Flávio Ricardo Vassoler
Flávio Ricardo Vassoler

Mongólia tem 30% de sua população vivendo como nômades

A 'Trilogia Transiberiana', após descobrir o bairro pequinês que resiste à especulação imobiliária, revela a cultura milenar das estepes mongóis

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estado

23 Setembro 2017 | 16h00

I. Pólen nômade

Quando a guia turística mongol Purevsuren Bazarjav me diz, em bom espanhol, que, ainda hoje, 30% dos mongóis são nômades, passo a imaginar as tribos imemoriais pelas vastas estepes e montanhas nos arredores de Ulan Bator, a capital da Mongólia.

Entre os séculos 12 e 13, os centauros mongóis – guerreiros nômades sobre seus cavalos selvagens – irradiaram o maior império em área contígua da história humana. Imaginemos um bloco transcontinental que se estendia da Europa Central ao mar do Japão; do norte da Sibéria ao subcontinente indiano; do Oriente Médio à Indochina. A imposição imperial da Pax Mongolica fez florescer uma vastíssima rede de trocas comerciais e culturais por toda a Eurásia. 

Com o espectro dos centauros de Gêngis Khan a rondar meu imaginário – a guia Purevsuren pronuncia “Tchinguis Ran” –, chego a uma aldeia nômade circundada por montanhas verdejantes. (As montanhas eram sentinelas para as aldeias itinerantes – uma proteção maciça tanto contra as invasões e pilhagens dos cavaleiros piratas quanto em relação às correntes gélidas de vento que se irradiavam sem barricadas pelas estepes.) 

Hospitaleiros, os nômades me levam até suas guers, as cabanas sem raízes que seus ancestrais transportavam nos dorsos dos cavalos. Eles me oferecem biscoitos amanteigados e uma cumbuca de leite de égua. Eu me eriço todo após um trago fundo do leite – fermentado, o leite de égua me parece um verdadeiro licor das estepes. Eis, então, que o filhinho do anfitrião, não sem dar risada do meu batismo nômade, me incita a mastigar uma raiz forte para matizar o coice do leite. 

Os aldeões me convidam para singrar a estepe a cavalo. (Purevsuren me sussurra que eu lhes causei boa impressão.) Já a galope, vejo as guers brancas se distanciando e deparo com o horizonte infindo e róseo da estepe no crepúsculo. 

Quando descemos dos cavalos e os levamos para beber água junto a uma laguna circundada por ovelhas e pastores, um dos cavaleiros nômades, de olhos estreitos como frestas e pele amorenada pelo sol, me oferece um cantil de couro rústico e puído. Peço à guia (e tradutora) Purevsuren que pergunte ao cavaleiro se ele, algum dia, já imaginou transformar seu cavalo em um carro; se ele já teve a curiosidade de transformar sua guer em uma casa com raízes; se, em suma, ele já pensou em abandonar a vida nômade para se assentar em Ulan Bator. Com as modulações guturais da língua mongol, eis o que Ganzorig me responde:

– Ora, será que alguém já não se imaginou vivendo uma vida completamente diferente? Na verdade, a sua pergunta talvez me diga mais sobre a sombra da sua curiosidade do que sobre a luz que ela lança sobre a vida nômade. Purevsuren me disse que você é escritor, certo? (Digo a Ganzorig que sim com um breve aceno.) Pois então: que escritor já não se imaginou na pele de suas personagens? Que escritor já não as amou – e não as invejou? Que escritor já não rodou o mundo sem sair do lugar? Ora, você também é um nômade... E vamos olhar para o que as pessoas fazem quando querem driblar a rotina: elas saem de casa, elas buscam passeios inusitados, elas viajam – vocês tentam expandir o mapa da vida. E o que é tudo isso, senão o pólen nômade? Parece, então, que ninguém consegue ter um carro sem sonhar com a crina de um cavalo. E, a bem dizer, a imagem de um caixão – a derradeira casa com raízes – já é suficientemente triste e certa para estancar o nômade que há mim – e para aprisionar o nômade que há em todos nós.

II. Raízes nômades, imigração perpétua 

Quando os nômades se põem a tocar o juur, o violino de cabeça de cavalo, Purevsuren Bazarjav, que também é professora de Língua e Literatura Espanhola na Universidade Nacional da Mongólia, se lembra de alguns versos de O Violino de Cabeça de Cavalo, do poeta mongol Mishig Tsedendorj (1932-1982): “Com o dedilhar do sensato juur / a meu próprio cavalo invoco. / Episódios dos arredores do mundo / Com apenas duas cordas relata / o juur oriundo de um povo insólito, / em cujo solo pátrio a Ásia bate as origens de seu coração.” 

Enquanto tocam o algo melancólico juur, os nômades entoam o khoomei, um canto gutural que pode remontar a 4 mil anos atrás e que, segundo me explica Bazarjav, “permite que a voz humana execute até três tipos independentes de sons, resultantes de uma técnica apuradíssima que combina múltiplos movimentos do abdômen e da garganta, das cavidades nasais, da língua e dos lábios.” 

A melancolia do juur e a visceralidade do khoomei exalam uma aura nostálgica em meio à aldeia – sentados ao redor da fogueira, é como se entreouvíssemos (e revivêssemos) os nômades imemoriais. Já os versos de Tsedendorj invocam a Mongólia como o coração original da Ásia – como se, para as estepes, convergissem os arredores do mundo. 

Embalado pela verve nômade – e por mais uma rodada do leite de égua, o licor das estepes –, pergunto para Purevsuren se ela sente que as tradições mongóis ainda pulsam entre os jovens e se, para além da nostalgia bucólica e imperial, a Mongólia ainda se vê como o berço da Ásia. Com os olhos marejados pelo lirismo dos nômades – a avó de Purevsuren, aos 80 anos, ainda migra das montanhas para as estepes (e das estepes para as montanhas), a depender da gentileza primaveril (ou da fúria invernal) dos ventos –, eis o que a professora hispanohablante me diz: 

– Certa vez, um presidente do México suspirou: “Pobre México... Tão longe de Deus – e tão perto dos Estados Unidos”. Quando eu penso que a Mongólia está premida entre os coturnos da Rússia, ao norte, e as garras da China, ao sul, o que se há de fazer? (Purevsuren suspira.) Quando eu penso que, entre os 3 milhões de mongóis, 1 milhão já saiu do país, sinto que nosso nomadismo foi condenado à imigração. (Purevsuren volta a suspirar.) Imigração perpétua.

III. Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar

A viagem a bordo do Grande Expresso Transiberiano começa em Ulan Bator. Em algumas horas, o trem passa a singrar a Federação Russa. Da janela de minha cabine, vejo a sucessão vertiginosa de estepes entremeadas pela taiga, a floresta siberiana de coníferas que mais parece um pelotão perfilado. Logo desponta uma casinha rústica de madeira, em frente da qual um velho de cabelos e barbas bem brancos parte a lenha e limpa o suor do rosto com um lenço amarelo amarrado ao redor do punho. E eis que a jovem Nástia, a funcionária do trem que cuida de nossas cabines, nota que não consigo tirar os olhos da sucessão infinda das estepes. Ela pede, então, que eu imagine a vastidão siberiana recoberta de neve no ápice do inverno. Quando faço menção de ficar boquiaberto, Nástia saca uma garrafa de vodca de não sei onde e me diz:

– Para nós, os russos siberianos, 40 quilômetros, 40 graus abaixo de zero e 40% de teor alcoólico não são nada – absolutamente nada!

Nástia enche dois copinhos e, antes de decretar que precisamos entorná-los em um só trago, ela sentencia:

– Na zdorovie! (Saúde!) 

Súbito, o Grande Expresso Transiberiano passa a margear o Lago Baikal, e Nástia me revela, entre tragos e soluços, que “o Baikal é o mais antigo e profundo lago da Terra, com 25 milhões de anos e 1.680 metros de profundidade. Há quem diga que o Baikal é um oceano nascente, já que suas margens crescem 2 centímetros por ano”. (Nástia me mostra as unhas e as pontas dos cabelos como parâmetros para a expansão do gigante Baikal.)

Descemos do trem e vamos até as margens. Eis que vejo a pequena Sacha a olhar, sucessivamente, de sua bailarina que dança impulsionada por uma manivela para o vaivém das marolas do Baikal. Súbito, Sacha pergunta para a mãe:

– Quando acaba a corda, a bailarina para de dançar, né, mamãe?

– É isso mesmo, querida. 

Sacha volta a olhar para as marolas do Baikal. Súbito, ela pergunta: 

– E quando vai acabar a corda do lago, mamãe? 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral na Northwestern University 

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