REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO

Milagre ao revés

Esperança e desilusão na fugaz visita de um papa a uma cidade esquecida da América Latina

Aldyr Garcia Schlee, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 16h00

Quando soube - em 1988! - que o papa João Paulo II vinha ao Uruguai, não acreditei. Perguntava-me: como, por quê, para quê? E, como quase todos os meus conterrâneos de Jaguarão (do lado de cá da ponte sobre o rio de mesmo nome) e como todos os meus conterrâneos de Río Branco (do lado de lá dessa ponte), sentia-me, além de incrédulo, perplexo.

Afinal, só uns 10% dos uruguaios professavam a fé católica. Naquele (eu diria sempre neste) país laico, no país de Artigas - onde “nada tenemos que esperar sino de nosotros mismos” -, não seria de admitir que houvesse razão para a visita papal. Mas o papa, a religião e, particularmente, a Igreja têm suas próprias (e desconhecidas) razões.

Agora, viaja pela América do Sul o papa Francisco: foi ao Equador, à Bolívia e está, hoje, no Paraguai. O papa Francisco não é o papa João Paulo II: é sorridente, jovial e argentino; o outro era sério, casmurro e polaco.

Karol Józef Wojtyla, o polonês, tinha 68 anos quando esteve em Melo, pequena cidade uruguaia a 60 quilômetros da fronteira com o Brasil. Veio e, mal acabou a missa, se foi. Mesmo que eu não o tenha visto (porque preferi tratá-lo literariamente como fruto da minha imaginação, e não da minha memória), pude perceber que, desde o anúncio da viagem, desde a confirmação da hora de sua chegada e do tempo de sua estada, o que se viu e sentiu em Melo não foi a sua presença, mas a sua ausência, na fugacidade da expectativa criada, resumida em resignada esperança e em contido desejo de fazer cada um o seu mínimo e próprio milagre por conta do Papa e da movimentação gerada pela vinda dele à cidade, com a multidão de visitantes que estariam necessitados de comida, bebida e tudo o mais.

Era na vinda do papa que se gerava a possibilidade do milagre, por conta da venda do pouco que se tornasse disponível em casa, no quintal, na rua... e que fosse capaz de render o suficiente para se ter um pouco mais, algo como açúcar para tomar mate doce, massa para encher a barriga e farinha para fazer tortas fritas em dia de chuva.

Pois foi tudo tão rápido e inesperado como um milagre; mas um milagre ao revés: quando se viu, o que se queria que acontecesse, o que tinha que acontecer, o que era certo que aconteceria não aconteceu; e logo, logo já não dava mais para acontecer. O papa veio e se foi: e pronto! Ele havia sido um retrato na parede, uma faixa na rua, o homem que passava rápido, acenando entre agentes de segurança e motociclistas.

Quando mal se chegava a pensar numa ajuda dele, já se tinha ido embora. Mal chegara a aflorar uma esperança no que seria o júbilo dos deserdados, o regozijo dos esquecidos, ele já se fora; e todos se foram. Na esplanada vazia, onde se rezara a missa, ficou a terra vermelha e pisoteada, cheia de lixo barato.

Afinal, a diocese de Melo estava e está na região mais pobre do Uruguai, a das arrozeiras de Treinta y Tres, produtoras de uma das riquezas uruguaias, em campos ocupados pela miséria, reunindo os trabalhadores mais explorados do país, que ainda vivem em condições sub-humanas e que já não têm mais no que acreditar porque, depois de acreditar em tudo, acabam acreditando em nada.

Francisco vem em missão evangelizadora (“atrair aqueles que se sentem longe de Deus e da Igreja”), acha que não faz proselitismo (o proselitismo é uma caricatura da evangelização, afirma). Ele dispôs-se a ouvir o quéchua, está ouvindo o guarani, está tratando de religar-se, na língua que for, como não poderia deixar de ser.

Embora tenhamos na dita América Latina quase a metade dos católicos do mundo, não precisamos de números porcentuais para saber que ganhos têm tido na Bolívia, no Paraguai e em toda a América do Sul as prolíferas igrejas evangélicas.

Para que se entenda, contudo, por que não fui ver o papa em 1988 - e tenha apenas seguido os passos de sua memória, em Melo, uma semana depois -, digo que, a par de minha perplexidade ante a vinda dele, houve um dia, em 1910, muito anterior ao meu nascimento, que nos marcou a vida, na fronteira, como se fôssemos de uma terra só, despertados para um momento de confiança, uma possibilidade de certeza.

Um dia aconteceu tudo do lado de lá; mas foi como se acontecesse do lado de cá. Desde então crescemos todos, sobre os dois lados da linha divisória, sabendo que lá havia conquistas a preservar e, quem sabe, a alcançar aqui - como quando foi aprovada a lei do divórcio, aboliu-se a pena de morte, se pôde retirar dos recintos públicos as imagens religiosas. Ou quando diminuiu-se para oito horas diárias a jornada de trabalho, criaram-se as pensões por velhice e assegurou-se a gratuidade do ensino.

De 1910 até o golpe militar dos anos 70, o Uruguai nacionalizara os serviços bancários, ferroviários, portuários e a produção de combustíveis e energia. Foram uma, duas, três gerações que se criaram por aí, na fronteira, e que se acostumaram, por aqui, com tudo isso - e, daqui, não deixaram de invejar essas coisas, inclusive as conquistas do futebol uruguaio, com os títulos olímpicos (de 1924 e 1928) e os campeonatos mundiais (de 1930 e 1950). Mas o que nos marcou a todos, mesmo, foi sabermos sempre que éramos gente boa e cumpridora sem sermos homens de religião e que, por essa singela razão, não sabíamos atinar por que o papa João Paulo II vinha a Melo.

ALDYR GARCIA SCHLEE É ESCRITOR E TRADUTOR. ENTRE OUTROS LIVROS, ESCREVEU O DIA EM QUE O PAPA FOI A MELO (MERCADO ABERTO), QUE INSPIROU O FILME O BANHEIRO DO PAPA

Mais conteúdo sobre:
papa uruguai américa latina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.