Filipa Adreia
Filipa Adreia

My Magical Glowing Lens lança primeiro álbum movido a sintetizadores

Projeto surgido no quarto de Gabriela Deptulski reforça novo cenário da psicodelia brasileira

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 06h00

Quando criança, Gabriela Deptulski olhava para a imensidão escura e pontilhada por estrelas do céu de Colatina, no Espírito Santo, e se perdia. Queria ser astrônoma, viver daquela forma, de queixo para cima, de olho naquele negrume infinito. Não é por acaso que hoje, aos 28 anos, com diplomas de graduação e mestrado em filosofia, o primeiro disco do projeto que nasceu no seu quarto, com a guitarra no colo, faça uma ponte direta com esse imaginário. Lançado agora pela Honey Bomb Records, o álbum Cosmos é uma passagem sem volta para essa imensidão imaginada por ela ao longo da vida. 

Surgido no início da década, em um levante de psicodelia brasileira, pipocando nas grandes praças do País, o My Magical Glowing Lens é um projeto criado por Gabriela para fugir da racionalidade da dissertação, das regras da ABNT (sigla para Associação Brasileira de Normas Técnicas, um pesadelo para qualquer um que já tenha chegado próximo). “Estava ouvindo Tame Impala naquela época”, contou Gabriela na primeira entrevista ao Estado, em 2015. Na época, o MMGL tinha apenas um EP, lançado um ano antes. Eram quatro músicas, gravadas todas por ela e com vocais em inglês. As guitarras comandavam as invencionices sonoras dela, como numa tela na qual uma cor se sobrepõe à outra, uma pincelada por vez. 

O que se verá na noite deste sábado, 14, no Sesc Belenzinho, será diferente. A banda surgida em Vitória, a 130 km da capital do Estado integrou-se ao movimento com tendências lisérgicas – esteticamente falando – e partiu para a estrada. O que se escuta em Cosmos é fruto da ‘fritância’ sonora das guitarras já conhecida de Gabriela com o acréscimo de novos temperos, como os sintetizadores e uma bateria que soa mais orgânica, já que foi gravada em estúdio, tal qual os outros instrumentos usados no disco. E como fez a mais importante banda internacional dentro desse novo cenário, a australiana Tame Impala, o My Magical Glowing Lens passou também a ver suas canções emergirem dos sintetizadores. Músicas antes surgidas na guitarra, agora também brotam dos teclados – e, embora a diferença não seja gritante, é possível perceber como se troca o centro gravitacional das canções dessa nova safra.

No ano passado, ao longo de um mês e com as bases das canções de Cosmos já feitas, a artista rodou o Nordeste com uma das formações do My Magical Glowing Lens e o convívio com os integrantes acendeu a ideia de que aquele trabalho poderia ser “menos quarto, mais banda”. “A convivência foi importante para o que viria a se tornar o disco Cosmos”, relembra Gabriela. “Depois desse tempo todo juntos, pensei sobre gravarmos esse álbum de uma forma mais coletiva.” 

“Isso não quer dizer que tenha sido fácil desapegar das músicas”, continua a líder da banda. “Passei muito tempo trabalhando nessas canções, nas demos, criando tudo. Muitas das demos chegaram ao estúdio já arranjadas e, lá, começamos a retrabalhar”, conta. A formação que gravou Cosmos, contudo, já é outra. Atualmente, quem se apresenta ao lado de Gabriela, a responsável pelos vocais e pela guitarra, são: Henrique Paoli (bateria), Marcos Penitente (baixo) e Thaysa Pizzolato (sintetizadores).

É da estrada que vive o eu artístico. Gabriela já acompanhou a banda Bike, grupo paulistano também adepto das guitarras viajantes e, em dezembro, partirá para os Estados Unidos para entrar em turnê com o projeto chamado Winter, da curitibana residente no país Samira Winter. Numa madrugada de sábado em maio deste ano, em uma pequenina casa de shows em Belo Horizonte, Gabriela e seu My Magical Glowing Lens eram as últimas atrações a subir ao palco. Com atrasos dos grupos anteriores, surgiram quando parte do público já havia cansado e partido. Gabriela, ainda assim, devorou a guitarra que tinha em mãos. Ajoelhada, enfeitiçava as cordas da guitarra para dançarem conforme quisessem. Quem viu, testemunhou a transformação pela qual a artista passou após a experiência de rodar o Brasil com a banda. 

A estrada também impulsionou Gabriela criativamente para colocá-la em um outro momento. O que Cosmos reflete, também, é o cenário encontrado pela artista ao longo dessas viagens. Porque o álbum, embora evoque o espaço sideral, a flutuação sem gravidade e as estrelas a milhões de anos-luz de distância, também é um trabalho sobre onde vivemos, o planeta ao qual pertencemos. Cosmos oferece o mesmo sentimento de se olhar para o céu. A imensidão impacta, apequena os olhos humanos e traz uma nova consciência para a existência. Somos pequenos demais em um universo tão grande. 

Acostumada a olhar para cima, Gabriela também decidiu descer o queixo, olhar para o que está ao lado. E o que viu a aterroriza: como o Rio Doce, que cruza a sua cidade, seco. “É um disco que lida com isso. Com o espaço, o distante, e com o que está do nosso lado, a natureza que está morrendo.” 

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