George Kraychyk/Hulu
George Kraychyk/Hulu

Margaret Atwood comenta a 1ª temporada de 'The Handmaid's Tale'

Escritora canadense é autora de 'O Conto da Aia', que inspirou seriado do Hulu, e fala sobre embasamento histórico do romance

Jennifer Vineyard, The New York Times

24 Junho 2017 | 16h00

A regra que Margaret Atwood se impôs ao escrever The Handmaid’s Tale era que tudo tinha que se basear em algum antecedente do mundo real. E ela conseguiu combinar eventos históricos díspares de maneiras plausíveis – e horríveis.

A adaptação para TV da produtora e plataforma de streaming Hulu para seu romance faz o mesmo; mesmo quando a série expande o mundo estabelecido no romance e acrescenta cenas que não estavam no material original, elas “poderiam ter estado, porque têm precedentes”, disse Atwood numa entrevista telefônica. Antes do encerramento da Temporada 1, na quarta-feira, Atwood explicou a base histórica do livro e os elementos mais desconcertantes do programa.

Episódio 1: Vestuário com cores coordenadas

As mulheres de Gilead usam roupas e cores prescritas por seu status na sociedade: vermelha para criadas, azul para esposas, verde para Marthas, marrons para tias. “Organizar pessoas segundo o que elas estão vestindo – quem devera vestir o quê e quando, quem tem de cobrir o quê – é uma vocação humana muito, muito, muito, muito antiga”, disse Atwood. Ela data do primeiro código legal conhecido, o Código de Hamurabi, que estipulava que “somente damas aristocráticas podiam usar véus”, acrescentou.

“Se você fosse apanhada usando um véu e fosse, na verdade, uma escrava, a pena era a execução”, prosseguiu Atwood. “Significava que você estava pretendendo ser alguém que não era.”

O traje da criada vem de diversas fontes (toucas e véus vitorianos, toucas de freiras). A viagem de Atwood ao Afeganistão em 1978 – onde ela usou um chador – foi também uma influência. “Eles não o estavam impondo a todas as pessoas, àquela altura”, explicou. “Começaram a impor mais tarde.” Todos esses códigos de vestuário – incluindo as estrelas amarelas para judeus e triângulos cor de rosa para gays no Terceiro Reich – eram maneiras de “identificar pessoas, de controlar pessoas”, disse Atwood. “É fácil ver de imediato quem é aquela pessoa.” A cor atribuída à criada, vermelha, foi usada pelo Canadá para seus prisioneiros de guerra, acrescentou a autora, “que tinham o privilég io de a usar porque ela se destaca muito bem na neve”.

O vermelho é emprestado também da iconografia cristã de fins da era medieval e início da Renascença, disse a autora, em que “a Virgem Maria inevitavelmente vestia azul e azul-esverdeado, e Maria Madalena trajava inevitavelmente vermelho”.

Episódio 2: Gravidez forçada

Temos um vislumbre de como os fins justificam os meios em Gilead quando Janine dá à luz e não consegue aceitar a realidade de que não poderá ficar com a criança. “Há uma porção de utopias e distopias baseadas em economia, mas esta vai à raiz absoluta, que é quantos filhos você vai ter”, disse Atwood. “E como você vai tê-las? Em algumas culturas, não é preciso fazer leis especiais a esse respeito. Em outras, porém, é preciso oprimir para obter os resultados que se quer.”

Tiranos e ditadores como Adolf Hitler e Nicolae Ceausescu ditaram,  com frequência, os termos de fertilidade e criminalizaram quem não os obedecesse. “Não foi por acaso que Napoleão proibiu o aborto”, disse Atwood. “Ele disse exatamente por que queria crianças – para bucha de canhão. Adorável!”

Um truque adicional,  é claro, é que as criadas não estão sendo apenas obrigadas a dar à luz, ela estão sendo obrigadas a ser substitutas e as crianças que elas geram são retiradas à força delas e entregues a funcionários de alto escalão. Após uma junta militar assumir o poder na Argentina, em 1976, até 500 bebês e recém-nascidos foram “desaparecidos” para serem adotados por casais de militares e policiais. Centenas de milhares de crianças de populações indígenas no Canadá e na Austrália foram separadas de suas famílias.

“Deve ter sido público já que não era um segredo, mas também não era conhecido na época”, disse Atwood. “Ninguém registrou que isto estava acontecendo. E a coisa foi apresentada provavelmente como se as crianças estivessem recebendo uma maravilhosa oportunidade, já que elas estavam frequentando a escola. Percebe como isso podia soar?”

Episódio 4: Declarar mulheres estéreis

Não é questionado inicialmente na série por que as mulheres seriam usadas para resolver os problemas de fertilidade do período – até Offred visitar um médico que se ofereceu para ajudá-la. Ocorre que a República de Gilead nunca considerou a outra metade da equação: os homens.

“Há certa confusão a esse respeito, porque temos Tia Lydia dizendo que são as esposas que são estéreis”, disse Atwood. “E durante séculos e séculos, era assim que as pessoas pensavam. Elas achavam que a culpa era da mulher.” O rei Henrique VIII ficava trocando de esposas (e a religião do Estado), observou Atwood, acrescentando: “É por isso que Ana Bolena sabia que estava condenada quando teve o aborto, A ideia era que o filho estava totalmente formado dentro da semente do homem, e esta semente era simplesmente plantada na mulher, tal como se planta uma semente no campo.”

Um livro intitulado Eve’s Seed: Biology, the Sexes, and the Course of History ( A semente de Eva: biologia, os sexos e o curso da história) de Robert S. McElvaine é esclarecedor neste âmbito, disse ela. “Dizia-se que um pedaço de terra era estéril, dizia-se que uma mulher era estéril. Dizia-se que um pedaço de terra era fértil. Dizia-se que uma mulher era fértil.”

Na série, o médico sabe que não é assim. Serena Joy também quando decide que Offred deve usar Nick. “Esta é uma das coisas de que Ana Bolena foi acusada – fazer sexo com seu irmão para produzir um filho”, disse Atwood.

Episódio 6: O embaixador mexicano

 “A equipe do Hulu fez sua Offred mais ativa que a minha Offred”, disse Atwood. “Em parte porque é uma série de televisão, e em parte porque é uma série de televisão americana.” Offred jamais teria sido capaz  de se erguer sozinha ou pedir ajuda a um emissário estrangeiro no romance. A visita da delegação comercial mexicana não ocorre no livro. Há uma cena no romance em que Offred encontra alguns turistas japoneses, que ela supõe que sejam representantes comerciais, mas ela não consegue honestamente responder sua pergunta aguda. “Você  é feliz?” Na série, porém, Offred se abre com o embaixador Castillo quando tem a oportunidade – e descobre uma maneira de enviar uma nota para o mundo exterior.

Atwood disse que embaixadores de países neutros com frequência agiram como correios. Na 2ª Guerra Mundial, um jornalista italiano chamado Curzio Malaparte reportava da Frente Oriental, e descobriu uma maneira levar para fora as notícias do que os alemães realmente pretendiam fazer. “Ele estava mantendo aqueles papéis costurados em seu casaco e nas solas de seus sapatos e contrabandeou-os para fora por meio de diplomatas de países neutros”, disse Atwood. “É preciso confiar muito na pessoa para fazer isso!”

Episódio 8: O clube do mercado negro

Offred se reúne com Moira no Jezebel, um bordel onde homens poderosos vão para realizar negócios e se comprazer em sexo ilícito e outras escapadas. É também um próspero mercado negro para os plebeus, e mais importante, para a resistência Mayday, Atwood disse que estava relendo um livro de Norman Lewis, Naples ’44, que descreve o mercado negro que era tolerado pelos Aliados em Nápoles, Itália, durante a 2.ª Guerra “porque eles estavam ajudando a tocá-lo!”

“Tudo isso é tão antigo”, ela prosseguiu, “mercados negros, clubes especiais com produtos que não se consegue em outras partes, informações trocadas por canais subterrâneos.”

Na edição especial em áudio de The Handmaid’s Tale, os ouvintes ficaram sabendo que há, de fato, uma cadeia de bordéis Jezebel, alguns com campos de golfe. “Porque, evidentemente, mulheres não poderiam mais jogar golfe”, disse ela. “Esta tem sido uma queixa de mulheres políticas, que todos esses acordos especiais e conversações e entendimentos secretos são costurados em clubes de golfe, e se você não joga golfe, você está simplesmente fora.”

Episódio 9: A resistência Mayday

Atwood fez uma grande pesquisa sobre os movimentos de resistência de vários países durante a 2.ª Guerra. Um de seus velhos amigos, já falecido, foi membro da Resistência francesa, e ele foi lançado de paraquedas por trás das linhas inimigas para ajudar a direcionar aviadores britânicos abatidos para fora da França. “Seu trabalho era entrevistá-los para se assegurar que eles eram realmente britânicos e não alemães se fingindo de britânicos para revelar as linhas de comunicação clandestinas”, disse ela. “Assim eles eram perguntados de onde eram, resultados de futebol, coisas assim, e se você achasse que eles eram realmente alemães, eles eram abatidos. Assim mesmo.”

Ela também se encontrou com membros de movimentos de resistência polonês e holandês. “As pessoas que eu conheci, é claro, foram as que conseguiram sobreviver”, disse Atwood. “Muitas não conseguiram.” Como evidência, ela citou os membros da White Rose, que foram apanhados distribuindo papéis antinazistas e executados, e as espiãs britânicas que às vezes faziam as vezes de assassinas. Usar agentes femininos, disse Atwood, tem sido uma tática empregada por movimentos de resistência e extremistas islâmicos, e os uniformes de criadas as tornam especialmente adequadas para manter segredos. “Observe só todos os lugares onde se poderiam esconder coisas!” ela disse, rindo. “Mangas grandes! Enfiadas em suas meias. Ninguém vai olhar.”/Tradução de Celso Paciornik

O Conto da Aia

Autora: Margaret Atwood

Tradução: Ana Deiró

Editora: Rocco

368 páginas

R$ 44,50

 

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