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Finbarr O'Reilly/Reuters

Maior músico erudito polonês vem a São Paulo em setembro

Krzysztof Penderecki, 83 anos, foi popularizado por suas trilhas sonoras compostas para o cinema

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João Marcos Coelho ,
Colaboração para o Estado de S. Paulo

04 Março 2017 | 16h00

“Esplêndido isolamento” é um termo recorrente quando se pensa na música dos países europeus periféricos, como os eslavos e os nórdicos, em relação ao eixo central da criação no continente, basicamente de fala alemã. Para ficar no século 20, a expressão foi usada por Milan Kundera para qualificar a originalidade da música do checo Leos Janacek (1854-1928), provavelmente a partir da declaração do vizinho polonês Karol Szymanowski (1882-1937), numa entrevista de 1922. Depois de passar os cinco anos da 1ª Guerra Mundial enfurnado no interior de seu país, Karol fala do novo sentimento geral de liberdade entre os compositores não-alemães. “É um protesto contra o que era e não é mais essencial para nós hoje. Esta base aparentemente negativa transformou-se em totalmente positiva para a composição sob certas condições.” Em seu domínio de vários séculos, iniciado no século 17, os alemães ditavam uma “estética obrigatória”: “Nada fora dos encantados limites da psique alemã e de seu mundo emocional merecia vida, tudo tinha que ser completamente exterminado”. 

O maestro e compositor também polonês Krzysztof Penderecki (pronuncia-se Penderétzki), 83 anos, que vai reger a Osesp em três concertos imperdíveis na Sala São Paulo em setembro, é um dos criadores musicais não-alemães mais influentes da atualidade. Não por acaso, ele escolheu o Concerto para Violino Opus 35, de Szymanowski, que terá como solista a excepcional Isabelle Faust. A obra, de 1916, não soa como concerto. Não há a oposição temática tipicamente germânica que dramatiza o discurso musical, nele tudo aparenta mais uma balada, tamanha a liberdade formal. A relação entre violino e orquestra é de troca, fusão, e não de conflito. Em seguida, o compositor rege duas de suas obras que nasceram por encomenda mas evidenciam bem sua cartilha estética atual, tecida com um neotonalismo que não descarta suas pesquisas mais radicais de décadas passadas. Enriquece desta maneira uma música que ao mesmo tempo soa acessível e – por que não dizer? – bela, muito bela e comovente. Jamais banalizante. É o caso do Hino a São Daniel, para coro misto e orquestra de sopros e contrabaixos, escrito em 1997 por encomenda da TV Russa para comemoração dos 850 anos de Moscou. É amostra de sua religiosidade, expressa desde os tempos do papa polonês João Paulo II, entre 1978 e 2005, em muitas peças, das quais sobressai o gigantesco Réquiem Polonês, sua obra sacra magna. A Lacrimosa foi dedicada a Lech Walesa e estreada em 1984 no estaleiro de Gdansk, na cerimônia de inauguração de uma escultura lembrando os mortos do massacre de 1970. Encerrará o concerto a Sinfonia no. 4, na verdade um mahleriano e monumental adagio, que nasceu como encomenda e estreou em Paris, durante os festejos dos 200 anos da Revolução Francesa, em 1989.

Desde 1971, Penderecki acrescentou a regência a suas atividades. Isso o tem levado ao mundo inteiro, conduzindo execuções de sua música. Também facilitou o exercício de uma liberdade criativa consistente. Fez música para o cinema, apresentou-se em concertos e gravou com músicos pop como Jonny Greenwood, do Radiohead. Os cáusticos chamam isso de jogo de cintura e/ou oportunismo. Mas Penderecki não precisaria de nada disso. Esta característica labiríntica está no seu DNA desde o momento em que, adolescente e estudante de violino em Varsóvia, decidiu que seria compositor. 

Formação. O jovem violinista e professor de música polonês de 25 anos transformou-se na maior novidade do ano de 1958 na Europa. Inscreveu-se num concurso de composição em Varsóvia. Os resultados foram surpreendentes: com pseudônimos diferentes, Penderecki ganhou os três primeiros lugares. Salmos de Davi, para coro misto e percussão; Emanações, para duas orquestras de cordas; e Estrofes, para soprano, locutor e 10 instrumentos. Na primeira, ecos claros da rítmica de Stravinski e da estrutura formal de Schoenberg; Emanações já praticava uma constelação de harmonias, em que o toque moderno é a dissonância permanente provocada pela afinação diferente das orquestras: uma meio tom acima da outra. A terceira, mais arrojada, deglute influências de seu então guru francês Pierre Boulez (1925-2016): versos e falas dos profetas bíblicos Isaías e Jeremias misturados com os do poeta persa Omar Khayam (século 12), na linha “Como pode ser belo o ser humano, se for humano”.

Imediatamente algumas portas da vanguarda se abriram para ele, como o Festival de Outono de Varsóvia. Agora, mais conhecido, entretanto, já tinha de lidar com a pressão ideológica, causada pelo domínio soviético no pós-guerra. Em 1960, a vanguarda mais radical era apenas tolerada nos países sob órbita soviética. Por isso, quando escreveu uma peça radical para 52 instrumentos de cordas, o compositor, então com 28 anos, chamou-a de 8’53’’, ou seja, 8 minutos e 53 segundos, o tempo que ela dura. A recepção foi extremamente hostil, inclusive dos músicos, que não sabiam lidar com uma partitura que não tinha notas, mas media a duração de cada som por segundos/minutos. “Minha ideia foi fazer as cordas soarem como instrumentos de percussão e de sopros”, disse ele na época. Mas, rápido no gatilho ideológico, Penderecki escolheu um título que faz qualquer ser humano chorar e ao mesmo agradava aos soviéticos porque denunciava os EUA pelo lançamento da bomba atômica que pôs fim à 2ª Guerra Mundial. Mudou o título para Trenodia (música fúnebre) para as Vítimas de Hiroshima. O fracasso virou sucesso instantâneo. 

Somente depois da queda do regime comunista na Polônia, Penderecki revelou que a peça publicada como Trenodia havia sido concebida com título neutro – e como 8’53” foi rejeitada pelos editores. Evidentemente, ele colocou o título apelativo para agradar ao governo. Cínico? Oportunista? O musicólogo Richard Taruskin, especialista em música russa, suaviza o gesto de Penderecki aproximando-o das canalhices que Shostakovich foi obrigado a assumir para sobreviver no regime stalinista. “Ele soube como driblar o aparato burocrático repressivo e ainda conquistou uma vitória simbólica sobre a autoridade e a opressão”.

De fato, já livre da pressão política em seu país e com prestígio internacional plenamente consolidado, Penderecki jogou uma pá de cal, detonando de vez qualquer vinculação possível com as vanguardas mais radicais em 1992, numa de suas raras entrevistas: “Jamais me interessei pelo som e pela forma apenas em si. Isso me salvou da doença da vanguarda”. Não era factoide. Ele queimou mesmo quaisquer pontes com a vanguarda. Na verdade, Penderecki jamais deixou de rezar por uma cartilha muito pessoal. A da criação artística como um bendito e inclusivo labirinto. 

A imagem do labirinto mantém seu fascínio desde a Antiguidade. Sobretudo entre os artistas. Um pouco porque a angústia da criação assemelha-se à situação do Minotauro, condenado a vagar sem rumo pelo Labirinto de Creta, segundo a mitologia grega. Gostaríamos que o caminho fosse reto, linear. Mas ele é tortuoso, obriga a desvios, alcança becos sem saída e nos leva a retornar.

De certo modo, é esta a situação da música contemporânea. Chamamos música contemporânea às músicas de invenção desde o início do século 20, quando a arte dos sons, certinha desde séculos graças aos princípios tonais, desorganizou-se por completo pela ação libertadora de Arnold Schoenberg e seus discípulos. O público afastou-se; os compositores se encastelaram em pesquisas abstratas. O divórcio inevitável só se acentuou no pós-guerra de 1945 em diante. De um lado, as pesquisas de música eletrônica de Stockhausen e Boulez; de outro, o aleatório e o improviso regados às estéticas orientais de John Cage.

Foi neste caldeirão mais ou menos esotérico que Penderecki preferiu “desprezar os louros de ser um artista de vanguarda, tornou-se um artista criativo”, escreve seu biógrafo Ludwik Erhardt: “A vanguarda jamais o perdoou por isso”. 

É este o motivo pelo qual são escassas as publicações e livros sobre ele. Apesar de ser um compositor fundamental para o nosso tempo. Está em todas as mídias, dos cinemas às igrejas e às salas de concerto no mundo inteiro. Até flerta com músicos pop. 

Mas não é nada disso que você está pensando. Os concertos que juntaram Penderecki com Jonny Greenwood, do Radiohead, em 2012, foram sensacionais e resultaram num incrível CD da Nonesuch. Penderecki cultiva acima de tudo a máxima “é preciso ser verdadeiro consigo mesmo”. Ele pinça a palavra “labirinto” do poeta e escritor polonês Czeslaw Milosz (1911-2004) em texto sobre a condição geral da humanidade, em particular os artistas. “Estamos num labirinto – entramos nele de várias maneiras, saímos e retornamos com uma ideia muito vaga de nosso objetivo.”

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