Leonhard Foeger/Reuters
Leonhard Foeger/Reuters

Mulheres dominam a temporada na música erudita em 2018

Destaques são a soprano russa Anna Netrebko, a italiana Anna Caterina Antonacci e a pianista venezuelana Gabriela Montero

J​oão Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

16 Dezembro 2017 | 16h00

As mulheres dominarão a música em 2018. Justo reconhecimento. Elas vêm ocupando cada vez mais espaço nas salas de concerto, das vozes privilegiadas às estantes de instrumentistas e ao pódio. A democratização de gêneros é hoje uma realidade, ao menos na música.

Um voo panorâmico destaca, em primeiro lugar, aquela que deverá ser a mais incensada atração do ano, a linda e talentosíssima soprano russa Anna Netrebko, 46 anos. Sua história de vida é a de uma Cinderela: estudava no conservatório e trabalhava como faxineira no Mariinski, em São Petersburgo, quando o maestro Valery Gergiev a fez se desvencilhar do pano de chão e subir ao palco do lendário teatro russo. A beleza notável e uma voz verdadeiramente excepcional – agudos fáceis, região central sólida, ressonância nos graves, segundo os especialistas – transformaram-na na maior soprano das últimas duas décadas. Ela reina soberana, num momento em que assume em definitivo o repertório mais pesado de soprano dramática (as óperas de Wagner e as de Puccini, como Manon Lescault e Tosca). Nem tudo serão flores, na noite de 6 de agosto de 2018, na Sala São Paulo. Ela traz a tiracolo o marido tenor Aliyev Yusif Eyvazov, de 40 anos, e o filho Tiago (o casal vive em Viena). O problema é que Eyvazov vem colecionando críticas negativas por onde passa. Mesmo assim, vai valer a pena assisti-la no auge de sua carreira.

+++A música em tempos de likes

Em geral, as cantoras costumam navegar no clímax de suas potencialidades vocais e expertise artística entre os 40 e os 60 anos. É o caso de outras quatro cantoras que também se apresentarão aqui em 2018. Todas excepcionais, têm em comum o registro vocal: mezzo-soprano. A meio caminho, como o nome diz, entre o soprano e o contralto. O papel mais emblemático de mezzo na ópera é o da incandescente Carmen de Bizet. Estas sopranos de registro mais grave são perfeitas para papéis originalmente concebidos para os “castrati” no século 18 e para as óperas de Mozart. A Netrebko das mezzos é a romana Cecilia Bartoli, de 51 anos. A rainha não vem, mas quatro vice-rainhas brilharão por aqui. A checa Magdalena Kozená, 44 anos, que se apresenta em junho com Les Violons du Roy, na temporada da Sociedade de Cultura Artística, destaca-se mais por ser não só mulher do maestro inglês Simon Rattle como sua parceira artística em concertos e gravações da Filarmônica de Berlim. Fará repertório barroco, trechos de óperas de Haendel. 

A italiana Anna Caterina Antonacci, 56 anos, como Kozená, também já encarnou Carmen nos palcos e em gravação. Interpreta duas das mais belas criações vocais de Berlioz: A Morte de La Captive, ao lado da Osesp, orquestra e coro, regidos por Marin Alsop (28-29/6). Argentina filha de pais eslovenos, a mezzo Bernarda Fink, 62 anos, interpreta a Cantata 170 de Bach e dez canções bíblicas de Dvorák, ao lado da Camerata Salzburgo, em abril. O quarteto de mezzos completa-se com a austríaca de Salzburgo Angelika Kirchschlagen, 52 anos. Ela participa em março, pelo Mozarteum Brasileiro, do espetáculo coletivo Divas, em Trancoso, no litoral baiano (6/3). Na verdade, uma saborosa moqueca musical onde cabem My Way, a Ave Maria de Bach-Gounod, Stand by Me, Embraceable You (Gershwin) e o célebre lied Der Erlkönig, de Schubert.

As mulheres continuarão brilhando para além da voz em 2018. Em 5 de abril, na moderna Sala Minas Gerais, a pianista venezuelana Gabriela Montero, 47 anos, faz a estreia latino-americana de seu Concerto Latino, ao lado da Filarmônica de Minas Gerais, regida por seu titular Fábio Mechetti. Concerto imperdível que não se repetirá aqui. A obra teve estreia mundial março do ano passado, com Kristjan Järvi e a Orquestra da MDR em Leipzig (é possível assistir na íntegra em no Youtube). Na semana seguinte, ela virá a São Paulo para solar de 12 a 14 o Concerto no. 14, K. 449, de Mozart, com Osesp e Alexander Shelley. Anda bem que na terça, 8, fará um recital não-ortodoxo, que começa com as Cenas Infantis de Schumann e incluirá, além da Sonata 2 de Shostakovich, as Canções Infantis de Chick Corea. Gabriela improvisará temas propostos pelo público (como, aliás, começou a fazer há algum tempo também o nosso André Mehmari).

Outro evento imperdível da temporada 2018 da Filarmônica de Minas Gerais é o Festival Bernstein. Três outros concertos, entre 21 de julho e 10 de agosto, fazem o tributo mais suculento nos cem anos de seu nascimento. Estão ali o Leonard Bernstein das salas de concerto e da Broadway. Dia 21 as lindas árias e barcarolas e Trouble in Tahiti, com um elenco em que se destacam o barítono Paulo Szot e a direção cênica de André Heller; dias 2 e 3, a abertura do musical Candide, a suíte sinfônica de On the Waterfront (que a Osesp faz em 6 de dezembro) e a Sinfonia no. 2 – The age of Anxiety, que, apesar do nome, é uma peça para piano e orquestra, com Ronaldo Rolim; e nos dias 9 e 10, a Serenata (de fato, um concerto para violino e orquestra, com Rachel Barton Pine), a música do balé Fancy Free e as Danças Sinfônicas de West Side Story. 

No domínio das músicas do nosso tempo, a Osesp fará um 2018 impecável. O francês Philippe Manoury, 62 anos, vem a São Paulo em setembro como compositor visitante e terá duas obras aqui estreadas: o Concerto para Flauta com Emmanuel Pahud, de 13 a 15; e o Quarteto Osesp interpreta Stringendo no dia 9. Os pianistas Pierre-Laurent Aimard e Tamara interpretam Visions de l’Amen de Messiaen no dia 7 de agosto, ao lado da sonata para dois pianos de Brahms (versão do compositor para seu quinteto de piano e cordas). A dupla também toca com a Osesp e Markus Stenz o concerto para dois pianos e percussão de Bartók (9 a 11/8), versão de sua sonata para dois pianos e percussão. Absolutamente imperdível o recital solo de Pahud no dia 15 de setembro, tocando Takemitsu, Varèse, Berio e Pintscher, entre outros. Fecha o arco contemporâneo a execução de Terra Memoria, da compositora finlandesa Kaija Saariaho, 65 anos, com o Quarteto Modigliani, em 23 de outubro, na Sala São Paulo.

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor de 'Pensando as Músicas no Século XXI' (Ed. Perspectiva, 2017) 

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