Molecagens do coração

É tiro certeiro, mas nem sempre mata, embora traiçoeiro e covarde. Ataca a todo momento, na primeira curva do destino ou no meio das sombras e do silêncio da noite porque costuma ser sutil e selvagem. Foi assim com Jair Rodrigues, o nosso Senhor Sorriso, e com José Wilker. Sem esquecer Luciano do Valle, que ainda teve tempo de fazer uma breve viagem de São Paulo para o interior de Minas.

RAIMUNDO CARRERO, RAIMUNDO CARRERO É ESCRITOR, AUTOR DE , AS SOMBRIAS RUÍNAS DA ALMA (PRÊMIO , JABUTI/2000), A MINHA ALMA É IRMÃ DE DEUS, , (PRÊMIO SÃO PAULO/2010), PRÊMIO , MACHADO DE ASSIS/2009), O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h21

O enfarte do miocárdio - este palavrão imenso - costuma repetir, sem poesia e sem graça, o verso da canção de Johnny Alf: "O inesperado faça uma surpresa". No meu caso, porém, investiu no verso de Maiakovski: "Comigo a anatomia enlouqueceu". Descobri que meu coração é no estômago, em meio a cogumelos e lírios malignos, para repetir também a metáfora de Gabriel García Márquez na breve novela Ninguém Escreve ao Coronel. Ou seja, é assim que Gabo mostra ao leitor ingênuo que o coronel sente cólicas.

Começa aí a loucura da minha anatomia, porque senti cólicas durante algumas horas até o diagnóstico de enfarte e UTI. Não tenha dúvida, foi inesperado, e mais ainda uma surpresa. Acordei pela manhã já me contorcendo de dores. A doutora Marilena de Castro, não por acaso minha mulher, levou-me logo a um hospital, onde fiz muitos exames, entre eles uma sempre chata, deselegante e invasiva endoscopia. Medicado, voltei para casa e as dores continuaram. À tarde, a doutora sentenciou: "Vamos ao Procárdio, você está enfartando".

Comecei a rir e lhe disse que estava enlouquecendo. Troquei de roupa e obedeci, palavra de mulher é terrível e não se deve colocar em questão. Disse e está dito. Obedeça. Tive tempo, ainda, de correr a uma loja de conveniência - que ela chama de casa da necessidade - para beber uma cerveja. Não deu tempo. As dores aumentaram e tive de correr. O homenzinho da portaria que, claro, era um médico, tirou minha pressão, 15/10, e me fez muitas perguntas. "Vou precisar de um exame de sangue", acrescentou. Logo depois veio o diagnóstico definitivo, confirmando a convicção do meu anjo da guarda: "O senhor está enfartando, troque de roupa" - deu-me um desses aventais clássicos de hospital em que o paciente mais se parece com um morto, inteiramente indecente, com a bunda de fora - "e siga com o enfermeiro para a UTI". Mas é tão grave assim? "Por favor, siga o enfermeiro." Agora já não era estigma de mulher, eram palavras de vida ou morte. Tudo inesperado e surpreso: nunca tivera problemas cardíacos, na minha família não havia notícias de enfarte e só nas ocasiões indicadas consultara um cardiologista. Já na UTI revelei a Marilena: eu já stava apostando um jantar como seu diagnóstico era loucura. "E você com estas cólica ainda quer jantar?" Não só jantar, quero tomar uma cervejinha.

- Quem é seu médico?, perguntou o enfermeiro.

- Não tenho médico, minha saúde é de ferro.

- Estou vendo.

Pouco depois, o mesmo enfermeiro deu-me um conselho: num hospital, nunca diga que não tem médico porque você passa a ser doente sem dono. Sem questionar, lembrei-me imediatamente do meu amigo e escritor, professor da Universidade Federal de Pernambuco, meu colega da Academia Pernambucana de Letras, o competentíssimo doutor Rostand Paraíso. Pronunciei o seu nome e tudo mudou. Os dirigentes do hospital, plantonistas e et ceteras tinham sido, no mínimo, alunos do dr. Rotand. Fui cercado de cuidados exagerados e comunicado, imediatamente, que se faria um cateterismo comigo para confirmar as qualidades e os defeitos do meu coração. O Procárdio engalanou-se e senti muito orgulho do meu amigo.

Ainda assim, eu estava confuso. Muito confuso. Perguntava-me por que não sentira as dores convencionais no braço esquerdo ou no peito, nem manchara minha pele com o suor dos doentes. Fora tudo no estômago. Logo no estômago, que me deixa o fim de semana sem minha cerveja e minha gorda peixada pernambucana em Olinda.

Comecei ali mesmo a me programar para outra vida, ainda por aqui, na terra, mas não cumpri nada. Continuei trabalhando feito um louco, bebendo uma garrafa de uísque por dia, e bebendo, bebendo, bebendo. Desconheci os clamores do meu corpo e logo depois tive de fazer uma cirurgia de garganta. Fui ainda uma ou duas vezes atendido de urgência em hospitais. Nunca me conscientizei de que era um homem de mais de 60 anos e me sentia um garoto, mesmo quando estava completamente exausto. Viajava frequentemente, dava palestras, fazia conferência, escrevia e escrevia, parecia um louco em busca de doenças. Em luta renhida comigo mesmo.

Em seguida, e sempre em seguida - muita gente imagina que isso é apenas uma frase solta, absolutamente literária - tive um AVC, o conhecido Acidente Vascular Cerebral, e aí a natureza não enlouqueceu: meu cérebro é mesmo na cabeça, embora os meus críticos não acreditem.

Aos 75 anos, o cantor Jair Rodrigues morre de enfarte em sua casa, em Cotia (SP). O músico não sofria de nenhuma doença grave, de acordo com um check-up realizado cerca de três meses antes, e tinha na agenda uma série de shows confirmados até o fim de julho.

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