Luís Simione
Luís Simione

Mais uma de Amyr

Uma rádio pirata? Uma antena para falar com ET? Um templo religioso? Não. É uma geodésica, a nova onda do navegador

Felipe Mortara, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2015 | 16h00

A estrutura elíptica, toda em hastes de alumínio, ganha forma sob o domo da Oca, no Parque Ibirapuera. E, apesar de estável, a construção balança. A cinco metros do chão, difícil negar o medo, mesmo usando equipamento de segurança. Há algum prazer moto-contínuo - terapêutico até - na atividade quase repetitiva de construir uma geodésica. A poucos metros de mim, Amyr Klink também atarraxa, com porcas e ruelas, varetas de alumínio de quinze tamanhos diferentes. Sem cinto de segurança. Com certa dureza nos movimentos, Klink desce a largas passadas de sua obra de arte matemática, de 14 metros de diâmetro por 9,18 metros de altura. E de complexidade inédita no Brasil.

A obra é parte da exibição Invento - As Revoluções que nos Inventaram, a ser inaugurada na quarta-feira, dia 5, apresentando algumas das principais invenções dos últimos 150 anos sob a ótica de 30 artistas contemporâneos. E, antes que você pergunte, ele mesmo já responde: “Pra nada, a geodésica não serve pra nada”. Acostumou-se a recitar o bordão há cinco anos, desde que pariu sua primeira semiesfera no quintal de casa, causando furor no bairro paulistano de Moema.

Da vizinhança, majoritariamente idosa, as perguntas saltavam do “pra que serve?” ao “vai cobrir com o quê?”, passando pelo “vai inaugurar quando?”. Monástico, aprendeu a enunciar. “É uma escultura matemática, uma peça filosófica e física, seguindo um modelo do Fuller.” Sobre Fuller falaremos mais pra frente. Primeiro, ao bafafá. 

À primeira vista, a esposa, Marina Bandeira Klink, não foi muito com a cara da antagonista metálica. “Lá da rua as pessoas gritavam ‘Epcot Centeeeer’ (famoso domo geodésico erguido na Disney World, em Orlando). Fiquei apavorada, não dormia. Não gosto de chamar atenção”, recorda ela, diante da obra quase concluída na Oca. 

No auge do burburinho, calhou de dona Ana Francesca, sogra de Amyr, sacanear um repórter afirmando se tratar de “uma antena que meu sobrinho tá fazendo pra falar com a sonda em Marte”. Uma representante da associação de amigos do bairro acionou a fiscalização da Anatel contra rádios piratas. Chegando lá, os fiscais gargalharam. A Prefeitura, por sua vez, não embargou por se tratar de uma obra vazada, não configurando construção. “Teve abaixo-assinado, acharam até que era templo religioso”, diz Marina, rindo hoje de tudo isso. 

Demorou pouco até pipocarem os primeiros admiradores. “Uma semana depois me ligou um cara perguntando se era uma geodésica do Fuller. Eu disse que sim, ele me perguntou se eu venderia. Sequer havia pensado nisso. Chutei um preço lá na lua, tipo uns US$ 90 mil, e ele topou”, recorda Amyr. O lucro da primeira geodésica se transformou em mais alumínio forjado, mais tubos, mais parafusos, mais bolachas de metal e uma nova geodésica no jardim dos Klinks.

Após dar uma carona para Amyr dois anos atrás, Takashi Nishimura, proprietário de uma empresa de grande porte especializada em plásticos moldáveis e antigo parceiro de projetos do navegador, se encantou com a geodésica. Depois das perguntas de sempre, Takashi quis saber se a obra estava à venda. Afeiçoado ao novo xodó no jardim, Amyr ofereceu os mapas para que o amigo fizesse a sua própria, em plástico injetado. “Calculei o preço do quilo do alumínio em dólar e ele disse: ‘muito caro, né?’. Depois de um tempo ele me liga: ‘oh, Amyr, Takashi vai comprar geodésica, mais fácil, né?’”. Cada tubo custa R$ 220. A que foi montada na Oca, por exemplo, é composta por 1.220 tubos, ou seja, chega-se à soma de R$ 268.400. 

Há quase dois anos, funcionários de Takashi, um deles engenheiro, percorreram 479 quilômetros desde a sede, em Pompeia, para acompanhar a desmontagem no quintal. Até agora, a traquitana não ganhou forma no interior paulista. Aos 75 anos, seu Takashi vem passando o controle do negócio aos filhos, que o impediram de montar a engenhoca onde pretendia, na entrada da empresa. Seu Takashi explica: “Sempre olhei aquilo como algo moderno e bonito. Colocaremos em cima do centro de desenvolvimento de produtos que vamos construir.” 

Apesar das vendas, esses quebra-cabeças de gente grande continuam sendo um hobby para Amyr. “Se fechar as contas, já tá ótimo”, diz, embora afirme ter um produto de alta qualidade e competitivo no mercado internacional. As dores de cabeça do dia a dia vêm da rotina como empresário da área náutica (é dono de uma marina com mais de 300 barcos em Paraty), como palestrante (cobra em torno de R$ 23 mil por palestra) e como autor. Seus cinco livros já venderam juntos mais de 1 milhão de exemplares, e ele é muito cobrado para lançar outros, inclusive domesticamente, por Marina. “Escrever é um processo complicado, que me afasta do que eu gosto de fazer, ou seja, montar geodésica, fazer barco experimental, erguer estaleiro no meio do mato. Fazer livro é um troço que eu levo a sério, mas tenho que ficar um ano enclausurado. De preferência, num lugar feio.” 

Voltemos à Oca. E ao Fuller. Digo, a Richard Buckminster Fuller, ou Bucky, como se autodenominava o homem calvo, de óculos de aro grosso, nascido em Massachusetts em 1895. Sua fama veio com as carcaças geodésicas, mas o autodidata americano concebeu de um tudo - de carro a filosofia própria - quase como Amyr Klink, declarado admirador de seu espírito idealista e prático e homem igualmente difícil de rotular. Amyr já pilotou no rali Paris-Dakar, navegou o Rio Tietê, desenhou muito barco, plantou muita árvore e voou muito de trike (espécie de ultraleve) por esse Brasilzão - sem contar as já sabidas façanhas marítimas. E, depois de devorar toda a literatura fulleriana possível, Amyr meteu a mão na massa. Ou melhor, no alumínio. 

Em tempo: no Dia dos Pais do ano passado, imaginando-se no frescor dos 20 anos, Amyr se atirou de uma árvore em direção à geodésica de 9 metros, quando ela ainda dominava o quintal. Quebrou os dois ombros, passou por cirurgia e ainda lembra dos sobrinhos gritando “tio Amyr morreu, tio Amyr morreu!”

Curador da mostra Invento, Marcello Dantas idealizou as estruturas de Fuller reinterpretadas by Amyr Klink ao lado de nomes como Andy Warhol, Guto Lacaz e o dinamarquês Olafur Eliasson, outro amante de geodésicas. Além da que estava em seu quintal até duas semanas atrás, Amyr edificou mais duas semiesferas menores, com “apenas” 4 metros de altura e 5 de diâmetro. E, convenhamos, a própria Oca é uma espécie afim. “É um delírio do Niemeyer para a tecnologia dos anos 50, no mesmo momento em que o Fuller estava criando as geodésicas dele. Achei que precisávamos evidenciar a natureza inovadora do edifício dentro dele mesmo e explicitar essa relação.” 

No mundo das geodésicas, a frequência funciona como indicador de sofisticação das peças. “É a distância de um pentágono até o próximo, isto é, o número de braços entre os seis pentágonos totais”, explica Amyr, com paciência de Jó. Quanto maior a frequência, maior a complexidade da estrutura e dos cálculos e maior a chance de a execução dar errado. A maior montada na Oca tem 1.104 metros cúbicos e frequência 8, a mais cabeluda já construída no Brasil, segundo o próprio Amyr. Cada tubo tem tamanho certinho, com precisão miúda, que varia de 752 a 1.080 milímetros. E olha que essa geodésica é composta de 1.220 barras de alumínio de15 diferentes tamanhos, ordenados alfabeticamente. 

Uma loucura para produzir, outra para organizar e encaixar, conferir passo a passo. Uma vareta errada lá atrás e volta-se tudo, desparafusando uma a uma. O pesadelo de todo construtor de geodésica é a bicha não fechar no fim. Mas a montagem é uma grande farra, uma espécie de produção coletiva da macarronada do domingo. “Sobe fox delta sobre eco”, exclama Leonel Brites, “66 anos com corpinho de 70”, parceiro antigo de Amyr, enquanto iça dois tubos pré-encaixados de tamanho F e D para serem atarraxados sobre um tubo de comprimento E. Leonel, balonista, ex-alpinista e dono de uma empresa de projetos especiais, se diz expert em doidos e suas manias. “Tenho a capacidade de atrair todos os loucos num raio de 2 mil quilômetros. Sempre tem um maluco me achando”, conta ele, que elaborou as pontas cegas de aço inox e resolveu vários problemas pontuais com a armação. 

Outro lá em cima é Igor Alexandre Souza, de 34 anos, sócio de Amyr nas geodésicas e em todos os projetos excêntricos. O engenheiro elétrico que comprou o Paratii 1, Paratizinho para os íntimos, ajudou nos cálculos das adaptações dos ângulos das teorias de Fuller, que demandariam mais de 30 tamanhos de varetas, e não 15. “Usamos chapa de alumínio de 1,2 centímetro, tudo muito exagerado, porque gostamos de criar coisas fortes e duráveis. É uma peça de 2 mil quilos em cujo centro dá para pendurar 12 toneladas”, afirma. A resistência foi testada no ano passado, quando Igor ajudou Amyr a suspender dentro do domo o I.A.T., o pequeno barco a remo usado em sua travessia solitária do Atlântico em 1984, narrada em Cem Dias entre Céu e Mar

Engana-se quem acha que o lobo do mar, à beira dos 60 anos, trocou as ondas por esculturas matemáticas de alumínio. “Pelo amor de Deus, isso (a geodésica) não é a razão da minha vida. É só uma das experiências de que eu gosto, na qual acontece esse processo de pensar e fazer, começar num papel, num cálculo, que depois termina num negócio que você executa fisicamente”, explica. 

Após visitar no mês passado a Art Basel, na Suíça, uma das maiores exibições de arte contemporânea do mundo, ele sabe bem o que não quer para as suas obras. “O que mais me incomodou lá foi que na maioria das peças estava escrito ‘please, do not touch or step’. O que eu gosto na geodésica é que ela é uma instalação feita pra você tocar, subir, escalar. Vire os tubos, ponha as mãos, conte eles. O toque é o que eu acho legal. Ou a peça consome esse espaço para oferecer uma experiência em troca ou é o tipo de arte que eu odeio.” Por isso mandou fazer plaquinhas “toque e suba” para pôr em sua obra na Oca. “A graça da brincadeira é essa. Como fazer para ninguém me processar se despencar de lá de cima, eu ainda não sei. Vou consultar uma boa banca de advogados.”

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