Bobby Yip/Reuters
Bobby Yip/Reuters

Relatório da feira holandesa Tefaf destaca privacidade no mercado de arte

Setor movimentou 45 bilhões de dólares em 2016 e o anonimato nunca foi tão utilizado como atualmente

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 Março 2017 | 16h00

Privacidade rima com opacidade financeira. É, de longe, a palavra mais repetida hoje entre os protagonistas do mercado internacional de arte. Pelo menos foi o que concluiu a especialista e professora de economia Rachel A. J. Pownall, da Universidade de Maastricht (Holanda), responsável por um relatório encomendado pela Tefaf Maastricht, a mais concorrida feira de arte da Europa, que completou 30 anos em 2017 e terminou no domingo passado. O Aliás teve acesso exclusivo ao relatório, que tenta explicar, segundo ela, a razão da queda nas vendas de obras em leilões, tanto nos EUA como no Reino Unido: os compradores, diz a professora, estão fugindo dos holofotes públicos das casas de leilão para proteger o anonimato nas transações.

O sigilo virou, enfim, um elemento fundamental no mercado de arte, que, apesar dos solavancos econômicos, cresceu em 2016, segundo o relatório. O total global de vendas de obras de arte no ano passado (incluindo os mercados americano, europeu e asiático) atingiu US$ 45 bilhões, 1,7% a mais que o registrado no ano anterior. Desse total, US$ 16,9 bilhões correspondem a obras vendidas em leilão (contra US$ 21 bilhões registrados em 2015). O que significa isso? Entre outras coisas, como observou ao jornal The New York Times um membro da diretoria do Basel Institute of Governance, Thomas Christ, que “o mercado de arte é o espaço ideal para lavar dinheiro”, insistindo em maior transparência nas transações, no que é acompanhado pelo desembargador federal Fausto Martin De Sanctis, autor de vários livros sobre lavagem de dinheiro.

As transações ilícitas cresceram tanto que a Christie’s, uma das principais casas de leilão do mundo, anunciou há alguns dias uma política mais rigorosa, exigindo que os intermediários das vendas informem agora o nome do real proprietário da obra. No Brasil, comerciantes e leiloeiros são obrigados por lei a se cadastrar junto ao governo e reportar casos de clientes que se recusem a fornecer dados sobre obras que pretendem vender. Com o objetivo de coibir a lavagem de dinheiro por meio do mercado, o Iphan baixou uma portaria que obriga galeristas e leiloeiros a manter um histórico das vendas, passando a assumir uma responsabilidade que era do Conselho de Controle de Atividades Financeiras desde 1998, ano da Lei 9.613, que dispõe sobre crimes de lavagem de dinheiro.

O relatório da Tefaf de Maastricht nem cita o Brasil, cujas vendas para o mercado externo são insignificantes perto dos países asiáticos, onde o mercado de leilões continua forte, respondendo por 40,5% das vendas globais, acompanhado de perto pelas transações em plataformas digitais – a Artsy, por exemplo, registrou um crescimento de 120% no ano passado, indicando, mais uma vez, a busca por opacidade num mercado em que permanecer anônimo e ter acesso a informações privilegiadas facilitou a ascensão da figura do “art dealer”, que está pavimentando a estrada de novos colecionadores, em detrimento das casas de leilão. Os pequenos ‘art dealers’, segundo o relatório da Tefaf, registraram as maiores taxas de crescimento em relação aos negociantes tradicionais de arte (galerias, casas de leilão).

Os EUA continuam a liderar a importação de obras de arte (45% das obras vendidas no globo). Mas a Europa ainda é o maior mercado de arte no mundo, em termos de vendas por meio de leilões (US$ 5,2 bilhões, menos da metade do total de US$ 14,2 bilhões em 2016). As galerias comerciais são financeiramente mais saudáveis que as americanas, conclui o relatório da Tefaf, mas, numa era de volatilidade política no continente europeu, é difícil prever como esse mercado irá se comportar num futuro próximo.

Certo é que as casas de leilão europeias continuam a atrair muitos compradores asiáticos, como comprovou o recente leilão da Sotheby’s de Londres, no começo de março, quando foi vendida a tela Bauerngarten (1907), de Gustav Klimt, por US$ 59,3 milhões, recorde para uma obra do pintor austríaco e a terceira mais cara vendida desde junho do ano passado na Europa – Picasso à frente, vendido por US$ 63,5 milhões, isso quando 2016 registrou um colapso nas vendas em leilões do Reino Unido (que detém a fatia de 65% desse mercado no continente europeu).

Ainda segundo o relatório da Tefaf, embora o panorama londrino não seja tão assustador como o norte-americano – especialmente para a arte contemporânea – o mercado de leilões está longe dos seus dias de glória. Em 2016, os colecionadores preferiram voltar sua atenção para os ‘art dealers’ e, aconselhados por eles, deixaram de lado estrelas da arte pop e contemporânea americana (Andy Warhol, Jeff Koons) para comprar artistas como Alberto Burri (US$ 13 milhões), Jenny Saville (US$ 9 milhões) e Adrian Ghenie (US$ 8 milhões).

Acabar com o anonimato das transações no mercado de arte, contudo, pode constituir, segundo argumentam alguns, uma invasão de privacidade (e os leiloeiros estão entre os que defendem essa tese). Muitos colecionadores e museus querem se desfazer de parte de seus acervos sem provocar alarde. A auto-regulação do mercado é ainda a saída para evitar a imposição de normas para galeristas e leiloeiros, dizem os especialistas, que enxergam na ascensão dos ‘art dealers’ – desobrigados a divulgar vendas ou preços, ao contrário das casas de leilão – um sintoma de uma doença que só não atinge os que usam obras de arte para lavar dinheiro, de traficantes a terroristas, passando por desonestos banqueiros. Contudo, também eles se dão mal. Suas coleções, muitas delas suspeitas, por vezes acabam nas paredes de museus como indenização à sociedade pelos crimes que cometeram, como lembra o desembargador Fausto De Sanctis.

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