Museu Macan
Museu Macan

Museu é fundado na Indonésia com 800 obras de um mecenas

Com trabalhos de artistas indonésios e estrangeiros, Museu Macan é referência em Jacarta

Jon Emont , The New York Times

30 Dezembro 2017 | 16h00

JACARTA, INDONÉSIA - Para uma cidade de grandes dimensões – 10 milhões de habitantes – e alto poder econômico, faltavam a Jacarta muitas das coisas que se poderia esperar de uma próspera metrópole asiática: um sistema de metrô, por exemplo, além de um grande museu de arte moderna e contemporânea internacional.

O sistema de metrô estará funcionando em 2019, e o museu de arte contemporânea chegou até antes. Em 4 de novembro, o Museu de Arte Moderna e Contemporânea em Nusantara, conhecido como Museu Macan, abriu suas portas ao público. Tem 800 obras contemporâneas e modernas pertencentes a Haryanto Adikoesoemo, fundador do museu, um magnata dos setores imobiliário e de produtos químicos, que se tornou um prodigioso colecionador de arte. Situado em um piso em forma de ferradura de uma torre na parte oeste da cidade, o museu nos seus primeiros dias, surpreendeu as multidões de Jacarta com instalações de luz fantasmagórica como Sala dos Espelhos Infinitos – O Esplendor das Almas, ao lado de pinturas clássicas indonésias, como as de Raden Saleh.

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Adikoesoemo, de 55 anos, diz que está determinado a adicionar uma dose de cultura a uma cidade conhecida principalmente por seus palacianos shoppings e horrível trânsito. “Se vou para a Europa, vou aos museus para relaxar”, explicou Adikoesoemo, sentando-se na beira de sua cadeira na sala de jantar da mansão da família, no coração de Jacarta. “A Indonésia ainda não tem essa cultura.”

Adikoesoemo, membro do conselho diretor do Hirshhorn Museum e Sculpture Garden em Washington, vem colecionando obras de arte há mais de 20 anos e acumulou uma coleção eclética que é uma mistura de modernistas indonésios como Affandi, artistas contemporâneos ocidentais como Jean-Michel Basquiat e Jeff Koons, e proeminentes contemporâneos do Japão e da China, incluindo Kusama e Ai Weiwei. Embora o ecletismo possa representar um desafio para os curadores que tentam elaborar exposições coerentes a partir da coleção pessoal de Adikoesoemo, Aaron Seeto, o diretor do museu, insiste em afirmar que a diversidade é uma benção.

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“Uma das coisas que estamos realmente buscando no programa é apresentar a Indonésia ao mundo, estabelecendo um diálogo entre a Indonésia e outros lugares”, disse Seeto, um australiano. “Isto é o que os museus de todo o mundo gostariam de ter condições de fazer, mas suas coleções não lhes permitem isso.”

Uma exposição inicial mostra a história da arte indonésia, destacando as obras de Saleh, pintor romântico indonésio do século 19, que viveu na Europa durante duas décadas, para demonstrar como os movimentos artísticos indonésios foram influenciados por tendências internacionais. A maioria dos trabalhos exibidos no museu será da coleção pessoal de Adikoesoemo, mas ele investiu em instalações de manutenção de última geração que, segundo ele, permitirão que o museu apresente obras emprestadas de museus internacionais de todo o mundo.

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Criar o Museu Macan foi durante uma década o sonho de Adikoesoemo, cuja tentativa inicial de colecionar arte foi tragada pela crise financeira asiática de 1997 e 1998, quando sua família perdeu quase tudo. Ele foi forçado a vender todas as suas peças mais valiosas – incluindo um Renoir e um amado Picasso – para atender aos credores. “Eu precisava de dinheiro, então fui obrigado a me desfazer de todos meus impressionistas”, ele disse com um sorriso. “A crise foi muito rigorosa.”

Adikoesoemo nasceu em uma família de classe média no leste de Java no início da década de 1960, no auge da turbulência política e econômica da Indonésia, durante a transição para o domínio do ditador Suharto. No momento em que Adikoesoemo chegou ao ensino médio, a situação política estabilizou-se e seu pai, Soegiarto Adikoesoemo – que comercializava produtos químicos para fábricas locais de têxteis e borrachas – comandava uma operação próspera.

Com um olho voltado para seu futuro nos negócios da família, Adikoesoemo foi mandado para a Universidade de Bradford na Grã-Bretanha, onde obteve um diploma em administração de empresas. Não havia grandes debates sobre arte em casa e, na sua juventude, Adikoesoemo não estava particularmente interessado no tema. “Sempre quis ser empresário quando era jovem”, disse.

Adikoesoemo teve uma espécie de despertar no início da década de 1990, quando visitou a casa de campo de um amigo na ilha turística indonésia de Bali. Seu amigo “tinha tantas obras de arte na parede”, disse Adikoesoemo. “Isso tornava sua casa muito colorida, muito vibrante, muito agradável, que me fez refletir: “talvez eu devesse começar a colecionar arte para colocar em minhas paredes.” Adikoesoemo começou comprando obras de arte indonésias e, em 1996, passou a investir em pinturas modernistas, incluindo um Picasso.

Mas os bons tempos não duraram muito. A crise financeira abalou a Ásia em 1997, fazendo despencar o valor da rupia. Adikoesoemo incentivou seu pai a assumir dívidas para expandir os negócios rapidamente, e a crise deixou seus negócios expostos e extremamente alavancados.

O pai disse que ele era louco por ter investido tanto em pinturas ocidentais, mas com os ativos indonésios avaliados em praticamente nada, Picasso e Renoir estavam subitamente entre os bens mais valiosos da família. Adikoesoemo vendeu obras de arte ocidentais como parte de um acordo de reestruturação da dívida com 28 bancos estrangeiros. “Na época, meu pai tinha 63 anos, então ele disse: ‘agora depende de você. Se puder encontrar uma solução, e resolver, os negócios são seus; se você não puder resolver, não haverá nada para você’”, lembrou Adikoesoemo. No início dos anos 2000, com a economia ainda em recuperação, o jovem Adikoesoemo conseguiu pagar as dívidas e restabelecer a empresa familiar.

Ele nunca esqueceu que Picasso e Renoir salvaram sua fortuna. “Percebi que a arte é um investimento – quando você precisa de dinheiro, ainda pode obter valor com isso”, disse ele. Mas quando ele voltou a comprar obras de arte no início dos anos 2000, os preços tinham atingido uma alta astronômica, então ele mudou o foco de suas aquisições e comprou principalmente arte contemporânea.

Além de serem sólidos investimentos, as peças contemporâneas ficaram bem em sua casa minimalista, com tetos altos, janelas enormes e paredes brancas. “A arte contemporânea, que é muito colorida, fica bem com o branco”, disse Adikoesoemo.

Mas ele reconhece que a fundação de um museu e a abertura de sua coleção pessoal ao mundo, vem com um interesse muito maior do que encontrar a arte que combine com sua casa.

O empresário comparou isso com a ansiedade de iniciar um novo empreendimento. “É a mesma coisa”, disse. “Traz ansiedade, e isso gera um bocado de emoção e adrenalina.” / Tradução de Claudia Bozzo 

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