cultural promovido pelos cidadãos e pelo Estado vem estimulando a produção cinematográfica. Segundo a Artrole, organização internacional que tem por objetivo facilitar as relações culturais com o Oriente Médio, a ausência de uma infraestrutura de apoio às artes na região resultou em iniciativas lideradas por artistas e grupos de pessoas que se organizaram para esse fim. Por outro lado, o Governo Regional do Curdistão vem procurando situar Erbil como um destino regional: por meio de um projeto conjunto levado a cabo por iraquianos e libaneses foram abertas 14 novas salas de cinema na cidade em 2013, que, em 2014, foi nomeada a Capital Árabe do Turismo. Essas iniciativas levaram ao surgimento de novos cineastas produzindo filmes e documentários de baixo orçamento.

Os produtores de cinema têm um pequeno, embora memorável, legado para explorar. Yilmaz Güney lançou as bases na década de 1980. Seu filme The Road (O Caminho) de 1982, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, é um filme poético e realista que retrata as adversidades no sudeste da Turquia. Bahman Ghobadi, que foi assistente do diretor iraniano Abbas Kiarostami, fez economias para produzir o primeiro filme em língua curda, A Time for Drunken Horses (2000). Jano Rosebian vendeu equipamentos de produção para o Ministério da Cultura Iraquiano para financiar seu filme Chaplin of the Mountains. Todas são histórias da vida quotidiana e de crianças chegando à idade adulta.

Hoje os cineastas curdos estão mais voltados para os conflitos passados e presentes. 14 July (2017) dirigido por Hasim Aydemir, é uma narrativa emocionante e edificante de uma greve de fome de prisioneiros curdos em 1980. O documentário Resistance is Life (2017) se passa num campo de refugiados na fronteira entre Síria e Turquia e acompanha uma menina de oito anos de idade que idolatra as combatentes curdas que lutam contra o Estado Islâmico. Esses filmes tendem a mostrar figuras ambíguas como mártires e é direto, sem sutilezas, quando mostra eventos complicados. 

São os artistas curdos da diáspora global que vêm produzindo novos trabalhos mais empolgantes e variados. Muitos têm dupla cidadania, cresceram tendo acesso a uma escola de cinema, equipamentos digitais mais baratos e contatos internacionais. O financiamento fornecido por empresas de produção com sede na Alemanha, Turquia e Holanda e também por instituições culturais europeias, não está sujeito às circunstâncias as mais variadas em seu país natal. O quinto Festival Internacional de Cinema de Duhok – “uma ponte entre a produção cinematográfica curda e cineastas do mundo inteiro – tem o apoio do Instituto Goethe e da organização Cinema for Peace.

Não há heróis ou soluções claras na inquietante produção cinematográfica iraquiano-curda. A Dream Before Dying (2017), que acompanha um técnico em desativação de bombas que trabalha para os aliados contra o Estado Islâmico oferece um retrato vivo do custo psicológico da guerra. A produção curdo-holandesa Radio Kobani (2017) não tem nenhum patriotismo, mas muito amor; o filme destaca o heroísmo de uma jovem curda que monta uma estação de rádio na devastada cidade síria, onde os moradores sobreviventes podem expressar suas opiniões e sentimentos.

Muitos desses trabalhos falam da busca por um retorno e evocam questões sobre o que é pertencer a um país. Beyond Drems (2017) dirigido por Rojda Sekersoz, de nacionalidade sueca e curda, foi aclamado no festival. O filme narra a história de Mirja, jovem curda que tenta refazer sua vida em Estocolmo depois de um tempo na prisão. Zer (2017) é o relato da viagem de um homem, de Nova York ao interior do Curdistão, para retraçar a história de sua avó.

O controvertido referendo pela independência realizado pelos curdos seguido pelo trágico conflito envolvendo Kirkuk, gerou muita incerteza. A instabilidade na região poderá muito bem deter esse renascimento do cinema. Mas os retrocessos persistem quando os curdos tentam se expressar culturalmente. Mais pessoas emigrando e encontrando uma diáspora produtiva permitirá que mais vozes curdas sejam ouvidas. E vale a pena prestar atenção ao que elas dizem. /Tradução de Terezinha Martino 

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