Maioridade

Entrevista com

Antonio Saggese

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2014 | 16h00

O paulistano Antonio Saggese fotografou pôsteres de mulheres nuas em paredes de oficinas mecânicas, fotografou serralherias, fotografou ex-votos e lápides de cemitérios. Fotos quase sempre ácidas e indigestas. Agora, aos 64 anos, diz, procura a beleza. Abusa das novas tecnologias para produzir as imagens que ele diz serem de sua “terceira idade” fotográfica, mas talvez ficasse melhor “maioridade fotográfica”. Assim nasceu o trabalho Pittoresco, no sentido de aquilo que merece ser pintado. Nome italiano, mas cujo resultado remete à tranquilidade da arte japonesa. Suas imagens de árvores e carpas lembram em certa medida as xilogravuras de Katsushika Hokusai, que pintou a grande onda de Kanagawa. Na toada de experimentar e experimentar, o artista-fotógrafo está trabalhando agora em filmetes de um ou dois minutos que tem chamado de fotografia cinética, projeto contemplado pela Bolsa Marc Ferrez de fotografia. Arquiteto de formação, professor e fotógrafo tarimbado de moda e publicidade, Saggese propõe uma nova reflexão sobre a própria obra.

O que você busca fotografar?

Aquilo que não se vê. Há algum tempo ainda se discutia se fotografia era uma representação do real ou não, mas essa discussão hoje está superada. Fotografia não é aquilo e pronto, mas sim uma construção da realidade. Com as câmeras digitais e a visualização imediata da imagem que produzo praticamente consigo controlar o invisível. Dialogo com meu trabalho em tempo real. Faço o ajuste miúdo ao vivo. Esse contato quente e direto com o trabalho é fundamental no meu processo. Assim, o que busco fotografar é a epifania dentro de mim. Procuro imagens que tenham mistério, para as quais as pessoas olhem e não se entreguem facilmente. A beleza muitas vezes está no mistério.

No mistério da natureza...

Não sou fotógrafo de natureza, não estou atrás do sapinho que está em vias de extinção. Estou atrás da beleza de determinados lugares. E olha, ela não precisa estar longe. Já viajei muito para fotografar, mas também fiz fotos incríveis de nuvens sobre a Avenida Rebouças, em São Paulo. A beleza está em todo lugar para quem se dispõe a vê-la. 

Como a técnica mudou o foco da sua produção artística?

Essas novas tecnologias criam vínculos novos, mas, paradoxalmente, visualidades mais arcaicas e menos correntes. Alguma coisa meio oriental até, pré-fotográfica e de tradições não europeias. O recurso infravermelho que uso cria espacialidades diferentes. O formato das imagens é igualmente novo, as fotos não são mais proporções do 10 x 15 tradicional. E isso também é mais oriental. Gosto de navegar por essa liberdade toda. 

Você se sente satisfeito com o resultado alcançado nesse ‘novo’?

Minhas imagens não são uma janela para o mundo. A janela é um vazio e a fotografia é o cheio, uma construção de sentidos. Desenvolvi no processo de impressão uma pesquisa muito rigorosa. Por anos tentei dar sentido à saída da imagem do computador e do suporte digital. Imprimi em telas metálicas, em papéis especiais... A impressora, pintando, faz uma fotografia ou uma pintura, afinal? Por isso o nome da série, Pittoresco. Retiro as referências de lugar criando uma imagem que fala por si, que provoca e cria questionamentos e dúvidas. Tentei fazer algo contrário às fotos de natureza produzidas nos últimos tempos, que não criam mais o mesmo arrebatamento de antes. Com o novo, volto ao velho. Não cristalizando conceitos, mas tentando resgatar a fascinação daquilo que não podemos nomear e entender por completo. Fundo minha natureza em volumes, linhas e formas. Pessoalmente, é tudo novo. Foram dez anos de muitas tentativas, testes em técnicas e formatos diferentes. A câmera que uso para obter o efeito infravermelho, por exemplo, é uma câmera “hackeada”, toda mudada por um sujeito no Arkansas, Estados Unidos. Ele tirou um filtro da frente do sensor digital para que as imagens pudessem ser capturadas assim. Depois de muita experimentação, um dia tudo se encaixou. O trabalho engatou e apontou direções. Considero fundamental o artista conversar com ele mesmo. A sinceridade que sai disso alimenta e é seu verdadeiro êxito. 

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