REPRODUÇÃO
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Marketing de época

Lema que marido de Marcela foi buscar na bandeira nacional já era conservador quando proclamaram a República

Sérgio Rodrigues, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2016 | 17h46

No dia 8 de setembro de 1892, o Jornal do Brasil atacou em termos inflamados a bandeira do Brasil, que naquele momento era uma criança de nem três anos completos. Pregando a substituição do pavilhão nacional – não fica claro se pela versão da bandeira dos Estados Unidos em verde e amarelo que tinha sido adotada brevemente, sob as graças de Rui Barbosa, nos primeiros dias da República –, o jornal carioca argumentava que o estandarte em cujo centro se inscreve o lema “Ordem e Progresso” havia sido proposto “por um grupo sectário, insignificante, diminutíssimo em número, medíocre em valor social, antipático ao País e sem apoio nele”. Um grupo que, para piorar, tinha “por chefe invisível um decrépito filósofo francês”. O jornal se referia aos positivistas e ao pensador Augusto Comte (1798-1857), autor da máxima da qual extraímos as palavras que cortam o disco azul estrelado envolvido pelo losango amarelo no centro do retângulo verde: “O amor como princípio e a ordem como base; o progresso como meta”. (Como se vê, do tripé positivista da sociedade ideal, não encontramos vaga para o amor.)

A história de nossa bandeira republicana e das resistências que ela encontrou está contada pelo historiador José Murilo de Carvalho em seu livro A Formação das Almas: o Imaginário da República no Brasil (Companhia das Letras), de 1990. É curioso reler o que ele diz à luz da adoção de “Ordem e progresso” como lema do governo Michel Temer, sacada atribuída ao marqueteiro Elsinho Mouco e anunciada entre as primeiras medidas do presidente interino na última quinta-feira, antes mesmo da divulgação do ministério. Não é que a divisa contrabandeada para dentro da bandeira em fins do século 19 por aquela “curiosa raça de pensadores que foram os positivistas”, sob a liderança de Benjamin Constant e diante do olhar sempre desconfiado de Deodoro da Fonseca, soe hoje, quase 130 anos depois, de um conservadorismo marcante. Ela já era conservadora no momento de sua adoção. 

Mistura inusitada de escola filosófica e religião, a “Religião da Humanidade”, o positivismo fez grande sucesso no Brasil. Pregava um despotismo esclarecido que combinava bem com um país de “bestializados” (palavra que dá título ao mais famoso livro de Carvalho sobre o tema), em que a transição da monarquia para a república foi feita por uma pequena elite militar e civil diante da indiferença de uma população ignorante, que a tudo assistiu boquiaberta e sem nada entender. “Progresso e ditadura” é, textualmente, o que o historiador lê por trás das palavrinhas que por lei devem ser escritas sempre em verde e sem serifa, no centro do carnaval cromático e geométrico da bandeira. Não é à toa que os governos militares inaugurados pelo golpe de 1964 tinham tanto apreço por elas.

O mesmo José Murilo de Carvalho nos ensina que os positivistas brasileiros, sendo apenas uma das forças políticas reunidas no confuso núcleo proclamador da República, foram os maiores propagandistas do novo regime, líderes da luta “pelo coração e pela cabeça dos cidadãos, por meio da batalha dos símbolos”. Se a importância da propaganda política já era bem conhecida no Brasil do século 19, seria ingenuidade supor que Temer tenha derrapado por descuido no conservadorismo extremo da marca que escolheu para seu governo tampão. Mesmo assim, chama a atenção que entre seus primeiros atos seja tão escancarado o desprezo por um mínimo aceno progressista. Não se trata só do slogan comtiano. Tomando posse em meio a uma grita – parcial, mas estridente – de “golpe”, é notável que o substituto da primeira mulher presidente da República não tenha se dado ao trabalho de escalar uma única mulher no ministério. Constando entre as acusações mais marteladas a Dilma Rousseff a suspeita de ter nomeado Lula para protegê-lo da operação Lava Jato, é impressionante que Temer conceda foro privilegiado numa única canetada a sete investigados pela República de Curitiba.

Claro que existe uma diferença entre símbolo e substância. O inepto governo Dilma é um bom exemplo da exploração de signos vazios que sustenta grande parte do marketing político – do cinismo do slogan “Pátria Educadora”, lançado sobre a realidade de nossa catástrofe educacional, ao marco do feminismo encarnado por uma presidente em cuja gestão o abismo salarial entre homens e mulheres só fez crescer. Em sentido inverso, pode-se admitir em tese que a extinção do Ministério da Cultura, agora embutido no da Educação, não indique necessariamente a desvalorização míope de uma das indústrias que mais crescem no mundo interconectado e para a qual o Brasil tem evidente vocação. No entanto, quando se sabe que havia entre as amigas e correspondentes de Augusto Comte uma pensadora brasileira chamada Nísia Floresta (1810-1885), pioneira do feminismo tupiniquim e autora do livro Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, é difícil evitar um pensamento menos absurdo do que parece: o de que o marido de Marcela Temer precisaria progredir um bocado para se tornar o que o pai do positivismo foi – um homem em sintonia com o século 19.

SÉRGIO RODRIGUES É JORNALISTA, CRÍTICO LITERÁRIO E ESCRITOR, AUTOR DO ROMANCE O DRIBLE (COMPANHIA DAS LETRAS)

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