Maçãs russas

Maçãs russas

Entrevista com

Iatã Cannabrava

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00

Foi só depois de se casar com uma russa e ter um filho meio brasileiro meio russo que o fotógrafo Iatã Cannabrava, de 52 anos, decidiu voltar às fotos que fez há quase 30 em Moscou, então na União Soviética. No marco dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, que, assim como o colapso da URSS significou o fim da Guerra Fria, as fotos vêm à tona pela primeira vez no livro e na exposição Pagode Russo. 

Como na música de Luiz Gonzaga que dá nome à obra, a Moscou retratada por Cannabrava em 1985 “parecia até um frevo naquele cai não cai”. Do lado de dentro da cortina de ferro, o fotógrafo viu mais sorrisos do que imaginava e uma ingenuidade (dele, inclusive) que parecia não fazer sentido. Onde esperava rostos frios e paisagens duras, reencontrou a imagem de um general de sua infância que repartia maças. E daí partiu em busca de si mesmo.

Por que voltar às fotos tanto tempo depois?

O importante não é como você vive as coisas, mas o efeito que elas têm sobre você. Eu nasci em 1962, saí do Brasil para o exílio com meus pais aos 6 anos e só voltei com 18. Morei na Bolívia, no Peru, em Cuba e no Panamá. Sou filho de exilados e me exilei. Isso faz parte de mim. Não posso reinventar o que vivi, mas posso reinventar as histórias que conto. Então, acho que esperei para que essa viagem à União Soviética fosse reinventada dentro de mim de uma forma mais bonita e saudável. Tem humor e muita ressignificação nela. Precisei estar casado, feliz, com um filho lindo e em paz comigo para rever o que foi minha vida na militância política. Foi o tempo necessário para resgatar minha história, digeri-la, entender esse exílio e me sentir finalmente bem aqui. 

O que você foi fazer na URSS em 1985?

Participar do Encontro Mundial da Juventude Democrática, organizado de tempos em tempos como congraçamento da esquerda do mundo. Em 1978 aconteceu em Cuba e vários brasileiros foram pra lá em plena ditadura. Em 1985 teve esse na URSS, com umas 20 mil pessoas. Do Brasil foi uma delegação de artistas, jovens e militantes de partidos políticos. Tinha de tudo: PMDB, PCdoB... Estavam lá Martinho da Vila, Débora Bloch, Dominguinhos, Silvio Tendler, vários artistas. Eu era da juventude socialista do PDT do Brizola. Lá em Moscou me colocavam em reuniões com a juventude comunista da Bulgária. Não aguentei. Eu ia ficar maluco... 

Fugiu?

Saí pelas ruas fotografando. A câmera, meu mecanismo de inserção no mundo, me salvou. De repente todo mundo diante da minha lente estava superaberto para ser fotografado. Não existia aquela imagem fria e dura que faziam da União Soviética. Foi o primeiro ensaio solitário da minha vida. Um passeio despretensioso por Moscou. Era uma novidade tão grande estar do outro lado da cortina de ferro que eu não soube bem como lidar. Lá mesmo me veio à cabeça uma memória um pouco difusa da minha infância no Peru. Um dia eu e meu irmão saímos para passear com um senhor da embaixada soviética e os dois filhos dele. Na minha cabeça de criança, a URSS, assim como as pessoas de lá, era o tal lugar frio, duro. Só que aquele senhor tinha duas maçãs e nós éramos quatro pessoas. Ele pegou as frutas e partiu ao meio. Era um homem forte, fardado, mas doce ao mesmo tempo. E anos depois, fotografando nas ruas de Moscou, aquela imagem me voltou à cabeça. 

E o que essas fotos podem nos dizer hoje?

Gostaria que elas servissem de alerta. Vivíamos em um momento de grande tensão. Mais ou menos como acabamos de ver na nossa eleição presidencial: certa histeria coletiva e perigosa. Acho que o livro tem uma mensagem política e um significado especial: às vésperas da queda do Muro de Berlim pensava-se que sem o muro e sem a cortina de ferro haveria guerra civil. Não houve. Precisamos olhar com esses olhos: tudo tem saída e o caos não vencerá. Não é possível que o mundo não possa se ajeitar de outras formas que não seja a guerra. Quem decidiu agora dividir o Brasil e inventou que há áreas do PT e áreas do PSDB? Não é binário e tão separado assim. Isso é muito pobre, pequeno para a riqueza do ser humano.

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